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Estação da Luz e a King Cross Station…

Um dos monumentos urbanos mais espetaculares de São Paulo é a Estação da Luz, no centro da cidade. Ela é um espaço arquitetônico visualmente britânico, nos trópicos que não foi colônia inglesa em qualquer tempo.

A estação como está e conhecemos hoje é a terceira construção realizada para dar conta de uma demanda de passageiros e carga no início do século 20.

Todo o projeto desta estação é atribuído ao arquiteto britânico Charles Henry Driver (1832–1900), um renomado arquiteto de estações ferroviárias.

Driver foi um dos primeiros arquitetos a projetar uma cobertura envidraçada para uma estação ferroviária na linha da Cia. Midland Railway, nas cidades de Leicester e Hitchin, em Kettering e em Wellingborough, respectivamente, em 1857. Também trabalhou na London, Brighton and South Coast Railway.

O cálculo da estrutura da gare foi realizado pelos engenheiros consultores, Daniel M. Fox e Alexander Mac Kerrow, cujo escritório ocupava as instalações do antigo escritório de sir James Brunlees, em Londres, em Victoria Street, n° 12, em Westminster, datado de dezembro de 1898.

Toda a estrutura metálica da gare e os equipamentos para a iluminação da estação foram importados da Grã-Bretanha, sendo os fornecedores das peças as empresas Walter MacFarlane & Co, de Glasgow, Earl of Dudley Steel e Hayward Brothers Borough, de Londres, Alexander Mac Kerrow, de Westminster, Dorman & Co Ltd e Frederick Braby & Co Ltd. Engineers and Contractors, também de Londres.

Planejada e construída ao estilo vitoriano, a Estação foi construída sob a supervisão do engenheiro inglês James Ford. O objetivo era abrigar a São Paulo Railway (SPR),empresa com sede em Londres e operação em São Paulo, destinada a escoar principalmente o café até o porto de Santos e de lá trazer os insumos para as indústrias de São Paulo e interior. A estrada de ferro inaugurada em 1867, e financiada com capital inglês, tinha 159 km ligava o município de Santos ao de Jundiaí, tendo como ponto de passagem a cidade de São Paulo. Também atravessava os municípios de Cubatão, Santo André (Paranapiacaba), Rio Grande da Serra, Ribeirão Pires, Mauá e São Caetano do Sul.

Já a então famosa estação tinha uma disposição paralela às linhas, sendo, portanto uma estação de passagem, apesar de suas dimensões, com os serviços dispostos lateralmente às plataformas. O tijolo aparente e as estruturas metálicas da gare são os elementos construtivos predominantes. A gare é encimada por um lanternim (uma espécie de “casa” sobre o ponto mais alto de uma cúpula) que se estende ao longo de todo seu comprimento e coberta por folhas de zinco e telhas e vidro. Os entornos em alvenaria mostram várias janelas e acesso em arcos e a utilização de ferro fazem da construção um estilo bem inglês nas construção de estações e terminais ferroviários.

Devido ao crescimento da cidade, o transporte de passageiros ´passou também a ter alta demanda na época e todas as personalidades ilustres que iam à São Paulo eram obrigadas a desembarcar na Estação da Luz. Empresários, intelectuais, políticos e até mesmo reis eram recepcionados em seu saguão ou se despediam de lá. Além disso a estação também foi a porta de entrada para os imigrantes na cidade, alguns dos quais trouxeram o crescimento para toda região do Bom Retiro, onde se localiza o Parque da Luz com sua bela estação ferroviária.

Tornou-se uma preciosidade inglesa na cidade e é destaque na biografia de Charles Henry Driver, como pode ser visto aqui

Aberta em março de 1901, a Estação da Luz é até hoje um dos prédios mais bonitos e famosos de São Paulo. Em seu exterior há inspiração no Big Ben e na abadia de Westminster, ocupa uma área de mais de 7 mil metros quadrados e é parada obrigatória não só para paulistanos como turistas que visitam a cidade.

Tanto é que durante a Copa de 2014 encantou os turistas que ali tomavam o expresso para o estádio da Copa em SP, na Zona Leste da cidade. Um desses turistas ao adentrar a estação para ir ao estádio, afirmou: “Puxa, parece que estou na King Cross”…

Acima ao centro, a estação terminal King Cross, com seus dois galpões (gare) centenários, que serão comparados com o gare da Estação da Luz. A esquerda a torre da St. Pancras Railway station. Abaixo nossa Estação da Luz, que externamente tem elementos da St.Pancras, mas que internamente é muito parecida com a King Cross.

Não a toa, o blog pesquisou esta estação de Londres e pode comparar muitas semelhanças arquitetônicas..

A estação ferroviária de King’s Cross , também conhecida como London King’s Cross , é uma Estação ferroviária terminal de passageiros no bairro londrino de Camden , na periferia do centro de Londres . É, uma das estações mais movimentadas do Reino Unido e no terminal sul da linha principal da costa leste até o nordeste da Inglaterra e Escócia.

Ao lado da estação King’s Cross fica também a moderníssima St Pancras International , o terminal de Londres para os serviços Eurostar na Europa continental (Paris). Sob as duas estações principais, fica a estação de metrô King’s Cross St Pancras, do Metrô londrino – combinados, eles formam um dos maiores centros de transporte do país.

A estação foi inaugurada em 1852 pela Great Northern Railway, no extremo norte do centro de Londres, para acomodar a Linha Principal da Costa Leste. Ela cresceu rapidamente para atender às linhas suburbanas e foi expandida várias vezes no século XIX. O complexo da estação foi reconstruído na década de 1970, simplificando o layout e fornecendo serviços suburbanos elétricos, e tornou-se um importante terminal para o trens de alta velocidade.

A partir de 2018 , os trens de longa distância da King’s Cross eram operados pela London North Eastern Railway para Edinburgh, Waverley , Leeds e Newcastle.

A estação de King’s Cross foi construída em 1851-1852 (portanto 49 anos antes de nossa estação da Luz) como o terminal de Londres da Cia.GNR (Great Northern Railway) e foi o quinto terminal de Londres a ser construído.

O desenvolvimento de King’s Cross remonta a dezembro de 1848. Os planos para a estação foram feitos sob a direção de George Turnbull , engenheiro residente para a construção dos primeiros 32 km da GNR , fora de Londres. Ela foi construída , substituindo uma estação temporária então existente. Foi projetada pelo arquiteto Lewis Cubitt e construído por John e William Jay. Com o tempo a estação foi adequada várias vezes em função do aumento do tráfego suburbano. Um edifício ferroviário secundário acabou sendo também também construído.

O projeto detalhado tinha seu time formado por Lewis Cubitt , irmão de Thomas Cubitt (arquiteto de Bloomsbury , Belgravia e Osborne House ), e Sir William Cubitt (que era o engenheiro-chefe do Palácio de Cristal construído em 1851, e engenheiro consultor das Grandes Ferrovias do Norte e Sudeste ).

O projeto incluía dois grandes arcos (gare), com uma estrutura de tijolos com acessos em arcos com as plataformas entre os trilhos. Sua principal característica era uma torre de relógio de 34 metros de altura que continha sinos agudos, tenor e baixo, Sua aparência externa é mais para neoclássico, numa área de 8.000 m².

Sutilezas entre as estações:

  • A estação da Luz é estação de passagem, ao passo que a King Cross é estação terminal.
  • Ambas tem estações do metrô: Na estação da Luz, duas linhas movimentam passageiros (Linha Azul e Linha Amarela). Na King Cross é pelo terminal St.Pancras.
  • A King Cross possui mais plataformas de embarque e mais passageiros transportados do que a Estação da Luz, mas,
  • A disposição das plataformas de embarque/desembarque são idênticas.
  • A King Cross atende parte de Londres e cidades próximas e a Escócia, ao passo que a estação da Luz atende municípios da grande SP e trens urbanos (Linhas 7, 10, 11, 13)
  • A estação da Luz atende ao Aeroporto de Cumbica, e a King Cross com seu terminal de metro St.Pancras atende o Gatwick Airport.
  • A estação da Luz possui dois andares sendo que o 2º andar é servido por mezaninos em ambos lados ligados por passarelas de ferro. A king Cross possui a mesma passarela, mas com acesso direto das plataformas.
  • A estação da Luz não tem em sí própria e nem nos terminais de metrô, trens de alta velocidade, talvez os tenha com os esperados TICs (Trem Intercidades), já na King Cross e St.Pancras este tipo de transporte é normal.
  • A estação da Luz é passagem para trens de carga (para Santos e interior), o que não ocorre na King Cross.
  • Ambas estações já sofreram períodos de degradação no século passado e tiveram que passar por profundas reformas.
  • A estação da Luz já sofreu dois grandes incêndios, e a King Cross três acidentes graves (1881, 1945 e 2015) além de atentado terrorista do IRA.
  • As duas estações tem intimidades com arte e cultura: King Cross já foi cenário de filmes: Howards End , The Eight Famous Engines, The Secret of Platform 13, Harry Potter (Expresso de Hogwarts) na plataforma fictícia 9 3/4. A estação da Luz possui o Museu da língua portuguesa, único museu idiomático do mundo, e acesso ao museu Pinacoteca do Estado.
  • A estação da Luz sofre com estrangulamento pelo aumento da demanda sem previsão de projetos de adequação, enquanto a King Cross já passou por projetos para atender a demanda.

Porém a grande similaridade que realça a capacidade britânica em projetar e construir estações ferroviárias no século passado, está em seus atributos internos, gare, arcos, clarabóias, distribuição das plataformas, etc., como mostram as imagens e que fez com que o turista na Copa de 2014 se sentisse numa King Cross, estando num local bem distante, num país tropical.

 

Acima cenas da King Cross Station e comparação com cenas similares da Estação da Luz. Os detalhes a serem observados e comparados são o gare em arco todo em ferro, as plataformas lateral e central, as alvenarias em tijolo com suas janelas e acessos em arcos, passarelas de ferro sobre as linhas, as telhas transparentes claraboias, e outros detalhes, que caracterizam este estilo inglês de construção de estações ferroviárias.
 


Veja também:
MAIS CENÁRIOS DA ESTAÇÃO DA LUZ
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Updated: 07/09/2020 — 3:12 pm