Mês: janeiro 2020

USAF, finalmente abandona disquetes de 8 polegadas…

Inacreditável, mas em pleno século 21, a força aérea dos Estados Unidos ainda usava aqueles enormes disquetes de 8´´.

As unidades, tecnologia de ponta durante o governo do presidente Gerald Ford, foram usadas durante todo este tempo para ajudar a enviar mensagens de ação de emergência para as forças nucleares dos EUA em todo o mundo. Os discos, quase do  tamanho de uma folha de papel carta, foram substituídos por unidades mais modernas de estado sólido, os famosos SSDs, em 2019.

Como se sabe, as unidades de disquetes de 8 polegadas foram inventadas pela IBM no final da década de 1960 como um substituto para cartões perfurados. Naquela época os discos foram aclamados como um grande avanço tecnológico no armazenamento de informações, capaz de conter as mesmas informações que 3.000 cartões perfurados.

Cada um era um disco de plástico coberto de material magnético e permanentemente selado em uma jaqueta de proteção plástica. O disquete foi inserido na unidade onde agia como um disco rígido. Os primeiros disquetes de 8 polegadas podiam conter até 80 kilobytes de informações.

Em comparação, uma única música de três minutos compactada no formato mp3 tem cerca de 3.000 kilobytes (ou 3Mbytes) e um disco rígido típico de 1 terabyte para computador pessoal pode armazenar 1.073.741.824 kilobytes.

A Força Aérea dos EUA então, em outubro do finado ano de 2019, finalmente substituiu suas antigas unidades de disquete de 8 polegadas, que por décadas foram utilizadas na sensível estrutura nuclear da grande potencia.

Estava claro que a Força Aérea sabia que o sistema era antigo e certamente um dinossauro da tecnologia, mas também sabia que funcionava razoavelmente bem e foi integrado a um sistema testado pelo tempo. 

As forças nucleares dos EUA também ficaram em segundo plano no financiamento nas últimas três décadas, com o fim da Guerra Fria reduzindo as tensões entre as potências nucleares (será ?).

Unidades retransmissoras E-6 Mercury, recebendo mensagens dos SACCS (e de seus discos de 8“) e encaminhando-as as forças nucleaes.(“BALON GREYJOY” – WIKIMEDIA COMMONS)

Os disquetes serviam ao sistema de mensagens de ação de emergência do Sistema Estratégico de Comando e Controle Automatizado, conhecido como SACCS. As mensagens de ação de emergência, ou EAMS, eram comunicações de voz enviadas para distribuição de mensagens codificadas a toda rede mundial de forças nucleares estratégicas dos EUA. Eram mensagens enviadas pelas Autoridades do Comando Nacional e pelos principais comandos militares dos EUA, retransmitidas pelos postos de comando aéreos E-6 Mercury (veja acima) e encaminhadas às forças nucleares.

Vejam abaixo um exemplo de uma EAM:

Como mostrou em 2014, o programa “60 Minutes” os disquetes de 8 polegadas, tornaram-se famosos pois eram usados por um sistema de computador antiquado da Força Aérea que, em uma crise, poderia receber uma ordem do presidente para lançar mísseis nucleares a partir de silos nos Estados Unidos, acredite se quiser.

Os elementos do Sistema Estratégico de Comando e Controle Automatizado, vistos aqui, passam por testes de diagnóstico pelo 595º Esquadrão de Comunicações Estratégicas na Base da Força Aérea de Offutt, Nebraska (Valerie Insinna / equipe)

Pense no SACCS como a versão da força nuclear dos EUA do AOL Instant Messenger – um dos muitos sistemas duplicados e antigos usados pelo Comando Estratégico dos EUA para enviar mensagens de ação de emergência dos centros de comando nuclear às forças em campo. Baseado na Base da Força Aérea de Offutt, Nebraska, o 595º é encarregado de manter o SACCS e garantir as operações do dia-a-dia.

Como disse o tenente-coronel Jason Rossi, comandante do 595th do Esquadrão Estratégico das Comunicações da Força Aérea:

“Eu brinco com as pessoas e digo que é o sistema de TI mais antigo da Força Aérea. Mas é a idade que fornece essa segurança”, disse Rossi em uma entrevista naquele histórico mes de outubro. “Você não pode invadir algo que não tem um endereço IP. É um sistema muito único – é antigo e é muito bom “.

Em 2016, o Government Accountability Office escreveu que o SACCS é executado em um computador IBM Series / 1 datado da década de 1970 e que o Departamento de Defesa planejava “atualizar suas soluções de armazenamento de dados, processadores de expansão de portas, terminais portáteis e terminais de desktop até o final do exercício fiscal. ano de 2017 “, mas não está claro se essas atualizações ocorreram, ou seja, essas peças jurássicas continuaram a ser usadas até 2019.
Não foi fácil manter um sistema de TI que data da mesma época que o famoso disquete.
Tanto o pessoal da ativa quanto o civil eram necessários para manter o SACCS operacional, mas a maioria dos mantenedores da ativa que trabalham no sistema eram jovens e com menos experiência. Muitos vinham do campo da carreira cibernética, o que significava que eles eram treinados para gerenciar a infraestrutura de uma TI moderna, não sistemas antiquados como o SACCS, que exigem que os mantenedores aprendessem habilidades como soldar metais, analisar e reparar circuitos eletrônicos elementares, afirmara Rossi.
“Eu tenho caras aqui que têm circuitos, diodos e resistores memorizados”, disse ele. “Eles usam um TO [ordem técnica] para garantir que estejam certos, mas esses caras fazem isso há tanto tempo, quando as peças chegam, eles podem dizer o que há de errado com base em um código de falha ou algo assim. Esse nível de especialização é muito difícil de substituir. Não é um trabalho sexy. São ferros de solda e microscópios micro-miniatura, etc. ”
Um dos caras que faziam esse trabalho é Robert Norman, um funcionário civil da Força Aérea com mais de quatro anos de experiência consertando os eletrônicos no SACCS.
“Qualquer reparo eletrônico sempre dava muito trabalho. Não devo dizer que é difícil, mas infelizmente muitos dos eletrônicos mais novos são plug and play ”, disse ele, explicando que quando componentes eletrônicos como placas-mãe ou microchips são quebrados em sistemas mais novos, a prática comum é descartá-los. e substitui-os.

No SACCS, todas essas peças são reparadas – o que para os mantenedores pode significar passar horas gastas sob um microscópio, substituindo lenta mas deliberadamente um fio de cobre amarrado em uma placa de circuito, por exemplo.
“Os desafios ficam um pouco maiores quando estamos fazendo reparações até o nível dos componentes”, afimara ele.
É um trabalho tão especializado que a Força Aérea contratou civis para consertar os componentes do SACCS em vez de ensinar o ofício aos aviadores, que precisariam de anos de treinamento para alcançar a competência dos funcionários que trabalham atualmente na oficina, alguns dos quais têm mais de uma década de experiência no trabalho.
Fato é que a simples substituição de uma mídia de armazenamento tão antiquada como o disco de 8 polegadas gerou uma grande transformação tecnológica para poder se usar os atuais SSDs, tanto quanto aparato de hardware, quanto de softwares e claro de segurança, para lidar com tal estrutura sensível como o comando nuclear dos EUA.

Portanto se os militares dos EUA substituiram disquetes dos anos 70 que controlavam mísseis nucleares, então suas bombas nucleares não estão sendo mais ordenadas e executadas em disquetes do tamanho de placas, ironizaram muitos ao saber que um poder nuclear dependia de tal tecnologia jurássica.

Como ilustração este blog possui este disco de 8¨, como “souvenir”, que circulou no Brasil nos anos 70, 80 e 90.


Bibliografia/Fontes:

  • Insinna, Valerie – The US nuclear forces’ Dr. Strangelove-era messaging system finally got rid of its floppy disks, C4ISRNET (Media for the Intelligence Age Military) – October, 2019, Virginia-USA
  • Mizokami, Kyle – U.S. Air Force Finally Ditches 8-Inch Floppy Disks, Popular Mechanics/Hearst Digital Media – Oct, 2019, NY-USA
  • Kaser, Rachel – The US nukes will no longer run on plate-sized floppy disks, TNW – Oct, 2019, Amsterdam-Netherlands.