Um antigo casarão erguido na Zona Central de São Paulo foi durante os anos 90 e 2000, um curioso acervo cultural que veio a se tornar museu dos mais fascinantes na cidade.

Seu acervo, ao alcance de pouquíssimos felizardos, era composto por mais de 4 mil peças, em sua maioria do final do século 19 e início do século passado e tinha como característica principal sua diversificação.

E põe variedade nisso: de prosaicas moedas e cé­dulas de papel, livros, cadernos, cartilhas, car­teiras e toda sorte de material escolar adotado nas primeiras décadas do século 20 até peças mais raras, como carruagens, instrumentos e apare­lhos médicos, artigos de viagem, objetos usados em funerais e ritos de passagem, câmeras foto­gráficas, acessórios de automóveis, motocicletas e locomotivas, objetos de higiene pessoal, obje­tos religiosos, máquinas de lavar, passar e costu­rar mecânicas, utensílios domésticos e objetos empregados em escritórios e estabelecimentos co­merciais. Sim, tratava-se de um museu de tudo.

Essa inusitada coleção, capaz de levar qual­quer dona de casa à loucura ou ao divórcio, foi formada ao longo de quase seis décadas por Raful de Raful, um ex-caixeiro-viajante, em suas andanças pelo Brasil afora.

Raful de Raful em 1998.

Os objetos foram com­prados em ferros-velhos, escritórios, fazendas, resi­dências e antigos armazéns, especialmente no In­terior de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, com a ajuda de uma espécie de rede de informantes e fornecedores de antiguidades montada por esse filho de imigrantes (pai libanês e mãe italiana) nascido em Batatais (SP). Foi como é mostrado em alguns programas de TV, um caçador de relíquias.

Custaram-lhe o casamento, do qual nasceram dois filhos, mas ele não se arrepende. Dizia ele:

“Quando me deparava com uma peça anterior à minha existência, amava-a com uma in­tensidade enorme, porque ela era o esforço brutal que o homem precisou para construí-la”, filosofa ele.

“Ainda que na época em que os adquiri não fossem nenhuma raridade, muitos objetos despertaram minha atenção por alguma sin­gularidade, como a funciona­lidade, a engenhosidade ou a elaboração mental que o inven­to exigiu de seu criador.”

Espalhados pelos 15 cômo­dos do sobrado e os 900 metros quadrados do amplo quintal, os “brinquedos” de Raful consti­tuiram uma das maiores coleções particulares de peças antigas de uso cotidiano do Brasil.

Quer mais? Caixas de fósforo, isquei­ros, armas, garrafas temáticas lançadas em datas especiais e comemorativas, uma matraca de madeira empregada pelos pau­listas na Revolução de 1932, além de aparelhos sonoros, como caixas de música, poliphons, fonógrafos, orquestriões, phonolas, gramofones e mikphones – vitrolas mecânicas que ani­mavam piqueniques.

Esta é uma amostra da coleção, um discador de palavras do início do século 20.

 

Veja nesta galeria algumas outras peças do acervo

 

Tudo sempre em bom estado de conservação quando permitiu que um repórter o visitasse portanto longe da vista de curiosos pelo menos até aquele momento (1998)

O zelo de Raful éra tanto que o ex-mascate dividia seu sobrado no bairro da Aclimação com aquela enormidade de peças, entre elas, curiosidades como uma máqui­na de escrever que nem mesmo o dono sabe como é. Quando a adquiriu, a máquina estava acondicionada em uma caixa de madeira, onde permaneceu, sem nunca ter sido aberta. “Deve ser importada e permanece do jeito que foi desembarcada no porto”, imagina.

“Acredito que cada objeto tenha ou adquira per­sonalidade própria, e o que dis­tingue essa máquina é um certo ar de mistério que a envolve”, dizia ele.

Raridades – Todos os obje­tos reunidos por Raful têm uma característica em comum: são do período anterior ao uso da eletri­cidade no espaço doméstico ou de um tempo em que a energia elétrica era encontrada só em la­res mais abastados.

Sorveteiras fa­bricadas em camadas sobrepos­tas de madeira pouco espessa, que evitavam a passagem do calor ex­terno, provavelmente soaram como luxo quando vieram ao mundo décadas e décadas atrás. Dotadas de compartimento para armazenar pedras de gelo, eram hermeticamente fechadas e ga­rantiam a conservação da consis­tência cremosa da iguaria.

As máquinas de costura tam­bém chamavam a atenção. Eram apro­ximadamente 40 modelos, em sua maioria do século 19. A ve­dete, uma pequena notável com apenas 16 centímetros de altura, 10 centímetros de largura e apro­ximadamente 300 gramas de peso, foi desenhada para uso em via­gens. Atarraxada no braço de pol­tronas de trens, permitia às donas de casa costurar a bordo das sim­páticas marias-fumaças.

Veículos, por sinal, não fal­tavam na coleção. De uma réplica de biga romana, a troles do sécu­lo passado e carruagens do início dos anos 1900, passando por um raro bangüê do século 17. Seme­lhante a uma liteira, o bangüê era de uso exclusivo de senhoras e tinha capacidade para três pessoas, laia, seu bebê e a ama-de-leite.

Cada ocupante tinha um lu­gar definido no primitivo veícu­lo, que era carregado no lombo de dois burros, um na diantei­ra e outro na retaguarda, guia­dos por escravos.

Entre os acessórios, uma curiosa série de estribos lembrava os primórdios da política brasilei­ra. Todos cunhados com símbo­los e brasões do Brasil Colônia, Primeiro e Segundo Império e iní­cio da República. “Esses estribos são muito raros e pelo menos um deles talvez não possa ser encon­trado em nenhuma outra coleção ou nem mesmo em museus”, gabava-se Raful.

Ele se referia a um par de estribos que trazia estampa­do o brasão da Revolução Far­roupilha, que eclodiu no Rio Grande do Sul, em 1835, e es­tendeu-se por 10 anos e chegou a proclamar a República Piratini.

Para abrigar tantas peças, Raful encontrou uma solução no mínimo original. No amplo quin­tal em forma de T, usou restos de demolição comprados no In­terior do Estado para construir réplicas fiéis de antigos casarões, fachadas de prédios, capelas do início do século e até uma edifi­cação que ele chama de sua sen­zala. Povoou as portas e sacadas das edificações com bonecos de pano e de metal.

Veja nesta galeria outras construções do “quintal” do Sr. Raful

Uma das fachadas construídas..

Teve ainda o capricho de batizá-los e confe­rir-lhes personalidade própria. Debruçada sobre a sacada da construção que reproduz a facha­da do solar da Marquesa de San­tos, pintada em azul, está a em­pregada Adelaide Corubichaba Chibau, de vassoura em punho.

Na réplica inspirada no edifício que reunia, num único prédio, o Paço Municipal e a Cadeia Pú­blica da São Paulo de 1860, “vivem” os vagabundos Chico Pin­guela, Zé Pindoba, Mane Boti­na, Zeca Chulé e Lena Falada. A réplica, tomada por desocupados, soa como uma crítica sutil às au­toridades que teimam em relegar ao abandono o patrimônio arqui­tetônico da cidade.

Na passagem que dá acesso ao extinto quintal destaca-se o guardião do Museu do Raful, um Dom Quixote em latão. Bem-humorado, o ve­lho mascate aposentado batizou sua vila de “Rafulândia”.

O mundo encantado de Ra­ful foi descoberto pela antiqua­ria Carmelina Lembo Sultani, em 1991, quando trabalhava para um antiquário. “Conheci o museu na condição de compradora de ve­lhos aparelhos sonoros”, contava então a procuradora do coleciona­dor.

Ao constatar a recusa intran­sigente do ex-caixeiro-viajante em pulverizar sua coleção e sa­ber que sua intenção era fundar um museu aberto ao público, ela tornou-se sua aliada. Resolveu catalogar as peças e procurar, em 1992, a direção do Museu Pau­lista, da Universidade de São Paulo (USP), o Museu do Ipi­ranga, que mostrou interesse.

“A coleção não é especializa­da; pelo contrário, sua diversifi­cação, à primeira vista, parece excessiva. No entanto, isto a tor­na perfeitamente adequada a um perfil de museu como o nosso. ”

Sua fragmentação acarretaria con­siderável empobrecimento”, es­creveu o então diretor do museu na época, Ulpiano Toledo Bezerra de Me­nezes, em parecer endereçado a Carmelina, em 1993.

Inicialmente, as atenções se voltaram para 400 peças da cole­ção, mas dois anos depois surgiu uma proposta mais ousada. “Em 94, com a mudança no comando do Museu Paulista, o novo dire­tor, José Sebastião Witter, lançou a ideia de incorporar toda a cole­ção, incluindo também o imóvel, e fazer ali um anexo do museu da USP”, contaria a antiquaria”.

Para se materializar, haveria um custo de cerca de R$ 3 milhões, estimativa de custo do acervo, imóvel, recuperação do velho sobrado de 75 anos, res­tauração de peças avariadas e montagem do anexo.

Como úni­co atrativo, Carmelina e o Mu­seu do Ipiranga acenam aos pos­síveis interessados com leis de incentivo à cultura, que permi­tiam abatimentos no Imposto de Renda devido. Mas apesar do otimismo na época, não evoluiu o o sonho de ser incorporado ao Museu Paulista, e ao que parece que não se concretizou.

EmbalsamadoEnquanto o mecenas não vinha (o Museu Paulista), Raful se­guia sua rotina, esbanjando vita­lidade.

O colecionador éra tão inusitado quanto o nome que carregava. Quando lhe perguntam a idade, insistia em dizer que estava com 84 anos “apenas oficialmente” (isto em 1997). Jura que, “no duro”, iria completar 101.

“O mesmo cartório que errou meu nome e o registrou dobrado também trocou a data em que nasci”, dizia ele entre um comportamento irônico e solene.

Natural de Batatais (SP), trabalhou sempre como caixeiro viajante, mas fazia as vezes de mágico e hipnotizador nas horas vagas, e já na juventude, pegou gosto “por objetos em desuso”. “Fui comprando tudo o que as pessoas não queriam mais”. Ninguém me dava nada, eu tinha que comprar se quisesse.

Esclarece que construiu o acervo “por prazer, sem nenhum espírito comercial”. “Enamoro-me pelas peças, como se fossem mulheres. É mania, loucura, paixão. Chame do jeito que preferir”, dizia ele naqueles tempos…

Dormia de 10 a 12 horas por noite, acordava todos os dias às 6h e, após o desjejum, fazia sua sessão diária de ginástica.

Com frequência dava uma esticada pela cidade, a pé, de ônibus ou de carro, quase sempre acompanhado pela amiga Carmelina. Creditava o vigor físico, incomum na sua idade, ao fato de nunca ter fumado ou ingeri­do bebidas alcoólicas e à alimen­tação saudável. “Sou vegetaria­no desde pequeno”, dizia e orgulhava-se.

Em sua casa, suas atenções vol­tavam-se, naturalmente, para seu tesouro, em particular para uma curiosa coleção de garra­fas. “Éra o xodó dele”, avisava Carmelina.

Muitas foram lançadas em pequenos números e próxi­mo a datas comemorativas, para servir de brinde, homenagear vultos da História Universal e do Brasil, estrelas de cinema e até santos católicos.

Haviam exemplares inspirados na Torre Eiffel, com formato de motocicletas, carros, locomoti­vas, navios, globos terrestres, instrumentos musicais e réplicas da Taça Jules Rimet. Garrafas com a imagem de astros como Charles Chaplin e personalida­des como D. Pedro II, Napoleão Bonaparte, Giuseppe Garibaldi e o Barão do Rio Branco tam­bém repousavam numa velha cristaleira.

Dividiam espaço com os primeiros vasilhames das águas minerais Lindóia e Prata. Se o design é praticamente idêntico ao das garrafas atuais dessas marcas, o diferencial está na cor. “Acreditava-se que o vidro azul preservava as propriedades mi­nerais da água”, dizia Raful. E chamava a atenção para um de­talhe, as bolinhas de gás com­provam que o líquido permane­cia da mesma forma desde quan­do foi envasado, há décadas.

Em alguns momentos algu­ma mágoa despertava no colecionador. “Todo velho tem raiva de ser velho e sonha com a mocidade que não volta mais.” Mas ele não tinha quedas por melodramas.

Logo recuperava o senso de humor e ma­infestava um último desejo. “Gosta­ria de ser embalsamado. Não por vaidade, mas para permanecer junto daquilo que fiz e reuní durante dezenas de anos.

 


 

“Expressando-se muito bem e contando muitas histórias reais, a maioria vivida, parecia um misto de sábio e professor.

Fez parte desta cidade durante seus 90 anos bem vividos, diferenciando-se de qualquer outro mascate, por haver construído uma vida de aprendizado, utilizando suas viagens e seu trabalho para arrebanhar conhecimentos, objetos interessantes, estórias diferentes, muitas colocadas no papel por ele mesmo, pois era um excelente escritor.

Assobiava como ninguém, bastando contar, que existe gravado o Hino Nacional assobiado por ele.

Escrevia pensamentos e poesias de grande profundidade, muitos deixados escritos com sua própria caligrafia.

Tinha um olhar clínico para encontrar objetos interessantes, diferentes, inusitados ou históricos, que procurava adquirir e trazer para a sua casa, iniciando uma coleção das mais inacreditáveis, que transformariam no decorrer dos anos o seu casarão colonial, no museu mais original de São Paulo, na minha opinião de artista plástica, freqüentadora de museus e de exposições de arte, diz Ana Maria Lisboa Mortari, sua amiga, em Lendas urbanas – a cidade e seus personagens.

 


 

Raful de Raful com quase 90 anos.

 

Como ainda diz a própria Ana Maria, este incrível personagem paulista, chamado Raful de Raful, que conheceu muito bem em duas dezenas de anos, nascido em 24 de novembro de 1913, filho de pai libanês e mãe italiana, em seu sobrado, viveu e faleceu, no dia 12 de agosto de 2003, às vésperas de completar seu 90º aniversario, deixando um legado incrível.

O seu acervo ainda foi objeto de pesquisa em 1993 por Heloisa Maria Silveira Barbuy, na elaboração de um catálogo ilustrado da coleção particular do Sr. Raful de Raful.

Este blogueiro embora nunca tenha conhecido o Sr. Raful de Raful e sua Rafulandia, tem por ele e seu trabalho de colecionar preciosidades, uma enorme admiração.

O motivo do título desta postagem se deve ao fato, que nos últimos três meses, tentamos achar o paradeiro do museu, que chegou até ter um site (www.museudoraful.com.br).

Neste período foi observado que o casarão está fechado, tentou-se contatos a respeito, com o Museu Paulista, com a Curadora, com organizações que usaram o espaço do Raful para eventos, com fotógrafos que fizeram ensaios no local do museu, e até com um de seus parentes, e ninguém respondeu aos apelos, ou deu qualquer informação,a respeito do paradeiro do acervo e do próprio museu, como instituição cultural que São Paulo já teve.

Após a divulgação da primeira versão desta postagem (com o título “Procura-se a Rafulandia”) já houve a descoberta dos responsáveis atuais pelo museu que estão lutando para conseguir apoio e patrocínio para a manutenção do acervo e do local. Se alguma instituição ou empresa demonstrar interesse por favor nos escreva.


Adaptação e atualização de parte do texto original de Cássio Ventura Revista JÁ de 04/01/1998


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