Dia: julho 9, 2019

MMDC é MMDCA…

Hoje 9 de Julho é a maior data cívica dos paulistas, pois se comemora a eclosão do movimento revolucionário, contra a ditadura Vargas. Como dizia o político e governador de São Paulo, Ademar de Barros:

“São Paulo levantou-se em armas em 9 de julho de 1932 para livrar o Brasil de um governo que se apossaria de sua direção por efeito de uma revolução… e se perpetuava indefinidamente no poder, esmagando os direitos de um povo livre.. e que trazia o sempre glorioso São Paulo debaixo de das botas e o chicote do senhor! “

Não faltam literaturas e historiadores sobre esta que foi a maior revolta armada do Brasil (o próprio blog tem algumas matérias sobre o assunto bem como uma página especial dedicada a Revolução de 32, mostrada neste link).

Mas uma revolução não se inicia do dia para noite ou vice versa. A Revolução de 32, tem amarras com outras revoluções como a de 1924 e 1930, também documentadas aqui, ou como são conhecidas, “Epopéias revolucionárias paulistas do inicio do século 20”

Mas toda revolução, mesmo que tenha um histórico de maturação, tem mais rapidamente um estopim, a “gota d´agua”, o ponto crítico.

O estopim da revolta foi a morte de cinco jovens no centro da cidade de São Paulo, assassinados a tiros por partidários da ditadura, ocorrido na frente do prédio do Partido Popular Paulista (ex-Legião Revolucionária,entidade de caráter político-militar fundada após a Revolução de 1930 e sustentáculo de apoio no estado ao regime de Getúlio Vargas), organização então encabeçada por Miguel Costa, cujo endereço era na Rua Barão de Itapetininga com Praça da Republica. Cerca de aproximadamente 300 pessoas protestavam contra Getúlio e foram reprimidos com tiros e granadas

Pedro de Toledo, então intervencionista, tentara formar um novo secretariado independente das pressões exercidas pelos tenentes, quando chegou a São Paulo Osvaldo Aranha, representando a ditadura Vargas, querendo interferir na formação do novo secretariado como sempre fazia para sufocar SP. O povo quando ficou sabendo saiu às ruas, houve grandes comícios e passeatas, e no meio do tumulto a multidão tenta invadir a sede da “Legião Revolucionária”. Ao subirem as escadarias do edifício, são recebidos a balas.

Pedro de Toledo, com o apoio do povo, conseguiu, porém montar um secretariado de sua livre nomeação (que ficou conhecido como o Secretariado de 23 de maio), neste dia 23 de maio de 1932 e romper definitivamente com o Governo Provisório de Vargas.

Mas o saldo desta investida culminou com a morte dos jovens que originou um movimento de oposição que ficou conhecido como MMDC, atualmente denominado oficialmente de MMDCA:

A morte de Mário Martins de Almeida (Martins), Euclides Bueno Miragaia (Miragaia),   Dráusio Marcondes de Sousa (Dráusio), Antônio Américo Camargo de Andrade (Camargo) e finalmente  Orlando de Oliveira Alvarenga (Alvarenga). Este último sòmente anos depois teve seu nome incluso nas siglas.

Como a população conhece e as siglas inscritas sempre apresentam-se como MMDC, há que existir uma razão com relação ao Alvarenga, portanto aqui está:

Naquele fatídico 23 de Maio, os disparos que mataram os outros estudantes, também atingiram Alvarenga, ferindo-o gravemente, que foi num primeiro momento conduzido para a Santa Casa de Misericórdia, vindo a falecer depois de intensos tratamentos no Hospital Santa Rita no dia 12 de agosto do mesmo ano, portanto há quase 4 meses depois de alvejado em maio.

A história tem sido resgatada com relação ao quinto jovem morto, em 23 de Maio, como faz este professor mencionando o fato em sua explanação sobre a revolução constitucionalista de 1932
Segundo Manuel Octaviano Marcondes de Souza, em seu livro “Fomos vencidos?” de 1933, Alvarenga nada tinha a ver com a manifestação do dia 23 de maio, tendo sido alvejado quando retornava do trabalho em uma rua adjacente a rua Barão de Itapetininga. Também diz no livro, que ele e seus colegas ajudaram a localizar a família de Alvarenga e comunicar-lhes o ocorrido.

Como ele só veio a falecer muito tempo depois a organização criada em 1932 acabou ficando apenas com as iniciais dos outros 4 integrantes do movimento.

Em 1993, o pesquisador Hely Felisberto Carneiro descobriu Orlando de Alvarenga como o quinto morto naquele fatídico evento histórico. Conforme sua pesquisa, Orlando Alvarenga foi gravemente ferido naquele dia com um tiro de fuzil em sua coluna lombar, que esfacelou sua medula. Embora socorrido, veio a falecer após 81 dias internado. Diante da descoberta, o pesquisador agiu para consertar os registros históricos sobre a Revolução de 1932 e conseguiu que, em setembro de 1993, a diretoria da Sociedade Veteranos de 1932 reconhecesse a omissão.

Tentando corrigir o fato e em sua memória, o governo do Estado de São Paulo oficializou, pelo Decreto 46.718, editado em 25 de abril de 2002, o Colar Cruz do Alvarenga e dos Heróis Anônimos. Em 2004, com a Lei Estadual nº 11.658, foi instituído o “Dia dos Heróis MMDCA” a ser comemorado, anualmente, no dia 23 de maio, em memória e homenagem àqueles jovens mortos.

Justiça tardia, mas feita e há pelo Estado de São Paulo inúmeros logradouros nomeados em sua memória, assim como aos demais nomes da sigla MMDC. Alvarenga está sepultado no Cemitério São Paulo e os restos mortais dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo estão sepultados no mausoléu do Obelisco do Ibirapuera, na capital.

Sob o obelisco do Ibirapuera encontram-se quatro dos cinco mortos do episódio de 23 de maio de 1932. Residem neste mausoléu também todos os que morreram durante e depois do conflito. Ainda hoje são sepultados aqueles que participaram da revolução mas que sobreviveram até o fim de suas vidas. 

Tanto a data 23 de Maio, como 9 de Julho, denominam duas importantes avenidas de São Paulo, ligando a região central da cidade à Zona Sul.

Portanto quando visualizarmos monumentos, textos, logradouros com o nome M.M.D.C., podemos claramente incluir o A, de Alvarenga, no final, ou seja M.M.D.C. é M.M.D.C.A.

Um dos videos liberados pela Polícia Militar do Estado de São Paulo da comemoração do 87º aniversário da revolução constitucionalista de 1932, hoje 9 de julho de 2019.


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