A relação capital-trabalho nunca mais foi a mesma, em São Pau­lo, depois de 1917. Entre junho e julho daquele ano, a Capital foi sacudida por uma onda de greves de proporções inéditas. Pela primeira vez na história do País, milhares de trabalhadores das mais diversas categorias se uniram para fazer reivindica­ções comuns, deixando de lado interesses específicos.

Trabalhadores influenciados pelo anarquismo trazidos pelos imigrantes europeus, notadamente espanhóis, italianos e portugueses que vieram substituir o trabalho pós escravidão no Brasil e por notícias da velha guarda bolchevique fundada em 1900 na Rússia se organizaram para reivindicar melhorias nas condições de trabalho.

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O movimento não foi insuflado por partidos políticos, mas comandado pelo Comitê de De­fesa Proletária. Aliás a expressão proletária é simbioticamente associada a revolução bolchevique que, liderados por Vladimir Ilitch Ulianov, o Lenin, viriam a tomar o poder em 7 de novembro deste mesmo ano, em 25 de outubro.

Mas além disto também “fazia a cabeça” do operariado paulis­tano as idéias anarquistas difundidas por colegas estran­geiros, especialmente imigran­tes italianos e espanhóis, e al­guns escritores, como Afonso Schmidt.

Mas o pano de fundo ou motivação para esta greve era a miséria em que se encontrava o prole­tariado, causada pela Primeira Guerra Mundial e pelos apro­veitadores de plantão. O Brasil não enviou tropas à Europa para combater os alemães, mas participou do patrulhamento do Atlântico, onde diversos navi­os, inclusive cargueiros e tran­satlânticos, foram afundados por submarinos germânicos.

Os torpedos inimigos e o próprio esforço de guerra em­preendido por outros países ali­ados não tardaram a dificultar a compra de mercadorias por uma nação que dependia, e muito, das importações. Os principais produtos brasileiros eram, basicamente, gêneros de primeira necessidade, que, como se não bastasse, passa­ram a ser exportados em maio­res volumes para os aliados, que ofereciam melhores pre­ços.

Resultado: o mercado in­terno ficou desabastecido e os preços subiram de forma assus­tadora, assim como os aluguéis, enquanto os salários permane­ciam com os mesmos valores. As reivindicações dos operá­rios, entretanto, não se limitavam ao reajuste dos salários. Incluíam, entre outros itens, o tabelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade e dos aluguéis, jor­nada de trabalho de oito horas e a exclusão de mulheres e crianças dos turnos noturnos. Como os pa­trões permaneceram surdos a esses pleitos, as paralisações tive­ram início.

O movimento teve início em São Paulo com a paralisação do Cotonifício Crespi na Mooca, no dia 12. A greve meio que fracassou, pois parte dos operários voltou ao traba­lho dias depois. Quatro traba­lhadores foram presos como agi­tadores e depois libertados.

Em 28 de junho, a diretoria da empresa parecia propensa a aceitar as reivindicações de seus empregados. Foi acertada uma reunião entre as duas partes para o dia seguinte, às 13 ho­ras, quando seriam anunciados um reajuste salarial de 20%, melhores condições de higiene e novas normas de procedimento por parte dos mestres e superiores, que pratica­vam todo tipo de arbitrarieda­des contra os operários, chegan­do a espancar crianças.

A reunião foi um verdadei­ro fiasco. A gerência da fábri­ca tratou a comissão de operários com grosseria, dizendo que ainda não haviam terminado de elaborar a tabela de salários e que, quando a tivessem fei­to, quem quisesse fosse ver no portão, onde ela seria afixada. Acrescentou que não tinha satisfações a dar à comissão, que ali era uma casa de traba­lho e que a fábrica permane­ceria fechada até o fim da gre­ve. Foi a gota d’água.

Os 2 mil operários do Cotonifício Crespi organizaram um comício, naquele mesmo dia, no centro de São Paulo. Ime­diatamente, receberam a soli­dariedade de outros 1.600 tra­balhadores das fábricas de Nami Jafet, que também exigi­am 20% de aumento para o tur­no diurno e 25% para o noturno. Como Jafet ofereceu só 13%, sua produção foi inter­rompida. Outros patrões se mostraram intransigentes nas negociações, e novas fábricas foram parando, uma após a ou­tra, fazendo da luta pelos 20% uma bandeira comum.

Logo, o movimento extra­polou o perímetro da Capital paulista, pois os trabalhadores nas indústrias de mármore e granito de Ribeirão Pires, Co­tia e Louveira cruzaram os bra­ços, sendo acompanhados por seus colegas de Itaquera, na Zona Leste. Em pouco tempo, os grevistas somavam 7 mil.

As vitórias não demoraram. Os operários da fábrica de te­cidos Labor, no Ipiranga, uma das unidades do grupo Jafet, conseguiram negociar com os patrões no dia 6, graças ao empenho do delegado de Polícia Mascarenhas Neves, que aproximou empregados e pa­trões e evitou usar de violência ‘com os grevistas. Eles conquis­taram um reajuste de 20% na jornada diurna e de 25% na noturna, o pagamento dentro da primeira quinzena após o mês trabalhado e estabeleceram que as jornadas aos sábados termi­nariam às 16 horas.

No dia 9, o primeiro inci­dente grave foi registrado na fábrica da Antarctica, na Mooca. O pessoal do setor de pintura declarou-se em greve e o delegado geral Tirso Mar­tins enviou para o local uma força de 10 praças, a pedido da empresa. Os operários, para impedir que a Polícia chegasse ao local em automó­veis, espalharam grande quantidade de cacos de vidros nas ruas vizinhas à empresa, forçando o delegado enviado para a missão, Bandeira de Melo, a fazer o trajeto a pé, acompanhado dos soldados.

Eram 6 horas quando o operário austríaco Marco Glibrenk, em companhia de ou­tros colegas, se recusou a aca­tar a ordem de dispersar. O conflito se estabeleceu na por­ta da cervejaria, pois os solda­dos fizeram uso das espadas e atacaram os operários. O austríaco saiu bastante ferido. Ele e outros colegas feitos pri­sioneiros foram levados à cen­tral de Polícia para exame de corpo de delito. A Polícia apro­veitou para levar presos vári­os operários da Crespi, sob alegação de que haviam participado da “baderna”. Uma co­missão de trabalhadores foi à central e conseguiu que o pes­soal da Crespi fosse solto.

Embora a polícia tenha reagido a um início de subversão da ordem pública, a ação policial irritou os grevistas. Um cocheiro fura-greve, que conduzia uma car­roça da Antarctica escoltado por um policial, foi atacado a pe­dradas, às 11 horas, na rua Piratininga. O policial também saiu ferido, a carroça foi dani­ficada e a carga destruída. A tropa de cavalaria que estava em alerta em frente ao posto policial do Brás foi requisitada e recebida a tiros no local. Fo­ram pelo menos 40 disparos, mas não houve vítimas fatais. Estava então estabelecida a anarquia conceitualmente adquirida do exterior.

Aos gritos de “morra”, con­tra a Polícia, o mesmo grupo de manifestantes dirigiu-se à fábrica de tecidos Mariângela, com o objetivo de impedir a entrada de operários para o ser­viço depois do almoço. O edi­fício da fábrica foi imediata­mente cercado por praças, que dispersaram os grevistas. O delegado Tirso Martins apare­ceu no local e foi vaiado.

Às 13h, um grupo de gre­vistas mais exaltados tentou assaltar o posto policial do Brás, para dar fuga a cinco companheiros, mas teve de sair em debandada. Ao mesmo tem­po, houve um confronto entre manifestantes que incitavam os operários à greve e polici­ais na porta de uma fábrica do grupo Matarazzo. Tiros foram disparados e o jovem operário José Gimenez Martinez, de apenas 14 anos, foi atingido por uma bala que lhe perfurou o estômago, fígado e intestinos. Em estado grave, o garoto foi levado para o hospital.

Depois do conflito, o de­legado geral de Polícia foi ao Palácio do Governo discutir com o presidente do Estado, Altino Arantes, medidas mais drásticas. Tirso Martins argu­mentou que os grevistas pro­curavam cometer toda sorte de depredações e obteve re­forços. Ao policiamento do Brás foram incorporados mais 80 praças, sendo 50 da infanta­ria e 30 da cavalaria.

Os comentários da Impren­sa eram totalmente desfavorá­veis ao Governo do Estado (aliás como hoje o é) acusado de não haver tomado qualquer providência contra a ganância de comerciantes inescrupulosos que vendiam caro os produtos já escassos e che­gavam ao ponto de estocá-los, para forçar uma alta ainda maior dos preços. “O desca­so verificado em São Paulo lançou os operários no ca­minho da arruaça”, dizia o extinto DIÁRIO POPULAR, na edi­ção de 10 de julho.

Na madrugada daquele dia, morreu o menor José Gimenez Martinez. A greve geral ganha­va seu mártir. O enterro do ga­roto, realizado no cemitério do Araçá no dia 11, foi acompa­nhado por uma legião de gre­vistas. Horas depois, manifes­tantes revoltados atacaram em­presas no Brás. Foram assalta­dos e danificados os edifícios da Fábrica de Cigarros Tropani e a sede da O. Peterson & Cia, enquanto as fábricas de cigarro Castelões e Sudan pre­cisaram fechar as portas. No Moinho Santista, um grupo inutilizou mais de 600 sacas de farinha de trigo, mas foi sur­preendido pela Polícia.

Vários trabalhadores saíram feridos e também dois soldados de cava­laria, sendo presas 16 pessoas.

Ainda na tarde do dia 11, os operários de outra fábrica do grupo Matarazzo abando­naram o serviço, aderindo à greve. Seu exemplo foi segui­do em uma fábrica de chapéus na Vila Prudente e também pelo pessoal do Liceu de Ar­tes e Ofícios e da Companhia de Gás. Na rua Passos, onde havia uma fábrica de vidros, o prédio começou a ser depre­dado e a Polícia foi chamada.

A violência cresceu no dia 12. Logo pela manhã, às 8 ho­ras, um grupo tentou invadir o Moinho Gambá, mas a Polícia chegou e impediu a ação. Os manifestantes seguiram então para a rua da Mooca, onde co­meteram várias depredações até a chegada da cavalaria, que feriu e prendeu muita gente. Os que escaparam foram para o Cambuci, onde que­braram bondes e carroças. Ao mesmo tempo, 500 grevistas tentavam impedir que os em­pregados da Papelaria Weizflog, na rua Libero Badaró, entrassem para trabalhar.

Os piquetes, muitas vezes, eram desnecessários, já que a adesão ao movimento não pa­rava de crescer. O número de grevistas atingiu 15 mil em 11 de julho, pulando para 20 mil no dia 12 e daí para 40 mil, nas horas seguintes, quando a greve passou a ser considerada de alcance geral. São Paulo, à época com 500 mil habitantes, estava próxima de um colapso.

Como patrões e empregados já não mais se entendiam e as autoridades tinham que administrar as anarquias e subversão da ordem, um grupo de jorna­listas resolveu se oferecer como mediador entre as partes. O ape­lo surtiu efeito e os representan­tes do capital e do trabalho vol­taram a dialogar. Em 15 de ju­lho, chegaram a um acordo que dias antes parecia impossível.

Os empresários concorda­ram em reajustar os salários em 20%, deram a garantia de que os grevistas não seriam demitidos e acataram o direito de associa­ção de seus empregados. Além disso, se comprometeram a efe­tuar o pagamento dos salários na primeira quinzena seguinte ao mês trabalhado e a apoiar medi­das para a melhoria das condi­ções de vida dos funcionários.

Já o governo estadual, libertou os grevistas presos, com o compromisso de que voltariam ao trabalho, e reconheceu o direito de reunião, “quando este se exercer dentro da lei e não for contrário à or­dem pública”. De quebra, as­sumiu o compromisso de tomar providências para que fossem cumpridas as “disposições de leis relativas ao trabalho dos menores nas fábricas”.

O cumprimento do acordo, em sua totalidade, não foi tran­quilo, pois algumas indústrias já haviam concedido pequenos aumentos salariais anteriormen­te e tentaram deduzi-los do au­mento geral de 20% acertado no acordo do dia 15. Esses peque­nos problemas, entretanto, não impediram que os operários vol­tassem ao trabalho, no dia 17. Foi um retorno glorioso, pois, além das diversas conquistas obtidas, eles sabiam que seu movimento fora um divisor de águas na História do Brasil.


Algumas imagens da histórica greve de 1917 


Centelha paulista

A greve geral em São Paulo ser­viu de estopim para movimentos se­melhantes em outras capitais do País. Entre o fim de 1917 e 1919, diversas categorias cruzaram os braços Brasil afora. A repercussão maior foi no Rio de Janeiro, onde a Federação Operá­ria deu amplo apoio aos trabalhado­res paulistas. Quando o Governo Fe­deral quis intervir em São Paulo, a en­tidade ameaçou deflagrar uma greve geral no Rio, promessa que acabou sendo cumprida a partir de 19 de ju­lho, quando as paralisações começa­ram a pipocar na então Capital Fede­ral e também em Curitiba. Em agosto daquele ano, o total de trabalhadores parados atingia a casa de 70 mil.

No segundo semestre de 1918, a terrível gripe espanhola impôs uma pausa ao movimento proletá­rio. Mas em janeiro de 1919, quan­do a epidemia já havia desapare­cido, os padeiros cruzaram os bra­ços, pedindo reposição salarial. No final do ano, entre 23 e 27 de outubro, a Capital foi novamente sacudida por uma grande greve, envolvendo várias categorias, que levou a invasão do jor­nal operário “A Plebe” e à expul­são do País dos jornalistas estran­geiros Silvano Antonelli, Gigi Damiani e Alexandre Zanelli.

Para Edgard Carone, um dos mais destacados historiadores do período republicano brasileiro, a greve de 1917 inaugura a fase revolucionária das greves que “até 1919 atingem uma intensidade e um grau técnico nunca alcança­dos”. É quando o operariado toma consciência de que pode chegar ao poder, faltando para tanto, apenas, a organização partidária a exemplo do que aconteceu com os bolcheviques que conquistaram o poder com a força violenta de camponeses e operários. Com isso ocorre a fundação do PCB, em 1922, quando a influência anar­quista passa a ser substituída pelo marxismo-leninismo exportado pela Revolução Bolchevique. Não atoa isto perdura até hoje onde o sindicalismo e suas centrais adotam a cor vermelha como símbolo e suas ações se dividem entre praticas bolcheviques (violenta e anarquista) e uma minoria como mencheviques (mais moderados na luta por transformações progressivas da sociedade).

Apesar de serem claras as dificuldades econômicas e uma exploração de trabalhadores que culminaram com tantos protestos, greves e anarquias, leis trabalhistas surgiriam nos anos vindouros, notadamente nos governos de Getúlio Vargas, mas o modo de operação de sindicatos e centrais operárias sequem até hoje o script que se iniciou naqueles remotos anos do início do século 20, com o apoio inabalável da imprensa, sempre.


Bibliografia/Fontes:

  • KHOURY, Yara Aun – As greves em São Paulo, Ed. Cortez/Autores Associados, São Paulo – 1981
  • WOLFE, Joel. Anarchist Ideology, Worker Practice: The 1917 General Strike and the Formation of Sao Paulo’s Working Class. The Hispanic American Historical Review, Vol. 71, No. 4 (Nov., 1991), pp. 809-846, Durham, NC: Duke University Press
  • Lopreato, Christina Toquette – O Espírito da Revolta, a greve geral anarquista de 1917 – FAPESP, São Paulo – 2000
  • Alves, Odair Rodrigues – Braços cruzados, máquinas paradas, JÁ-Diário Popular #35, 06/07/1997 – São Paulo

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