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E a rainha escorregou …

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Ilustração de Rita Lee pelo cartunista Walter Teixeira

Na madrugada do último domingo (29/01), o noticiário foi assolado por um episódio lamentável, onde durante o seu show de despedida em Barra dos Coqueiros (SE), Rita Lee foi detida porque teria xingado policiais que faziam a segurança no local de “cavalos”, “cafajestes”, “cachorros” e “filhos da puta”

Claro que a presença polícial ali, estava também para conter a circulação de drogas, entres elas a própria maconha, reverenciada por Rita em pleno palco, como amplamente divulgado.

Na apologia ao baseado, talvez quisesse dar um ar de anos 60 neste seu ultimo show, afinal estas ocorrências de drogas eram comuns naqueles anos em shows abertos, notadamente maconha e LSD. Ocorre que certamente Rita sabe disto, as coisas mudaram muito, pois sabidamenente naqueles anos os protagonistas alegam defender aquelas drogas para melhorar a inspiração e criatividade, e não atôa é daqueles anos as preciosidades musicais e das artes, eternizadas por várias personalidades.

Como os tempos mudaram, aquilo que poderia ser inspiração, nos dias atuais, é crime, pois uma extensa rede criminosa se dispôe a catalizar viciados e a formar outros deixando todo um flagelo de consequências para a sociedade resolver. Shows em ambientes abertos são a melhor “prospecção de mercado” para os criminosos de plantão.

Não acredito que ela como mãe de familia, se sentaria com seus filhos para uma sessão de baseado, para curtir qualquer situação, ou para qualquer justificativa, que tentou validar nos palcos de Aracajú.

Os policiais estavam alí para coibir esta situação, e não para tomar seu show, como ela alardeou no placo durante a crise. Até o governador de Sergipe, Marcelo Déda, que estava lá prestigiando o show, já que era sua última apresentação em palcos, se viu constrangido pela situação. Após em entrevista, Déda censurou o comportamento de Rita, ressaltando que a postura da cantora poderia ter gerado uma “confusão generalizada”, com toda a razão, pois estava “inflamando” o público.

Resultado deprimente desta situação é que após o show, foi detida, conforme relato do tenente-coronel Adolfo Menezes, responsável pelo policiamento no local, informando que o boletim de ocorrência do episódio foi tipificado como “desacato e apologia ao crime ou ao criminoso (art. 287 do Código Penal)”, segundo informações divulgadas pela coluna ilustrada da Folha no próprio domingo.

Entendo que toda “estrela” de rock, por raízes lá dos anos 50, tem que trazer ou praticar esquisitisses, polêmicas e outras excentricidades, mas acho que neste caso, perdeu-se a oportunidade de torna-lo um grande evento apoteótico dada as circunstâncias, em que a rainha do rock está dando adeus aos palcos.

Cine-Teatro Paramount e Teatro Brigadeiro (atual Teatro Abril) inaugurado em 1929, na Avenida Brigadeiro Luís Antonio, em São Paulo

Pessoalmente, ainda fazendo referencia aos anos 60, gostaria de nossa rainha, nunca tivesse saído dos Mutantes, e que por causa disto o Arnaldo Batista não tivesse virado Loki, Sérgio Batista se auto-exilado nos EUA e Europa, certamente os Mutantes seriam os Rolling Stones do Brasil, criando e tocando durante décadas a fio e ainda sem data para aposentadoria.

Ainda dentro desta linha de raciocínio, poderiam encerrar suas aparições, lá no Teatro Paramount (hoje Teatro Abril), na Brigadeiro Luis Antonio onde explodiram para o mundo junto com a Tropicália, de maneira análoga como os Beatles fizeram na lage do edifício da Apple Records, sua ultima apresentação.

Mas infelizmente ao invés disto vai ficar este deprimente episódio em Aracaju. Infelizmente nossa rainha escorregou….


 

Celly, nossa eterna rainha

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Boa parte das pessoas acreditam que o Rock no Brasil, se iniciou com aquele movimento chamado Jovem Guarda, em São Paulo, pela mãos da antiga TV Record de Paulo Machado de Carvalho, tradicional empresário do ramo, mas foi um pouco antes, em 1959 que surgiu Celly Campello e seu irmão Tony.

Antes de Tony e Celly Campello, existia alguma produção de rock´n´roll nacional, meramente rara e de produção para comerciais. Este cenário era dominado normalmente de artistas de várias vertentes quase sempre acima dos trinta anos. Os sons que ainda marcavam era das Big Bands estilo Glenn Miller. Foi assim até os irmãos Tony e Celly Campello entrarem na cena musical tornando o rock´n´roll uma expressão artística jovem no país. Com o impacto de Celly Campello, sua imagem de simpatia e carisma, além de sua voz perfeitamente clara e límpida, deu-se o inicio ao primeiro estilo de rock nacional que só mais tarde iria ganhar o nome de Jovem Guarda.

Tony Campello nasceu Sérgio Benelli Campello no dia 24 de fevereiro de 1936 na cidade de São Paulo. Nascia seis anos depois a irmã caçula Célia Benelli Campello, em 18 de junho de 1942. A família mudaria pouco depois para Taubaté, interior do Estado, o verdadeiro berço de suas carreiras. Os irmãos teriam uma boa instrução musical, ambos tendo aulas de piano e violão, Célia também tinha aprendizado de balé. Estreia, por assim dizer, em festas do Rotary Club, que seus pais frequentavam.

Celly começou sua carreira precocemente, sua estreia no radio foi no programa Silva Neto da Rádio Difusora, mas também participou de programas da Rádio Cacique de Taubaté aos 6 anos de idade, cidade onde passou toda sua infância. Tornou-se rapidamente um nome conhecido na cidade.

Tornou-se uma das participantes do Clube do Guri (Rádio Difusora de Taubaté).Aos doze anos já tinha o próprio programa de rádio, também na Rádio Cacique. Aos quinze anos de idade (1958) gravou o primeiro disco, em São Paulo no outro lado do primeiro 78 rotações do irmão Tony Campello que a acompanhou em boa parte da carreira como cantora e atriz.

Estreou na televisão no programa Campeões do Disco, da TV Tupi, em 1958. Em 1959 estreou um programa próprio ao lado do irmão Tony Campello, intitulado Celly e Tony em Hi-Fi, na Record, o qual apresentou por dois anos. A carreira explodiu em 1959 com a versão brasileira de Stupid Cupid, que no Brasil virou Estúpido Cupido. A música foi lançada e se tornou um sucesso em todo país no ano de 1959. Nesse mesmo ano participou do longa-metragem de Mazzaropi, Jeca Tatu.

Durante a vida gravou outros sucessos: Lacinhos Cor-de-Rosa, Billy, Banho de Lua, que lhe renderam inúmeros prêmios e troféus, inclusive no exterior, e lhe deram o título de Rainha do Rock Brasileiro. A maior parte das versões eram de Fred Jorge, novelista e compositor musical, de Tietê SP, que participaria anos depois do movimento da Jovem Guarda, fazendo versões de músicas norte americanas e inglesas, para vários cantores e conjuntos musicais brasileiros.

Estúpido Cupido foi certamente maior sucesso de Celly e o que influenciou gerações:

Lacinho cor de rosa, um outro grande sucesso, acabou por ajudar a aceitação o rock´n´roll pelas famílias mais tradicionais, e colaborar para a solidez da nova manifestação artística que chegava ao país, naquele início de década (60), já com conturbações políticas no país:

Banho de Lua, de compositores italianos, foi introduzida pela primeira vez no Brasil, pela Celly Campello. 6 anos depois foi regravada por Rita Lee e os Mutantes no auge do movimento da Tropicália.

Celly vinha sendo cogitada para apresentar o programa Jovem Guarda (TV Record), ao lado de Roberto e Erasmo Carlos. Como abandonou a carreira, Wanderléa tomou seu lugar. Durante os anos derradeiros fez apresentações e deu entrevistas a várias emissoras, com particular destaque ao ano de 1976, quando foi trazida de novo ao sucesso, graças a telenovela Estúpido Cupido (homônimo do grande sucesso, de 1959) a qual gravou uma participação especial. Incentivada pelo sucesso da novela, tentaria retomar a carreira, chegando a gravar um disco e fazendo alguns espetáculos. Mas com o término da novela, voltou ao ostracismo.

Para tristeza de toda uma geração que a idolatrou como fenômeno musical, Celly abandonou a carreira no auge, aos 20 anos, para se casar e morar em Campinas. Foi em 1962, com José Eduardo Gomes Chacon, o namorado desde a adolescência. Com José Eduardo, com quem permaneceu casada até morrer, Celly teve dois filhos, Cristiane e Eduardo, e dois netos.

Em 1996, Celly descobre que está com câncer na mama. Após cirurgia e tratamento à base de quimioterapia, os médicos a consideram curada. Mas pouco tempo depois o câncer foi identificado em uma de suas costelas, mal que acabou atingindo a pleura.

Nova operação e mais quimioterapia não abalaram a moral ou esperanças. Mas teve que ser internada novamente no dia 20 de Fevereiro 2003, no Hospital Samaritano em Campinas, onde acabou por falecer no dia 3 de março de 2003. Seu sepultamento ocorreu no dia seguinte no Cemitério Flamboyants na cidade de Campinas onde. Deixou o marido, filhos e netos.

Uma das entrevistas marcantes, em 2002, já fazendo tratamento de um câncer de Mana e suas consequências:

Recebeu além do título de rainha do rock nacional, o título de namoradinha do Brasil, posteriormente dado a Regina Duarte. Uma curiosidade, nasceu no mesmo dia, mês e ano de Paul McCartney !

Uma breve homenagem feita por Celso B. Duarte em 2007 resume merecidamente em forma de tributo algumas imagens da carreira meteórica e eterna da Rainha do Rock´n´Roll:

Discografia e vida artística podem ser vistas neste link:

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