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Mutreta com os Bondes…

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Agonias da atualidade onde as “maracutaias, picaretagens e malandragens”, produzem corrupção, desvios e todo tipo de transações ilegais, envolvendo políticos, corporações, instituições públicas, etc., revelam somas que já se aproximam do PIB de alguns países, não parece ser uma situação da modernidade, embora ela contribua para sua existência e no tamanho.

Há certamente problema sócio-cultural na questão, e a própria história do país apresenta alguns casos notórios destes escândalos. Um desses casos se tornou famoso, pois reúne exatamente o oportunismo de alguns em benefício próprio sobrepujando o benefício de muitos.

Bondes elétricos de São Paulo, início marcado por mutretas e muito dinheiro e favores nas mãos de poucos.

Aconteceu há 120 anos, onde dois espertalhões ganharam rios de dinheiro ao repassar para a Light a concessão do serviço do bondes elétricos na cidade de São Paulo.

Em 15 de junho de 1897, dois oportunistas, o comendador brasileiro Antônio Augusto de Sousa e o italiano Francisco Antônio Gualco, fizeram um “bom negócio”. Por influência política do comendador, conseguiram obter da Câmara Municipal de São Paulo a concessão do serviço de viação elétrica por um período de 40 anos.

Estava estabelecida a brecha para a Light, que os nacionalistas de plantão apelidariam no futuro de polvo canadense, penetrar na Capital paulista para estabelecer o monopólio da geração e distribuição de energia e dos transportes urbanos por tração elétrica.

São Paulo tinha a necessidade de modernizar o seu transporte urbano e implantar usinas hidrelétricas para poder dar um grande salto no seu processo de industrialização, pois o serviço de eletricidade já existia em outras cidades do País.

São Paulo ainda uma cidade pequena, às vésperas do século 20, os bondes ainda eram puxados por burros, um símbolo da precariedade e obsolescência do transporte público. Precisava eletrifica-los.

A causa, portanto, era nobre, mas a forma como foi feita essa concessão de serviços públicos demonstra como os republicanos recém-chegados ao poder, se premiavam mutuamente. Gualco e Souza, que obviamente nunca teriam capital para tocar um empreendimento de tal porte, só estavam interessados em encher seus bolsos agindo como intermediários de um negócio milionário. O primeiro necessitava da influência política do comendador para poder se intrometer em algo que não lhe dizia respeito, ou seja, envolver-se em negócios alheios, dentro da administração pública da cidade, ao passo que Souza dependia de um sócio para viabilizar o empreendimento no Canadá e daí tirarem proveito milionário da questão tão urgente para a cidade.

Gualco, que era capitão da Marinha italiana e um homem muito esperto para negócios, foi convencido em 1896 a vir a São Paulo estudar de que forma poderia se dar conta do empreendimento, que desde 1895 vinha sendo analisado pelo comendador. Este, por sua vez, tinha parentesco com a poderosa família Campos, dona de um mar de pés de café no Estado. Era sogro de Carlos de Campos, que exercia o cargo de secretário da Justiça do governo Campos Sales e, depois, seria eleito presidente do Estado de São Paulo, exercendo o mandato a partir de 1924 e morrendo antes de cumprir todo o seu período, em 1927.

Garantida a concessão, Gualco tratou de se mandar para o Canadá, para tratar da parte técnica, da qual o comendador Sousa nada entendia, e providenciar contratos visando reunir recursos financeiros para a estruturação da companhia, surgida em função do ato de concessão dos serviços pela Câmara Municipal.

Em decorrência desses preparativos, ainda em 1897 veio ao Brasil o engenheiro americano Frederick Stark Pearson, que desenvolvera grandes projetos hidrelétricos nos Estados Unidos, México e Canadá. 

Pearson percebeu a importância que São Paulo viria a ter em breve, já que a cidade estava em franca expansão e cada vez mais necessitada de um sistema de transporte coletivo de tração elétrica e, antes de mais nada, da própria energia elétrica. Fez os primeiros estudos para implantar o empreendimento e, de volta aos Estados Unidos, procurou atrair financiamentos. Ao mesmo tempo, Pearson orientou Sousa e Gualco para que conseguissem uma ampliação da concessão inicial para novas linhas e franquias para a produção e distribuição de energia elétrica. Sousa trabalhou nesse sentido e ficou aguardando a oportunidade para vender as concessões ao capital estrangeiro.

No Canadá, Pearson conseguiu atrair um grupo de capitalistas daquele país, como James Gunn e William Mackenzie, presidente da Canadian Northem Railway. Esse grupo fundou, em 7 de abril de 1899, a The São Paulo Railway Light and Power Company Limited, com sede em Toronto, ficando Pearson como consultor técnico da empresa. A carta-patente foi expedida pela rainha Vitória, do Reino Unido, já que o Canadá era protetorado inglês.

Carlos de Campos com emprego garantido pelo favor prestado ao sogro

A autorização para que a empresa operasse no Brasil foi assinada em 17 de julho do mesmo ano pelo então Presidente da República, Campos Sales.

Em 28 de setembro, Gualco e o comendador Sousa finalmente conseguiram concretizar a maracutaia, assinando a escritura pela qual transferiram as concessões e privilégios ao capital internacional. O preço da venda tornou-se segredo de estado mas certamente era uma grande “bolada” considerando o padrão monetário da época.

Quanto a Carlos de Campos, foi premiado pelo favor que fez ao seu sogro, pois se tomou o primeiro advogado da Light.

Em Toronto, no dia 25 de junho de 1899, a razão social da empresa foi alterada, substituindo-se a palavra Railway por Tramway, o mesmo acontecendo na filial do Brasil. A alteração ocorreu pelo fato de existir no Brasil, desde 1867, a San Paulo Railway Co. Ltd., ou a Companhia Inglesa, como era chamada popularmente, que implantou a estratégica ferrovia Santos-Jundiaí. Com a alteração, a Light deixava claro que não tinha intenção de entrar no setor do transporte ferroviário de longo curso.

Menos de um ano depois, em 7 de maio, o primeiro bonde elétrico correu em São Paulo. Coube ao presidente do Estado, Francisco de Paula Rodrigues Alves, acionar os dínamos da usina provisória, a vapor, que a Light construíra na rua São Caetano. Meia hora depois, o primeiro veículo tracionado a eletricidade saía do depósito de bondes da alameda Barão de Limeira, no Campos Elíseos, dirigido pelo próprio superintendente da empresa, Robert Brown. Percorreu toda a primeira linha, da Barra Funda a Santa Ifigênia, com ponto final no largo São Bento. A bordo, Rodrigues Alves, o prefeito Antônio Prado, secretários de Estado, políticos…


O sistema de transporte por bondes em SP, nasceu com uma maracutaia e durante sua existência por 69 anos viveu sempre acuado por interesses de toda a ordem. Próximo ao término do contrato de concessão em 1941 a Light já demonstrada desinteresse e já não investia nada nos bondes, por conta de pressões nacionalistas e dos outros interesses mencionados. Foi obrigada a operar até 1946 por determinação federal e a partir dai bondes e ônibus foram estatizados pela CMTC, marcando então o início da morte dos bondes, que sobreviveram precariamente até 1968, com os mesmos bondes que foram herdados da Light. Esta total falta de investimentos tornou os bondes ineficientes para aguentar a demanda pelo crescimento enorme da cidade, como mostra este vídeo, lotados, sem segurança, e de manutenção precária caracterizado pelo comportamento administrativo estatal. 


Como é possível concluir, todos os ingredientes da mutreta, como dinheiro, negociatas, corporações, políticos e instituições da época encheram os bolsos dos dois oportunistas, e beneficiando mais alguns que ajudaram a concretização dos negócios, como Carlos de Campos. Grande semelhança com os momentos que vivemos hoje, não ?


Bibliografia/Fontes:

  • Imagem do Bonde dos Operários – Guilherme Gaensly, Instituto Moreira Salles
  • Video: MarioFoxLog
  • Santos , João Marcelo – Os operários dos bondes elétricos: trabalho, violência e estigmatização, Revista Mundos do Trabalh/ANPUH – Florianópolis,SC – Julho   2010
  • Alves, Odair Rodrigues – Um bonde chamado mutreta, JÁ/Diário Popular #32, 07/1997 – São Paulo
  • Cosenza , Apoena C.- Gonçalves ,Marcelo – Concagh , Tiago Antônio Bosi – Light na década de 1920: urbanização e contradições na cidade de São Paulo.

Paulistas X Italianos

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No fim do século 19, paulistanos e italianos se enfrentaram por sete dias na Capital, num episódio que por pouco não levou a Itália a declarar guerra ao Brasil

SP x IT

São Paulo, tem em sua história, vários conflitos, revoltas e revoluções que sangraram em suas ruas, cuja ocorrência, está na memória das pessoas e das escolas, como fatos do século 20, como a Revolução esquecida (1924), a Revolução de 1930, de 1932, Intentona Comunista em 1935, Intentona Comunista dos anos 60, já neste século, os atentados de 2006, mas a história nos revela confusões e anarquismos também no século 19.

Pouca gente sabe, mas por um triz a Itália não declarou guerra ao Brasil no final do século 19.

Um ambiente tenso existia entre os imigrantes italianos e a população paulistana, imigração esta que tem início na segunda metade do século 19, e que causava muita desconfiança da população e autoridades locais, como por exemplo, quando em abril de 1894, vários italianos foram presos por agentes de segurança, também conhecidos como “secretas”, ao saírem de uma reunião do Centro Socialista Internacional e que começaram a ser monitorados e tachados como anarquistas uns, socialistas outros, e alguns até como gatunos.

Dava-se, então, o que o chefe de polícia de São Paulo, Theodoro Dias de Carvalho Júnior, chamou de “o fato de maior importância” no que dizia respeito à segurança pública na capital, pois destas reuniões saiam inflamações de perturbação urbana, e da imprensa, cujo um dos eventos possivelmente mais conhecidos e comentados pela historiografia são os que tange a militantes e anarquistas nos anos 1890, perdendo apenas para a Colônia Cecília e talvez para a morte do anarquista Polinice Mattei durante as celebrações da Unificação Italiana em 1898 na capital paulista.

Além disto percebia-se desarmonias entre os próprios italianos, problema enraizado nas diversidades culturais existentes no território europeu. De um lado, os vindos do sul; de outro, os do nordeste da Itália, que se traduziam em comportamentos bastante distintos por aqui que contribuíam para esta desconfiança, e na monitoração de comportamentos.

Mas o ápice motivacional de uma gra­ve crise diplomática entre os dois países foi a pancadaria en­tre imigrantes italianos residen­tes na Capital e outros morado­res da cidade. O pau comeu sol­to entre os dias 22 e 28 de agos­to de 1896, provocando algumas mortes e deixando dezenas de fe­ridos.

Tudo em função da revol­ta dos paulistanos com a “Ques­tão dos Protocolos” — um acordo negociado entre os dois países estipulando o pagamento de indenizações aos italianos

pre­judicados por dois movimentos revolucionários que eclodiram no Brasil naquela época, a Re­volução Federalista e a Revolta da Armada.

Como os paulistanos também haviam sofrido com os conflitos e nada receberiam, sen­tiram-se cidadãos de segunda classe em sua própria terra e logo trombaram com os italianos, que somavam metade da população de São Paulo na época.

prtocolo

Os confrontos começaram no sábado 22 de agosto, quan­do circularam pela Capital notícias de que os protocolos ha­viam sido rejeitados pelo Go­verno brasileiro. No largo do Rosário, hoje Praça Antônio Pra­do (Banespão), os italianos davam vivas ao seu país de origem e os brasi­leiros retrucavam com “Viva o Brasil” e “Viva a República”.

A certa altura, os italianos acusa­ram os “brasiliani” de terem queimado uma bandeira de seu país. A confusão começou e nem a Polícia conseguiu contê-la. O próprio cônsul italiano em São Paulo, o conde Edouard Compans Brichanteau, que ape­sar do nome era italiano nato, participou dos conflitos e in­centivou seus conterrâneos.

As brigas se espalharam pela ci­dade. Por todo lado se via gente es­faqueada, baleada e ferida a paula­das. No primeiro dia, os italianos levaram nítida vantagem, já que atacaram de surpresa locais de grande concentração de público como o Teatro São José, hoje no local o Edifício Alexandre Mackenzie (Shopping Light) pro­priedade da Eletropaulo. A plateia foi surrada pelos estrangeiros, in­suflados pelo conde, e muita gente saiu ferida.

Brichanteau foi levado pelo capitão Marcondes Brito, da Força Pública, para o Palácio do Governo, de onde saiu escoltado.

No domingo, como as arruaças continuassem, a Polícia de­terminou o fechamento de bares, restaurantes e demais esta­belecimentos comerciais. Os conflitos entraram madrugada adentro e os 1300 policiais que foram colocados na rua não da­vam conta de atender a todas as ocorrências.

Só no Centro da cidade, 44 pessoas foram medi­cadas nas farmácias da região.

Por volta das 22 horas daquele domingo, um grupo brasileiros caminhava pelas ruas da Luz quando uma mulher, dan­do vivas ao Brasil, correu na di­reção deles. Ela abraçou José Xavier Pinheiro e este caiu logo em seguida. Só então seus amigos perceberam que se tratava de um italiano vestido de mulher. Com seu punhal, ele feriu ainda Odorico Americano Leite e João Aristides, que conseguiu revidar, dan­do um soco no italiano travestido.

O italiano, deixando as saias para trás, fugiu pela rua São Caetano em direção ao Brás.

Na segunda-feira, o extinto jornal Diário Popular publicou a notícia da briga na rua São Caetano e anun­ciou a morte de José Xavier Pi­nheiro.

Informava, também, a morte de José Mariano Avelos, um português de 27 anos, atin­gido por uma bala perdida na loja em que trabalhava, na rua Formosa, e a de um negro brasileiro que trabalhava na Olaria Maranhão, na Penha, que foi dego­lado por um grupo de 14 italia­nos. Todos acabaram presos.

No terceiro dia dos conflitos, os comícios, no largo São Fran­cisco, se estenderam até as 19h30. Quando tudo parecia ter terminado, a Polícia foi chamada para atender uma ocorrência na rua Santa Efigênia, onde italianos entrincheirados nos cortiços nos números 35 e 37 estavam atiran­do nos pedestres.

Os policiais fo­ram recebidos a bala e, ajudados por populares, invadiram as casas e prenderam seis italianos. No confronto, ficaram feridos o sol­dado Antônio Ferreira Silva e o italiano Vicente Grecco.

Outro tiroteio aconteceu na avenida São João, deixando ferido Clementino de Carvalho, um fun­cionário da Faculdade de Direito muito querido pelos estudantes e que acabou se destacando como o orador nos conflitos. Sua morte chegou a ser noticiada, mas foi des­mentida.

Na rua Santa Ifigênia as brigas também recomeçaram, mas a população paulistana passou a reagir e alguns italianos entraram para as listas de mortos e feridos.

Os imigrantes preferiam atacar à noite. Na terça-feira, dia 25, por volta das 22h, a cavalaria foi re­cebida a balas na rua Carneiro Leão. Cercou a casa de onde par­tiam os tiros e prendeu 32 agres­sores.

Na rua do Glicério, um ita­liano identificado apenas como Giuseppe atirou em uma carruagem e foi detido. Os confrontos cresceram no Bom Retiro, quan­do quatro soldados enfrentaram dezenas de pessoas num cortiço. Um deles foi baleado e morreu no dia seguinte. Quando chegou a pa­trulha de cavalarianos, o quartei­rão foi cercado, as portas do cor­tiço arrombadas e os moradores, munidos de revólveres e espingar­das, capturados.

A ocorrência nem havia terminado quando os poli­ciais foram chamados pelo coro­nel Xavier de Toledo para acabar com um tiroteio na Luz. Tiveram que coloca­r os italianos para correr.

Repercussão — No Exterior, os conflitos ocorridos em São Paulo repercutiram muito mal. Na Argentina, a imprensa mostrou os paulistas como radicais e os imi­grantes como vítimas.

Na Itália, o rei Humberto I pediu informações ao seu ministro do Exterior, Rudini, enquanto os jornais inflama­vam a opinião pública, defenden­do até a declaração de guerra.

Os políticos italianos chega­ram a pedir o envio de uma esqua­dra para as águas brasileiras, com o objetivo de garantir a integridades de seus patrícios.

A Marinha de Guerra adiantou-se, preparan­do para zarpar os encouraçados Sardenha, Rei Humberto, Lepanto, Etrúria e Colombo e mais qua­tro torpedeiros de alto-mar. Mas, no fim, tudo terminou em pizza.

Enquanto isso, em São Pau­lo, a imprensa iniciou uma cam­panha pela substituição do côn­sul Brichanteau, considerado um arruaceiro, e pela cassação de suas credenciais diplomáticas. Logo no primeiro dia dos distúr­bios, estudantes de direito já ha viam pedido ao presidente do Es­tado, Campos Sales, que despa­chasse o cônsul, um dos maio­res incentivadores do conflito.

PresidentesO ministro do Exterior, Carlos de Carvalho, anunciou então, no dia 24, que havia cassado as credenciais de Brichanteau, que dias depois em­barcou de volta para sua terra.

Italianos pacíficos – A vio­lência gratuita não partiu apenas dos italianos. Muitos paulistanos também atacaram sem motivo imigrantes pacíficos. Soldados embriagados bateram em imi­grantes pacatos e trabalhadores na avenida Rangel Pestana, atin­gindo inclusive um italiano que estava com uma criança nos bra­ços. Fato semelhante aconteceu na rua do Glícério.

Naquele tem­po ainda imperava o jacobinismo, uma corrente de nacionalistas exagerados que manifestavam aversão a estrangeiros. Gente que se inflamava por pouca coisa e era capaz de cometer loucuras.

No largo São Francisco, os estudantes faziam arruaças e o delegado Fausto Ferraz pediu que acabassem com as manifes­tações. Como não foi atendido, a cavalaria dissolveu a baderna e um estudante saiu ferido.

No dia 27, a onda de violên­cia acalmou e foram registradas poucas ocorrências, o mesmo acontecendo no dia seguinte.

Xavier de Toledo abriu sindicân­cia para apurar os motivos da pan­cadaria e seu trabalho foi elogia­do até pela diplomacia italiana, que destacou seu equilíbrio. No sábado 29 de agosto, o Diário Oficial da República, desmentiu o valor das indenizações aos ita­lianos e garantiu que jamais re­conhecera a legitimidade das re­clamações.

A Justiça só mandou pagar as perdas comprovadas. Serenados os ânimos, o Legisla­tivo aprovou os protocolos, pos­tos em execução por decreto do presidente Prudente de Morais, em 5 de dezembro de 1896.

A “Questão dos Protocolos”, entretanto, deixou seqüelas. Por muito tempo, os italianos foram discriminados na Capital. Famílias tradicionais não aceitavam que suas filhas casassem com italianos ou seus descendentes, a quem cha­mavam pejorativamente de carcamanos.

Logo, começou a ser decla­mada na cidade uma quadra de versos preconceituosos, citada por Jânio Quadros e Afonso Arinos no livro “História do Povo Brasileiro”:

“CARCAMANO PÉ-DE-CHUMBO, CALCANHAR DE FRIGIDEIRA, QUEM TE DEU A CONFIANÇA DE CASAR COM BRASILEIRA ?”

O tempo se incumbiu de eli­minar o preconceito e apagar as mágoas de parte a parte. Os imigrantes italianos e seus des­cendentes são louvados como personagens de destaque no processo que transformou São Paulo na potência que é, e de quebra, introduziram sua cultura, especialmente a culi­nária, no cotidiano da cidade. A história mostra grandes empresas e impérios montados por famílias tradicionais, como Matarazzo, Filizola, Crespi, para citas algumas.

Passados estes 117 anos, a guerra entre paulistas e italia­nos inspira mais risos do que o ranger de dentes, apesar das vi­das que se perderam e dos prejuízos. Poderia, muito bem, servir de referên­cia para o roteiro de um filme de comédia. O fato relevante é que não dá para imaginar São Paulo sem a presença dos italianos, apesar de todas as confusões daqueles tempos iniciais, que certamente tinham também influências do panorama de acontecimentos mundiais da época.

Protocolos

Estes episódios, foram tão marcantes, que fazem parte em destaque histórico da atuação da polícia paulista, junto com todas as outras conturbações, que ocorreram na cidade e no Estado. O Brasão-de-armas da Polícia Militar do Estado de São Paulo que é um Escudo Português, perfilado em ouro, tendo uma bordadura vermelha carregada de 18 (dezoito) estrelas que simbolizam conflitos que exigiram grande presença e atuação,  tem em sua estrela de nº 7,  representada a revolta “Questões de Protocolos” de 1896.


BIBLIOGRAFIA:

Oliveira, Flávia Arlanch Martins de – Impasses no Novo Mundo, UNESP 2008

Alves, Odair Rodrigues – JÁ Diário Popular – São Paulo 11/05/1997

Leal, Claudia Feierabend Baeta – Anarquismo e segurança pública: São Paulo, 1894, UNICAMP 2009

Acervo pessoal


 

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