Mês: novembro 2019

O reino do plástico…

Todos nós aprendemos em nossa educação básica sobre a existência de reinos no planeta; o reino animal, o reino vegetal, o reino mineral, etc. Durante décadas isto foi explanado nas tradicionais aulas de colégios, universidades, cursos especialização… Mas um novo reino vem se formando há alguns anos, tão predador e maléfico oriundo de uma modernidade atrelada a industria do petróleo, os plásticos. Eles invadiram tudo, estão presentes massivamente na vida de cada ser humano neste planeta.

Recentemente quase todo mundo viu ou ouviu falar do vídeo da tartaruga encontrada com um canudo plástico enfiado no nariz. O episódio aconteceu há quatro anos, quando a bióloga marinha norte-americana Christine Figgener conduzia com colegas um estudo sobre tartarugas na Costa Rica. Em alto-mar, eles avistaram um exemplar da espécie verde-oliva com o que parecia ser um verme tubular gigante em uma de suas narinas. Os pesquisadores logo concluíram que era um pedaço de canudo, de cerca de 10 centímetros, e decidiram remover o objeto. O procedimento, filmado pelo grupo, mostrou o animal agonizando de dor.

Postada na internet, a gravação rapidamente se disseminou pelas redes sociais e contribuiu para que os canudos passassem a ser encarados como um dos grandes vilões do meio ambiente. Desde a divulgação do vídeo, visualizado até hoje 36 milhões de vezes no YouTube, o produto vem sendo banido de várias cidades ao redor do mundo.

Esse acontecimento tornou-se emblemático e o estopim de um problema de grandes proporções que aflige o planeta: o consumo desenfreado de plásticos e a poluição gerada por seu descarte inadequado. Estima-se que 8,9 bilhões de toneladas de plásticos primários (ou virgens) e secundários (produzidos de material reciclável) já foram fabricados desde meados do século passado, quando os plásticos começaram a ser produzidos em escala industrial. Cerca de dois terços desse total, ou 6,3 bilhões de toneladas, viraram lixo, enquanto 2,6 bilhões de toneladas ainda estão em uso.

Especialistas preocupam-se particularmente com o impacto da poluição por plásticos nos mares. Calcula-se que, a cada ano, mais de 8 milhões de toneladas de lixo produzidos desse material cheguem aos oceanos, provocando prejuízos à vida marinha, à pesca e ao turismo.

Grandes aglomerações de plástico flutuante estão presentes em todos os oceanos – são os chamados giros. O maior deles, a Grande Mancha de Lixo do Pacífico, forma-se na altura do Havaí e da Califórnia e se estende até o Japão.

Um dos maiores problemas é a complexidade dos plásticos existentes nos oceanos.

Estamos falando de redes de pesca, dos materiais usados na fabricação de roupas, nos produtos descartáveis, nos duráveis e pellets [pequenas esferas plásticas usadas como matéria-prima pela indústria]. Cada um deles usa polímeros específicos que afetam de forma diferente o ambiente e exigem soluções próprias”, declarou à Pesquisa FAPESP o cientista ambiental Marcus Eriksen, cofundador e diretor do 5 Gyres Institute, entidade com sede na Califórnia focada na redução da poluição plástica nos mares. “É até possível remover todo o plástico marinho, mas levaria tanto tempo e custaria tanto dinheiro que não valeria a pena”, diz Eriksen, considerado um dos maiores especialistas no tema. O custo do prejuízo para o ecossistema marinho, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), é estimado em US$ 8 bilhões por ano. E a tendência é que esse valor aumente.

Uma das raízes do problema é a alta demanda da sociedade por plástico. Em 2016, a produção atingiu 396 milhões de toneladas; em 1950, foram colocados no mercado 2 milhões de toneladas. A fabricação de plástico virgem no século XXI equivale ao volume produzido nos 50 anos anteriores. E as projeções indicam que, se o ritmo de crescimento não for contido, o mundo terá que acomodar cerca de 550 milhões de toneladas do material já em 2030.

Não é difícil entender as causas do vertiginoso crescimento da produção desses polímeros originários principalmente de materiais fósseis, como petróleo, gás e carvão. “O plástico é um material leve, resistente e durável, que traz inovações para o desenvolvimento da sociedade”, afirma José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), entidade que congrega 12,1 mil empresas e 323 mil empregados. “O uso de descartáveis na área da saúde, por exemplo, evita contaminação e transmissão de doenças. No setor automotivo, ele garante redução de peso dos carros e ganho de eficiência energética. Já as embalagens alimentícias servem para aumentar a vida útil de prateleira das comidas.”

“A sociedade estaria 200 anos atrasada se o plástico não tivesse sido inventado”, complementa o engenheiro de materiais especialista em polímeros Luis Fernando Cassinelli, presidente da consultoria paulista Avantec BR Participações, focada em gestão de inovação.

“O planeta não seria capaz de suportar a população atual e futura sem o plástico originado do petróleo. Os materiais sucedâneos, como vidro, metal ou papel, trariam problemas de outra natureza, entre eles aumento do consumo de energia ou de água.”

O físico Munir Salomão Skaf, do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (IQ-Unicamp), concorda que a versatilidade, o baixo custo e a estabilidade dos plásticos diante dos processos naturais de degradação o tornaram onipresente no mundo, mas ressalva: “Essas mesmas propriedades fazem dele um sério agente poluidor por não se degradar facilmente no ambiente”. Diretor do Centro de Pesquisa em Engenharia e Ciências Computacionais, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, Skaf trabalha para tornar mais fácil essa degradação. Ele participa, com o pós-doutorando Rodrigo Leandro Silveira, de um grupo internacional responsável pela criação de uma enzima que degrada mais facilmente plásticos, a PETase.

O grande problema é que na natureza os plásticos sintéticos levam um tempo excessivo para se degradar. Garrafas de água e refrigerantes feitas de PET (polietileno tereftalato) precisam de até 400 anos para se decompor, enquanto um copo de plástico permanece pelo menos 200 anos no ambiente. Por isso, dizem os estudiosos do tema, não é possível dissociar os impactos gerados pelo plástico no ambiente da gestão de resíduos nas cidades.

“Aproximadamente 80% do plástico achado nos mares vem de fontes terrestres. O restante tem origem em atividades humanas realizadas no próprio oceano. São contêineres que caem de embarcações, redes de pesca perdidas ou abandonadas e lixo de navios”, conta o especialista em ecologia e conservação marinha Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico IO) da USP. “No Brasil, parte importante do lixo que chega ao mar é gerado em áreas ocupadas irregularmente, como terrenos em morros e manguezais, onde não há oferta de serviço de coleta de lixo.

É, portanto, um problema ligado à ocupação territorial irregular e que tem raiz essencialmente socio-econômica.”Um estudo divulgado este ano pela organização não governamental WWF (Fundo Mundial para a Natureza) mostrou que, em razão da má gestão dos resíduos, um terço do lixo plástico produzido anualmente no mundo polui a natureza. “Nossos solos, águas doces e oceanos estão contaminados com macro, micro e nanoplásticos. A cada ano, seres humanos ingerem cada vez mais nanoplástico a partir de seus alimentos e da água potável, e seus efeitos totais ainda são desconhecidos”, aponta o relatório “Solucionar a poluição plástica:Transparência e responsabilidade”

A situação brasileira, país com sérias deficiências na infraestrutura de saneamento básico, sofre com esse tipo de poluição e, ao mesmo tempo, contribui para seu agravamento. De acordo com o WWF, o país foi o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo em 2016, com 11,3 milhões de toneladas, superados apenas por Estados Unidos, China e Índia. A maior parte dos resíduos gerados no país, 10,3 milhões de toneladas ou 91% do total, foi coletada pelo serviço de limpeza urbana, mas somente 145 mil toneladas, equivalente a 1,28%, foram encaminhadas para reciclagem. Esse é um dos menores índices do mundo e bem abaixo da média global, de 9%, segundo a ONG ambientalista, que utilizou em seu relatório dados primários do estudo What a waste 2.0, do Banco Mundial, lançado em 2018.

Contudo a indústria de plástico daqui e de outros países contestam e fazem ressalvas a estes dados, produzindo análises pouco melhores. Mas ainda assim fica o fato de que os polímeros são um grande problema a ser resolvido.

Não pode se negar a versatilidade dos polímeros. Vejam alguns benefícios que o plástico oferece à sociedade difíceis de serem substituídos:

Apesar dos conflitos entre os levantamentos, todos concordam que tanto por aqui como em outros países ainda é baixo o volume de plástico reciclado. E essa é uma das formas para enfrentar o problema. No caso do Brasil tem que se investir na implementação de políticas que promovam as técnicas de reciclagem e a economia circular, envolvendo todos os atores da cadeia, como grandes produtores de resinas e insumos, indústrias de transformação [que fabricam os produtos plásticos], revendedores e consumidores.

Pesquisadores e ambientalistas concordam com a importância do fortalecimento da economia circular, mas afirmam que a reciclagem não é uma solução mágica para os desafios do lixo plástico. “Não é possível enfrentar o problema olhando apenas para o pósconsumo. Há plásticos que não são naturalmente recicláveis. Polímeros aditivados e embalagens compostas, feitas de plástico e metal, muito usadas em alimentos, não são reciclados mecanicamente, assim como itens contaminados e de baixo valor.

Por isso, defende Sylmara Dias, da EACH-USP, é importante trabalhar também no início da cadeia produtiva, focando em produtos com design amigáveis ao ambiente. “Precisamos de uma política pública que condicione os fabricantes a aprovar o design e os materiais usados em novas embalagens, antes de seu lançamento, garantindo que não tenham potencial poluidor”, afirma Dias. “Ao mesmo tempo, é preciso investir em novas soluções, como materiais biodegradáveis de origem biológica, que a natureza consiga naturalmente regenerar.

Infelizmente, nossa sociedade voltada para o consumo faz com que seja muito difícil viver sem plástico hoje em dia.A melhor solução para o problema seria tentar diminuir o seu consumo, por mais difícil que seja. É optar pelos produtos embalados em papel, vidro ou alumínio, ainda que estas opções sejam poucas ou, em alguns casos, nem existam.

E como mencionado, é no Pacífico que se concentra a maior preocupação. O Great Pacific Patch (Grande Mancha de Lixo do Pacífico) não é uma massa de terra grossa semelhante a uma ilha. Em vez disso, consiste em uma enorme quantidade de plástico preso em um vórtice. Muitos afirmam ser uma farsa (porque não pode ser vista do espaço) mas estão erradas! O enorme “adesivo” definitivamente existe, mas sua densidade é baixa (cerca de 4 a 5 partículas de detritos por m³), tornando-o invisível quando visto do espaço.

No total, existem mais de 1,8 trilhão de pedaços de plástico, variando de enormes pedaços a microplásticos. Pesquisas indicam que o patch está crescendo exponencialmente. Estima-se que em 2050 haverá mais plástico do que peixes nos oceanos.

Este é um verdadeiro reino, que serão tão ou mais nocivos quantitativamente, que seus próprios benefícios para a sociedade moderna. Se ações globais não forem realizadas, os impactos serão danosos a todos.


Bibliografia/Fontes:

  • The Great Pacific Patch, The Ocean Cleanup – Rotterdam & San Francisco, 2018
  • Vasconcelos, Yuri – Planeta Plástico, Revista Pesquisa FAPESP – São Paulo, Julho de 2019
  • Oliveira, Eliane A. – O planeta Terra virou planeta plástico, GreenMe – Roma,IT, Julho 2019
  • Geyer, Roland & Jambeck, Jenna R. & Law, Kara Levender – Production,use,and fate of all plastics ever made – Science Advances – NY, Julho 2017
  • Imagens e vídeos com créditos próprios mencionados ou de acervo pessoal