Archive for abril, 2017

Mutreta com os Bondes…

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Agonias da atualidade onde as “maracutaias, picaretagens e malandragens”, produzem corrupção, desvios e todo tipo de transações ilegais, envolvendo políticos, corporações, instituições públicas, etc., revelam somas que já se aproximam do PIB de alguns países, não parece ser uma situação da modernidade, embora ela contribua para sua existência e no tamanho.

Há certamente problema sócio-cultural na questão, e a própria história do país apresenta alguns casos notórios destes escândalos. Um desses casos se tornou famoso, pois reúne exatamente o oportunismo de alguns em benefício próprio sobrepujando o benefício de muitos.

Bondes elétricos de São Paulo, início marcado por mutretas e muito dinheiro e favores nas mãos de poucos.

Aconteceu há 120 anos, onde dois espertalhões ganharam rios de dinheiro ao repassar para a Light a concessão do serviço do bondes elétricos na cidade de São Paulo.

Em 15 de junho de 1897, dois oportunistas, o comendador brasileiro Antônio Augusto de Sousa e o italiano Francisco Antônio Gualco, fizeram um “bom negócio”. Por influência política do comendador, conseguiram obter da Câmara Municipal de São Paulo a concessão do serviço de viação elétrica por um período de 40 anos.

Estava estabelecida a brecha para a Light, que os nacionalistas de plantão apelidariam no futuro de polvo canadense, penetrar na Capital paulista para estabelecer o monopólio da geração e distribuição de energia e dos transportes urbanos por tração elétrica.

São Paulo tinha a necessidade de modernizar o seu transporte urbano e implantar usinas hidrelétricas para poder dar um grande salto no seu processo de industrialização, pois o serviço de eletricidade já existia em outras cidades do País.

São Paulo ainda uma cidade pequena, às vésperas do século 20, os bondes ainda eram puxados por burros, um símbolo da precariedade e obsolescência do transporte público. Precisava eletrifica-los.

A causa, portanto, era nobre, mas a forma como foi feita essa concessão de serviços públicos demonstra como os republicanos recém-chegados ao poder, se premiavam mutuamente. Gualco e Souza, que obviamente nunca teriam capital para tocar um empreendimento de tal porte, só estavam interessados em encher seus bolsos agindo como intermediários de um negócio milionário. O primeiro necessitava da influência política do comendador para poder se intrometer em algo que não lhe dizia respeito, ou seja, envolver-se em negócios alheios, dentro da administração pública da cidade, ao passo que Souza dependia de um sócio para viabilizar o empreendimento no Canadá e daí tirarem proveito milionário da questão tão urgente para a cidade.

Gualco, que era capitão da Marinha italiana e um homem muito esperto para negócios, foi convencido em 1896 a vir a São Paulo estudar de que forma poderia se dar conta do empreendimento, que desde 1895 vinha sendo analisado pelo comendador. Este, por sua vez, tinha parentesco com a poderosa família Campos, dona de um mar de pés de café no Estado. Era sogro de Carlos de Campos, que exercia o cargo de secretário da Justiça do governo Campos Sales e, depois, seria eleito presidente do Estado de São Paulo, exercendo o mandato a partir de 1924 e morrendo antes de cumprir todo o seu período, em 1927.

Garantida a concessão, Gualco tratou de se mandar para o Canadá, para tratar da parte técnica, da qual o comendador Sousa nada entendia, e providenciar contratos visando reunir recursos financeiros para a estruturação da companhia, surgida em função do ato de concessão dos serviços pela Câmara Municipal.

Em decorrência desses preparativos, ainda em 1897 veio ao Brasil o engenheiro americano Frederick Stark Pearson, que desenvolvera grandes projetos hidrelétricos nos Estados Unidos, México e Canadá. 

Pearson percebeu a importância que São Paulo viria a ter em breve, já que a cidade estava em franca expansão e cada vez mais necessitada de um sistema de transporte coletivo de tração elétrica e, antes de mais nada, da própria energia elétrica. Fez os primeiros estudos para implantar o empreendimento e, de volta aos Estados Unidos, procurou atrair financiamentos. Ao mesmo tempo, Pearson orientou Sousa e Gualco para que conseguissem uma ampliação da concessão inicial para novas linhas e franquias para a produção e distribuição de energia elétrica. Sousa trabalhou nesse sentido e ficou aguardando a oportunidade para vender as concessões ao capital estrangeiro.

No Canadá, Pearson conseguiu atrair um grupo de capitalistas daquele país, como James Gunn e William Mackenzie, presidente da Canadian Northem Railway. Esse grupo fundou, em 7 de abril de 1899, a The São Paulo Railway Light and Power Company Limited, com sede em Toronto, ficando Pearson como consultor técnico da empresa. A carta-patente foi expedida pela rainha Vitória, do Reino Unido, já que o Canadá era protetorado inglês.

Carlos de Campos com emprego garantido pelo favor prestado ao sogro

A autorização para que a empresa operasse no Brasil foi assinada em 17 de julho do mesmo ano pelo então Presidente da República, Campos Sales.

Em 28 de setembro, Gualco e o comendador Sousa finalmente conseguiram concretizar a maracutaia, assinando a escritura pela qual transferiram as concessões e privilégios ao capital internacional. O preço da venda tornou-se segredo de estado mas certamente era uma grande “bolada” considerando o padrão monetário da época.

Quanto a Carlos de Campos, foi premiado pelo favor que fez ao seu sogro, pois se tomou o primeiro advogado da Light.

Em Toronto, no dia 25 de junho de 1899, a razão social da empresa foi alterada, substituindo-se a palavra Railway por Tramway, o mesmo acontecendo na filial do Brasil. A alteração ocorreu pelo fato de existir no Brasil, desde 1867, a San Paulo Railway Co. Ltd., ou a Companhia Inglesa, como era chamada popularmente, que implantou a estratégica ferrovia Santos-Jundiaí. Com a alteração, a Light deixava claro que não tinha intenção de entrar no setor do transporte ferroviário de longo curso.

Menos de um ano depois, em 7 de maio, o primeiro bonde elétrico correu em São Paulo. Coube ao presidente do Estado, Francisco de Paula Rodrigues Alves, acionar os dínamos da usina provisória, a vapor, que a Light construíra na rua São Caetano. Meia hora depois, o primeiro veículo tracionado a eletricidade saía do depósito de bondes da alameda Barão de Limeira, no Campos Elíseos, dirigido pelo próprio superintendente da empresa, Robert Brown. Percorreu toda a primeira linha, da Barra Funda a Santa Ifigênia, com ponto final no largo São Bento. A bordo, Rodrigues Alves, o prefeito Antônio Prado, secretários de Estado, políticos…


O sistema de transporte por bondes em SP, nasceu com uma maracutaia e durante sua existência por 69 anos viveu sempre acuado por interesses de toda a ordem. Próximo ao término do contrato de concessão em 1941 a Light já demonstrada desinteresse e já não investia nada nos bondes, por conta de pressões nacionalistas e dos outros interesses mencionados. Foi obrigada a operar até 1946 por determinação federal e a partir dai bondes e ônibus foram estatizados pela CMTC, marcando então o início da morte dos bondes, que sobreviveram precariamente até 1968, com os mesmos bondes que foram herdados da Light. Esta total falta de investimentos tornou os bondes ineficientes para aguentar a demanda pelo crescimento enorme da cidade, como mostra este vídeo, lotados, sem segurança, e de manutenção precária caracterizado pelo comportamento administrativo estatal. 


Como é possível concluir, todos os ingredientes da mutreta, como dinheiro, negociatas, corporações, políticos e instituições da época encheram os bolsos dos dois oportunistas, e beneficiando mais alguns que ajudaram a concretização dos negócios, como Carlos de Campos. Grande semelhança com os momentos que vivemos hoje, não ?


Bibliografia/Fontes:

  • Imagem do Bonde dos Operários – Guilherme Gaensly, Instituto Moreira Salles
  • Video: MarioFoxLog
  • Santos , João Marcelo – Os operários dos bondes elétricos: trabalho, violência e estigmatização, Revista Mundos do Trabalh/ANPUH – Florianópolis,SC – Julho   2010
  • Alves, Odair Rodrigues – Um bonde chamado mutreta, JÁ/Diário Popular #32, 07/1997 – São Paulo
  • Cosenza , Apoena C.- Gonçalves ,Marcelo – Concagh , Tiago Antônio Bosi – Light na década de 1920: urbanização e contradições na cidade de São Paulo.

Americana, a cidade dos confederados…

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A fixação de imigrantes em vários municípios do Estado de São Paulo, tal como na capital sempre foi caracterizada por ciclos imigratórias de pessoas buscando fugir de guerras, conflitos, e até por algum encantamento pelo “novo mundo”, sendo fato constatado pela história documentada e por inúmeras pesquisas sobre o tema.

A rica história desempenhada pelos imigrantes no Estado foi sem dúvida responsável pela grandeza que temos em todos os aspectos.

Americana, município da macro região de Campinas é desses municípios que contêm uma destas ricas histórias.

Apesar de povoada majoritariamente por luso-brasileiros, escravizados afro-brasileiros, imigrantes estadunidenses e, mais tarde, também por italianos, cujos descendentes, os ítalo-brasileiros, chegaram a formar o maior grupo étnico, ocorreu uma razoável imigração de norte-americanos àquela região, que acabou se tornando famosa por eles.

Quando da chegada da estrada de ferro, a estação foi chamada de “Villa dos Americanos”, tamanho o destaque dos norte-americanos. Os imigrantes trouxeram avanços nas atividades agrícolas e a descoberta da indústria têxtil como vocação econômica, sendo que, ainda hoje, é uma importante fonte de renda, juntamente com outros ramos da indústria e do comércio.

A ocupação do território de Americana de acordo com registros datam do final do século XVIII, quando Domingos da Costa Machado comprou uma sesmaria da coroa entre os municípios de Vila de São Carlos (atual Campinas) e Vila Nova da Constituição posteriormente Santa Bárbara d’Oeste).  Os registros fazem menção ainda a Antônio Machado de Campos, Antonio de Sampaio Ferraz, Francisco de São Paulo e André de Campos Furquim, que se estabeleceram nas terras de Salto Grande, distribuídas ao longo das margens dos rios Atibaia e Jaguari, afluentes do Rio Piracicaba. Cultivavam a cultura de cana de açúcar e aguardente. Em meados do século passado, crescia também o plantio de café e em seguida o de algodão.

O dinheiro da guerra. Um dólar confederado, trazido pelos primeiros imigrantes

A imigração norte americana, começa em 1865, e marca um período de desenvolvimento no campo da agricultura, com o aprimoramento do cultivo do algodão, da educação e em atividades médicas e odontológicas.

Na região foram formadas várias fazendas e pequenas propriedades rurais, sendo as principais delas a Fazenda Salto Grande, a Machadinho e a Palmeiras. Em 1866, as terras da região começaram a ser efetivamente povoadas por imigrantes norte-americanos sulistas, que após o fim da Guerra Civil Americana que se refugiaram na região.

A imigração norte-americana para o Brasil, foi amplamente incentivada pelo governo imperial brasileiro. Este enxergava  na vinda e fixação dos norte-americanos, pessoas com conhecimentos agrícolas, profissionais liberais, boa formação moral e intelectual e sobretudo famílias desejosas de se estabelecerem na zona rural – uma oportunidade de impulsionar o desenvolvimento no interior do país.

O primeiro ilustre a chegar foi o coronel William Hutchinson Norris, advogado e ex-senador pelo estado do Alabama, que se instalou em terras próximo a casa sede da Fazenda Machadinho e do Ribeirão Quilombo.

Em 1867 o restante de sua família chega ao Brasil acompanhado de dezenas de outras famílias de confederados, que aqui se instalaram para refazerem suas vidas como agricultores. Estas famílias se instalaram em vários pontos da região da Vila de Santa Bárbara, trazendo novas técnicas de cultivo, como o arado e o trole, e também a espécie de melancia conhecida como “Cascavel da Geórgia”.

A Vila dos Americanos que originou a cidade de Americana tem registro parcialmente controverso, mas pode-se listar  uma série de fatores que contribuíram para isso. O principal deles, como aconteceu em outras cidades foi sem dúvida, as obras de prolongamento da linha ferroviária tronco da Cia. Paulista e a construção da Estação de Santa Bárbara.

Foi decidido na época que a estação seria construída em frente a sede da Fazenda Machadinho, de propriedade de Basílio Bueno Rangel. Com isso, a região começou a receber intensa movimentação dos funcionários da Cia. Paulista, e dos sitiantes da região, que aproveitavam a movimentação para venderem seus produtos.

Alguns confederados inclusive ajudaram trabalhando na colocação dos dormentes dos trilhos. Foram formadas, então, as primeiras moradias temporárias dos funcionários da Cia. Paulista. A primeira estação foi inaugurada em 27 de agosto de 1875.

Nesta mesma época, o capitão Inácio Correia Pacheco, outro proprietário da Fazenda Machadinho, loteia parte de suas terras, onde aos poucos surge a pequena vila ao redor da estação. Com a construção da Estação de Santa Bárbara, pretendia-se facilitar o escoamento da produção das fazendas da região até o porto de Santos. A estação foi batizada com este nome porque estava em terras da Vila de Santa Bárbara, que embora distante aproximadamente 10 quilômetros, não possuía uma estação ferroviária em sua vila. A divisa entre os municípios de Santa Bárbara e Campinas era o Ribeirão Quilombo, sendo as terras além dele pertenciam a Campinas, e as aquém pertencia a Santa Bárbara.

A Villa Americana em 1906 que se tornaria uma próspera cidade, com imigrantes americanos, italianos e portugueses

Também em 1875 é fundada pelo confederado e engenheiro Willian Ralston associado aos irmãos fazendeiros Antonio e Augusto de Souza Queiroz, a futura Tecelagem Carioba distante 3 km da estação ferroviária. Em 8 de outubro de 1887, chegou ao Brasil Joaquim Boer, chefiando uma grande comitiva de imigrantes italianos, que passou a residir na Fazenda Salto Grande, que na época era de propriedade de Francisco de Campos Andrade. Em 1884, a Tecelagem Carioba é adquirida pelos irmãos ingleses Clement e George Willmot, que a ampliaram, fazendo algumas melhorias, e iniciaram a construção da Vila Operária. Também foram eles que em 1889, a batizaram como Fábrica de Tecidos Carioba, palavra que em tupi significa “pano branco”. Após a abolição da escravatura, em 1888 os irmãos ingleses, que também eram proprietários da Fazenda Salto Grande, ficaram endividados com o Banco do Brasil, e acabaram falindo em 1896, passando a fábrica por uma paralisação de cinco anos.

Aquela pequena vila formada ao redor da estação não tinha um nome oficial. Este fato gerou um grande problema para os seus moradores, que tinham dificuldades para se corresponderem. As cartas que eram destinadas a “Vila da Estação de Santa Bárbara”, eram entregues na “Vila de Santa Bárbara”, e acabavam sendo perdidas, numa época em que este era o principal, senão o único, meio de comunicação das pessoas. Em 1900, a Cia. Paulista decide mudar seu nome para Estação de “Villa Americana”. Este nome foi escolhido por causa dos americanos confederados que moravam na vila. Logo a vila ficou conhecida pela consagração popular como “vila dos americanos” ou “vila americana”. Em 1901, a falida Fábrica de Tecidos Carioba é arrematada em um leilão pelo Comendador alemão Franz Müller, em associação com seu irmão Hermann Theodor, e com o capitalista inglês Rawlinson.

Trajes e tradições da América dos confederados são relembrados anualmente pelos descendentes em Americana e Santa Bárbara

O Comendador Müller, muito encantado com a beleza natural do lugar onde a tecelagem estava instalada, resolve lá se instalar com toda sua família em 1902. Na administração da Família Müller a fábrica cresceu e ganhou projeção nacional, tornando-se a célula-mãe do Parque Industrial de Americana. A Vila Operária de Carioba  foi ampliada e recebeu toda a infraestrutura necessária aos funcionários da fábrica. Em 30 de julho de 1904, após anos de briga judicial entre os poderes executivos de Campinas e Santa Bárbara, sobre quem teria direito sobre o território da vila, o poder executivo estadual cria pela lei nº 916, o Distrito de Paz de Villa Americana, dentro do município de Campinas.

Em 1906 o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Elihu Root, em visita oficial ao Brasil, é informado da existência da Villa Americana, e mostrou interesse em conhecê-la. Depois de terminado todos os compromissos na volta de sua viagem, ele desembarcou na estação de Villa Americana e foi recebido com grande emoção por americanos e descendentes. Como a localidade ainda não tinha energia elétrica, as centenas de americanos que foram recebê-lo levavam tochas, que na noite escura, formavam uma visão impressionante.

Root emocionou-se a ponto de chegar às lágrimas.

Quanto a educação das crianças, era uma das prioridades para as famílias americanas que constituíam escolas nas propriedades e contratavam professores vindos dos EUA. Os métodos de ensino desenvolvido pelos professores americanos se revelaram tão eficientes que foram posteriormente adotados pelo ensino oficial brasileiro.

Os cultos religiosos eram celebrados nas propriedades por pastores que se deslocavam entre várias propriedades e os vários núcleos de imigração americana. Em 1895 foi fundada a primeira Igreja Presbiteriana no povoado da Estação.

Devido a proibição de se enterrarem pessoas de outros credos nos cemitérios das cidades administradas pela Igreja Católica, os imigrantes americanos começaram a enterrar seus mortos próximo a uma sede de fazenda.

Este cemitério acabou com o tempo sendo conhecido como Cemitério do Campo (que já teve a visita de Jimmy Carter). Até hoje os descendentes das famílias americanas são aí enterrados. É nesse local que se reúnem periodicamente os descendentes para cultos religiosos e festas ao redor da capela fundada no século passado.

Jim Jones recebendo Jimmy Carter no Cemitério do Campo ou cemitério dos americanos, como também era conhecido.

Com a elevação da vila à categoria de distrito, viu-se um rápido desenvolvimento. Criou-se o primeiro serviço policial, uma subprefeitura, a primeira iluminação pública feita com três lampiões de querosene trazidos da Alemanha e a criação da primeira escola oficial com o envio do professor Silvino José de Oliveira pelo estado. Todos estes feitos foram criando as condições necessárias para que seus moradores começassem a lutar pela sua emancipação.

No ano de 1922, Villa Americana era um dos distritos de paz mais progressistas de Campinas, e tinha uma população de 4500 habitantes. Neste ano iniciou-se a luta política pela emancipação, encabeçada por Antônio Lobo e outros como o tenente Antas de Abreu, Cícero Jones e o próprio Hermann Müller.

O trabalho destes e de tantos outros moradores da vila finalmente teve a consagração. Em 12 de novembro de 1924, foi criado o Município de Villa Americana, composto de dois distritos: o de Villa Americana e o de Nova Odessa, que mais tarde daria se tornaria o município de Nova Odessa.


A origem, o desenrolar e as controvérsias sobre a história da cidade e dos americanos que lá se instalaram 


Em 1930 na ditadura Vargas, a Villa Americana vivia uma fase de profundo crescimento principalmente na indústria têxtil. Então em 1932 durante a administração do prefeito Antônio Zanaga, estoura a Revolução Constitucionalista contra o regime Vargas. Vários jovens de Villa Americana foram voluntários nesta guerra. Três deles, Jorge Jones, Fernando de Camargo e Aristeu Valente acabaram tombando em Monte Sião e hoje são considerados heróis em Americana e Nova Odessa.

Em 1938, ainda na gestão do prefeito Antônio Zanaga, a cidade, devido ao grande crescimento, abandona o nome de Villa e passa a se chamar apenas Americana. A década de 1930 foi o auge do desenvolvimento econômico de Americana, que passou a ser conhecida como a capital do Tecido Rayon.

O progresso e o desenvolvimento acentuado na segunda metade do século XX provocou a criação da Comarca de Americana, durante a administração do prefeito Jorge Arbix em 31 de dezembro de 1953.

Nas décadas de 1960 e 1970, um rápido desenvolvimento ocorreu na cidade, atraindo muitas pessoas a procura de emprego e moradia. Como o território do município é pequeno ele não comportou esse crescimento, e essas pessoas só tiveram a opção de se estabelecer na divisa entre os municípios de Santa Bárbara d’Oeste e Americana.

A década de 1990 foi marcada pela crise no setor têxtil, do qual a cidade sempre dependeu muito. A principal causa da crise foram as importações de tecidos de baixo custo (chineses), criando uma concorrência desleal com as tecelagens brasileiras.

A crise só não foi pior porque a cidade já passava por um processo de diversificação da economia, processo que aumentou nos anos seguintes. Hoje, apesar de a indústria têxtil ainda ter presença marcante, a cidade se destaca em outros setores de produção, como metalúrgico, químico e alimentício e com o crescimento de serviços.

Apesar de imigrantes de outras nacionalidades, a cidade outrora vila, teve uma participação grande dos confederados refugiados e seus descendentes que ainda mantêm tradições e costumes de seus estados natais.

Um dos nomes que devem ser lembrados é de Charles Fenley Jones, comandante do Exército do Norte da Virgínia que tinha três filhas Rita Lee Jones, Mary Lee Jones e Virginia Lee Jones. Uma delas, Rita Lee, se tornou a rainha do rock nacional, tirando o “Jones” do nome por razões profissionais quando se tornou cantora do grupo de rock de São Paulo nos anos 60, Os Mutantes.

Por ocasião do centenário da imigração norte-americana, foi organizado um museu em Santa Bárbara D’Oeste, o qual reúne grande número de objetos e documentos dos pioneiros da imigração.

O resgate da história dessas famílias e sua contribuição ao desenvolvimento das localidades de Americana e Santa Bárbara D’Oeste foi muito bem documentado pela historiadora Judith Macknight Jones em sua obra: “O soldado descansa; uma epopéia norte-americana sob os céus do Brasil”.

Que fique ainda mencionado que foi em 1.928 que o Cemitério do Campo foi oficializado pela Prefeitura Municipal de Santa Bárbara e em 1954 a área foi doada pela família Bookwalter à Fraternidade Descendência Americana, responsável por sua preservação. Aí são realizadas reuniões quadrimensais e uma ampla reunião anual.

Nesta ocasião os descendentes das famílias americanas vestidos com uniformes confederados e as jovens com vestidos inspirados nos trajes do século XIX apresentam danças típicas do grupo. A festa, realizada no parque, em frente à Igreja, é uma oportunidade para entrosamento dos descendentes e a preservação de suas tradições.

Hoje, com de acordo com os descendentes desses imigrantes, não há qualquer teor político nessas festividades, já que elas são um costume cultural local em memória dos imigrantes americanos.


A festa confederada de 2016, mantendo as tradições dos imigrantes


Com alguma regularidade a imprensa dos Estados Unidos escreve sobre Americana. Aqui duas matérias das mais recentes:

American Civil War commemorated way down south of Dixie by Brazilian heirs of Confederates
Brazils Secret History Southern Hospitality


Bibliografia/Fontes:

  • Harter, Eugene C – The Lost Colony of the Confederacy, Williams-Ford Texas A&M University Military History Series – 06/01/2000, College Station, Texas – USA
  • Jones, Judith Mac Knight – Soldado Descansa! Uma Epopéia Norte Americana Sobre Os Céus Do Brasil, Edições Jarde – 1967, São Paulo – BR
  • Piffer , Giovani Poppi – A imigração norte-americana no Brasil, seus motivos e as raízes de seu trabalho evangelizador, Universidade Estadual de Maringá-Pr – 15/12/2011, Maringá – PR – BR
  • Barchfield, Jenny – American Civil War commemorated way down south of Dixie by Brazilian heirs of Confederates -AP April 27, 2017 
  • Bloom, Stephen G. – Brazil’s Secret History of Southern Hospitality, Narratively Culture – Jul 7,2014, NY –USA
  • Imagens: P/O: Juliana Pinheiro, globo.tv, Adilson Valame, Edgar Castellon, João Passarinho, Maurício Pavan/Acervo Wiki e pessoal

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