Quase isto. Este ser de anatomia complexa surpreende pelos exageros biológicos. São animais microscópicos segmentados, relacionados com os artrópodes. São também popularmente conhecidos como ursos-d’água ou leitões do musgo.

Sua história científica começa em 1773 quando foram descritos pela primeira vez. Em 1776 recebeu o nome de Tardígrado pelo italiano Lazzaro Spallanzani. Eles são na maioria fitófagos, embora existem alguns predadores, como o Milnesium tardigradum.

Eles são muito resistentes, pois podem sobreviver a temperaturas variando desde pouco mais do que o zero absoluto (-273,15 °C) até os 150 °C, e a pressões de 6 mil atmosferas e sob radiação de 5000 Gy (de raios-gama) e 6200 Gy, que é de aproximadamente 1000 vezes mais que um ser humano pode suportar.

Esses microscópicos seres são na verdade invertebrados, possuindo oito patas, onde cada uma possui de quatro a oito pequenas garras e seu corpo situa-se entre 0,05 a 1,25 mm. Seu habitat é entre os musgos e liquens, podendo ser fortemente pigmentados, de cores variadas do laranja avermelhado ao verde oliva.

Eles são considerados os animais mais resistentes do planeta por possuírem características singulares e de adaptação a ambientes muito inóspitos. De aparência nada amigável é um ser inofensivo para os humanos. No seu portfolio científico, os pesquisadores determinaram que este ser, possui o maior número de genes estranhos que quaisquer outros animais que já foram mapeadas até agora. É como se fosse um ser de DNA alienígena.

Sabe-se que a maioria dos animais contêm 1% de DNA estranho, mas a análise científica do Tardígrado, tem demonstrado que cerca de 6000 dos seus genes ou seja, 17% se originou diretamente de outras espécies. “Os animais que podem sobreviver a extremos (calor e frio) podem ser particularmente propensos a adquirir genes estranhos. Esses genes de bactérias resistem mais as adversidades do que o próprio animal”, disse o pesquisador Thomas Boothby. Com isso uma série de questões  surgem como e de onde vêm seus genes. Pesquisadores acreditam que é muito provável que o Tardígrado “emprestou” alguns dos genomas de bactérias, plantas e fungos.

Esta criatura misteriosa pode na verdade secar seu corpo, que é composto por somente por 3% de água, e pode voltar ao seu peso normal posteriormente, um mecanismo de sobrevivência que não são encontradas em nenhum outro animal.

Em 2007, vários exemplares de duas espécies de tardígrados foram enviados ao espaço por cientistas até a órbita terrestre baixa na missão FOTON-M3 e foram expostos por 10 dias ao vácuo do espaço, onde é impossível respirar, mas também a níveis de radiação capazes de incinerar um ser humano. De volta ao planeta Terra, um terço deles ainda estava vivo, mostrando-se assim os únicos animais nativos do planeta de que se tem conhecimento que são capazes de sobreviver às condições do espaço extraterrestre sem a ajuda de equipamentos. Após serem reidratados na Terra, mais de 68% sobreviveram e muitos destes produziram embriões saudáveis, além de alguns sobreviveram à exposição plena à radiação solar. Em maio de 2011, estudos sobre os tardígrados foram incluídos na missão do ônibus espacial Endeavour, em seu último voo ao espaço.

A curiosidade científica era tanto que ainda em 2011, eles estavam entre os organismos que seriam enviados pela Sociedade Planetária na missão russa Fobos-Grunt, como parte do projeto LIFE (Living Interplanetary Flight Experiment) para a lua marciana Phobos, mas, seu lançamento foi mal-sucedido.

Os Tardígrados possuem um recurso de sobrevivência que consiste em dormência completa, encolhendo-se e desidratando-se, desligando todos os seus sistemas e processos biológicos, podem sobreviver por muitos anos quando encontram condições ambientais que não dão suporte à maior parte da vida animal, permanecendo em estado criptobiótico. É neste estado que conseguem suportar condições ambientais extremas e posteriormente “voltam à vida”, ao se reidratarem novamente.

Com uma anatomia complexa, esses animais são recobertos de quitina e não possuem sistema circulatório e nem aparelho respiratório, e suas trocas gasosas são realizadas de forma aleatória em qualquer parte do corpo. A grande maioria se alimenta sugando o conteúdo celular de bactérias ou de algas. Sua boca tubular tem dois estiletes, que são usados para perfurar as células de plantas, algas ou pequenos invertebrados dos quais os tardígrados se alimentam, liberando os fluidos corporais ou conteúdo celular. A boca abre em uma faringe muscular e tri-radial. Os estiletes se perdem quando o animal troca de pele, e um novo par é secretado de glândulas que ficam em cada lado da boca. A faringe consiste de um esôfago curto, que se conecta a um intestino que ocupa a maior parte do comprimento do corpo. Algumas espécies só defecam quando trocam de pele, deixando as fezes para trás com a carapaça abandonada

Eles são um dos poucos grupos de espécies capazes de suspender seu metabolismo de maneira reversível e entrar em um estado de criptobiose. Várias espécies sobrevivem regularmente em um estado desidratado por quase 10 anos.

Eles são encontrados em todo o planeta, desde o fundo oceânico ao alto do Himalaia. Das mais de 1000 espécies conhecidas, cerca de 300 foram descritas no Ártico e na Antártica além de 115 espécies na Groenlândia.

Cientistas descobriram até o momento cerca de 1000 espécies dessas criaturas microscópicas, que se sabe são conhecidas por sua capacidade de sobreviver em condições extremas.



Ao final de dezembro de 2015, um grupo de cientistas do Instituto Nacional de Pesquisa Polar, no Japão, publicaram uma pesquisa em que mostra a capacidade de regeneração dos tardígrados e mostram como uma espécime voltou à vida após passar 30 anos congelado. O recorde de que se tinha registro de um tardígrado em criptobiose era de nove anos. Para o estudo, os cientistas do Instituto Nacional de Pesquisa Polar recolheram alguns espécimes da Estação Showa na Antártica em novembro de 1983 e os deixaram guardados em uma temperatura de 20ºC negativos. Demorou cerca de duas semanas para um dos tardígrados voltar a se mexer e se alimentar normalmente, o que prova a resistência deste animal.

Em recente estudo publicado na revista científica PLOS Biology, os pesquisadores decodificaram o DNA de duas espécies de tardígrados e descobriram os genes que permitem a esses seres se regenerarem após a dessecação. Nesse estudo, cientistas descobriram que a chave para a sobrevivência dessas criaturas está na genética, pois em condições de seca, alguns genes dos tardígrados são estimulados para produzir proteínas que substituem a falta de água em suas células. Uma vez que a água está disponível novamente, as células são recarregadas, dissolvendo as proteínas.

Entender essa capacidade característica de sobrevivência dos tardígrados pode trazer benefícios para os seres humanos, como permitir que vacinas vivas sejam distribuídas em todo o mundo e armazenadas sem refrigeração. Em outra pesquisa descobriu que eles sobreviveriam a quase todos os desastres cósmicos que poderiam atingir o planeta e é bem provável que ele passou por todas as extinções da Terra, e continuou a carregar o DNA “eternamente”.



Bibliografia/Fontes:

  • Goldstein Lab
  • Tsujimoto,Megumu & Imura,Satoshi & Kanda,Hiroshi – Recovery and reproduction of an Antarctic tardigrade retrieved from a moss sample frozen for over 30 years, Cryobiology #72, Tokyo – Frebruary 2016
  • Brennand,Emma – Tardigrades: Water bears in space, BBC Nature – May 2011