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Tebas, 200 anos depois…

Lá no distante século XVIII, na cidade de São Paulo, um escravo popularmente conhecido como Tebas se tornou famoso por criar projetos de alvenarias, notadamente religiosas. Ele tinha o domínio de uma técnica chamada de cantaria, que era um tipo de arte de talhar pedras em formas geométricas.

Estão entre seus mais famosos trabalhos a ornamentação de fachada do antigo Mosteiro de São Bento e a construção do primeiro chafariz público da capital, no largo da Misericórdia, instalado na atual rua Direita, que se tornaria o primeiro chafariz público da então provinciana capital de São Paulo. Outras obras suas como as partes frontais da igreja da Ordem Terceira do Carmo e da igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco ainda existem.

Ele também foi responsável pela reforma da antiga Catedral da Sé, que foi demolida em 1911, para a construção de uma nova Catedral da Sé que temos nos dias de hoje.

O famoso chafariz era ponto de encontro de escravos que iam buscar água para seus senhores e por lá falava-se muito de um tal de Tebas, nascido na cidade de Santos no ano de 1721, de família africana que supunha de quem teria aprendido algumas de suas técnicas de arte.


Tebas é um apelido pois seu verdadeiro nome era Joaquim Pinto de Oliveira, e o chafariz da Misericórdia ficou conhecido pelo apelido mesmo após sua morte, em 1811. A peça foi retirada após o processo de canalização de água, na cidade em 1886

Como escravo, seu proprietário era um conhecido mestre de obras da cidade de São Paulo chamado Bento de Oliveira Lima, a quem deve muito pelo seu aprendizado de ofício.

Segundo se sabia, Tebas era mais valioso de seus outros quatro escravos que atuavam como pedreiros juntos. Com o passar do tempo, Lima e Tebas passaram a ser solicitados para trabalhar em São Paulo, capital, onde realizaram muitas obras.

Como Lima morreu antes de terminar a restauração da antiga catedral da Sé, sua viúva muito endividada acabou por vender Tebas, e como era necessário concluir a restauração da fachada da igreja, o arcebispo Matheus Lourenço de Carvalho acabou por compra-lo. Com a conclusão da reforma, o Arcebispo concedeu-lhe a alforria no fim da década de 1778 quando tinha 57 anos.

Livre, Tebas continuou a trabalhar na área da construção. Ele morreu vítima de uma gangrena, aos 90 anos e ainda trabalhando no ramo. O velório e o sepultamento foram realizados na Igreja de São Gonçalo, que ainda hoje existe na Praça João Mendes.

Mesmo tendo realizado trabalhos de grande importância na época em que viveu, seu nome acabou por cair no esquecimento.

Mas a existência de uma história de um “arquiteto negro” acabou por atravessar o século 19 em muitas narrativas populares, se tornando uma lenda urbana.

O seu famoso Chafariz da Misericórdia, além de local para se pegar água era também um local de encontros, namoros e conspirações políticas em uma cidade colonial ainda sem abastecimento de água, que ficou conhecido por muito tempo como “Chafariz do Tebas”, o que perpetuou a história de seu construtor.

E após 200 anos, em 2018, ele teria sido reconhecido como arquiteto pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo (Sasp).

Benedito Lima de Toledo, professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, destacou em 2012 que Joaquim Pinto de Oliveira soube captar a religiosidade da época e expressá-la de maneira muito pessoal. “Essa expressão da religiosidade”, disse Toledo, na ocasião, “é que o transformou em arquiteto e as suas obras em arte”.

Recentemente em 2019, a história do famoso Tebas foi relembrada com o lançamento do livro “Tebas: Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata”, organizado  pelo jornalista Abilio Ferreira. O próprio, em roteiro pelo centro histórico de São Paulo relata algumas obras de seu livro e apresenta o trabalho de Tebas “in loco” aos curiosos e interessados:

O racismo pode apagar trajetórias de pessoas negras que romperam barreiras e é por isso que o jornalista e organizador do livro ‘Tebas’ teve a ideia de realizar passeios noturnos mostrando as marcas deste grande arquiteto na cidade.

Veja também: Projeto Tebas Facebook


Bibliografia/Fontes:

  • Ferreira,Abilio/Cerqueira,Carlos Gutierrez/Young,Emma/Jacino,Emma/Chiaretti,Maurilio Ribeiro – Tebas: Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata, IDEA-CAU/SP, São Paulo – 2019

 

Updated: 07/06/2020 — 12:26 pm