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Viaduto sob ataque….

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E não é que nossos ilustres vereadores, num acordo político resolveram mexer com um ícone de São Paulo, o viaduto do chá!

Como num passe de mágica e com o apoio de 45 assinaturas de todos os 55 vereadores da casa, endossaram o projeto de Lei  nº  01-00116/2013. Os petistas resolveram não colocar obstáculo,  já que as discussões sobre o projeto no plenário poderiam atrasar o andamento da votação de propostas  e projetos do Executivo.

Em suma este PL estende o nome do Viaduto do Chá para “Viaduto do Chá Mário Covas”. Uma grande movimentação foi articulada pela bancada do PSDB que conquistou o apoio de outras bancadas da situação, como do PSD, do PTB e do PSOL.

Veja aqui o detalhamento do Projeto de Lei

Segundo o historiador da FAU-USP,  Nestor Goulart Reis,  a proposta não tem cabimento. “O que é referência para os paulistanos há mais de um século não pode mudar de nome. As homenagens a políticos deveriam ficar restritas a praças e escolas.”

O assunto não chega a ser novidade pois nos 120 anos de história deste monumento emblemático da cidade, já houveram  outras tentativas de mudar o nome do Viaduto do Chá. Em 1929, ocorreu a sugestão de transformá-lo em Viaduto do Café, dada a importância do produto na economia de São Paulo. Sem sucesso !

Em 2007, o então presidente da Câmara de Vereadores, Antonio Carlos Rodrigues (PR), atualmente senador da República, apresentou um novo projeto de lei para o viaduto, sugerindo o nome do empresário Octávio Frias de Oliveira, do Grupo Folha, morto em 29 de abril de 2007. Também não deu certo e o nome do empresário acabou indo para uma nova obra da cidade que foi a  ponte estaiada, sobre o rio Pinheiros.

O que assusta na nova investida é o apoio quase unanime da bancada de vereadores, e por isto a população precisa se mobilizar.

Com o apoio da PTzada estão querendo Tucanar o velho guerreiro, viaduto do Chá.

Com o apoio da PTzada estão querendo Tucanar o velho guerreiro viaduto do Chá.

Como reafirma Rogério Gentile da Folha, a intenção dos vereadores é a de sempre. Fazer agrados e distribuir homenagens, pouco importando se têm sentido histórico ou se dificultam a vida do cidadão. A frequência com que se muda o nome de logradouros importantes da cidade é impressionante. O túnel Nove de Julho virou Daher Elias Cutait; a ponte do Limão passou a ser chamada de Adhemar Ferreira da Silva; a da Vila Maria, de ponte Jânio Quadros; a avenida Robert Kennedy mudou para Atlântica, a Av. Águas Espraiadas virou Roberto Marinho, e assim por diante.

“Se São Paulo não tomar cuidado, corremos o risco de, algum dia, ver o Ibirapuera virar parque FHC, e a avenida Paulista, avenida Lula da Silva”, diz.

Este absurdo que a Câmara Municipal pode cometer se decidir estender a  nomenclatura do Viaduto do Chá é tão insano que até o líder do PSDB, vereador Floriano Pesaro, além do próprio filho de Covas, Mário Covas Neto, não concordaram com o Projeto de Lei. Ambos até afirmam que até o ex-governador provavelmente seria contra à medida.

O projeto foi apresentado em 21 de março último e para ser aprovado, ainda tem de passar pelas comissões de Constituição e Justiça,  Política Urbana, Educação e Finanças, e vamos torcer que caso passe por tudo isto, ainda possa ser vetado pelo ilustre prefeito.

Quanto ao nome em si, de Mário Covas, segundo a Associação PreservaSP, é o segundo nome do Brasil mais homenageado, perdendo apenas para Antonio Carlos Magalhães e ele já recebeu as seguintes homenagens:

Rodoanel Mario Covas
Hospital Mario Covas (vários)
Parque Mario Covas (Deveria se chamar Parque René Thiollier, pois o local foi a residência oficial deste  importante intelectual das letras, do século passado)
Avenida Mario Covas (várias)
Centro Esportivo Mario Covas
Centro Cultural Mario Covas
Usina Mario Covas
Escola Mario Covas (várias)
Edifício Mario Covas
Campus Mario Covas
Ponte Mario Covas
Aeroporto Mário Covas (Viracopos)

Já está claro existir  um cenário de exageros, nestas “homenagens” !

Esta situação de conchavos políticos não deve ser palco para se reescrever a história de São Paulo, ou tentar passar por cima daquilo que o paulistano já adotou como seu, como parte da história de sua cidade e de sua vida  cotidiana.

Vamos sim fazer com que o Viaduto do Chá tenha seu nome preservado e continue a ser um dos ícones do coração da cidade, e de todos os paulistanos como acontece há mais de 120 anos.

Este blog, além de assinar a petição vigente, também se posicionou junto a  Ouvidoria da Câmara Municipal, conforme pode ver aqui.

Vamos manter nossa pressão sobre esta insanidade assinando a petição:

http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2013N38682

Para aumentar nosso repúdio podemos também colocar nossos manifestos em:

Ouvidoria da Câmara Municipal de São Pauloouvidoria@camara.sp.gov.br

Câmara Municipal de São Paulo
Palácio Anchieta
Viaduto Jacareí, 100 – Bela Vista – São Paulo – SP – CEP 01319-900
Telefone: 3396-4000

Facebook: https://www.facebook.com/camarasaopaulo


Ouvidoria Geral do Município de São PauloOuvidoria@PREFEITURA.SP.GOV.BR

Gabinete do Prefeito: gabinetedoprefeito@prefeitura.sp.gov.br


Vale a pena conferir:

Um aniversariante de 120 anos.

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Seis de Novembro de 2012, o viaduto do chá, completou 120 anos, de grande espectador das transformações e do cotidiano da cidade de São Paulo.

Hipoteticamente, um cidadão bicentenário, que tivesse a obrigatoriedade de circular pelo viaduto do chá nestes anos todos, certamente teria como histórico a contemplação:

  • de grandes plantações de chá e verduras sendo irrigadas pelo rio Anhangabaú e até vacas de leite pelo local,
  • veria depois, a construção de vários sobrados todos iguais no vale do Anhangabaú,
  • veria a grande reforma do viaduto ainda de metal,
  • pagaria um pedágio para circular nele,
  • veria e andaria de bondes nele,
  • e depois contemplaria construção de um novo viaduto ao lado totalmente de concreto,
  • veria a canalização do rio anhangabaú ,
  • veria os belos jardins franceses que substituíram as grandes chácaras,
  • veria os grandes palacetes europeus sendo demolidos para construção de enormes edifícios de vidro, acompanhando então a transição de cidade de estilo europeu para uma cidade contemporânea do novo mundo,
  • veria a substituição destes jardins pelas grandes avenidas de ligação norte-sul da cidade,
  • veria os desfiles da comemoração do 4º centenário da cidade ,
  • veria os desfiles do Jogos Pan-americanos de 1963,
  • veria vários suicidas se jogando do viaduto para o fundo do vale,
  • veria desfiles militares e de carnaval ,
  • veria inúmeras obras para aterrar o fluxo viário,
  • veria vários protestos da população,
  • veria vários shows e comemorações,
  • veria algumas enchentes e acidentes,
  • veria o esvaziamento da região para outras áreas da cidade em crescimento,
  • veria o apogeu e queda das lojas Mappin,
  • veria a construção e inúmeras reformas do teatro Municipal,
  • veria a construção e inauguração do edifício Alexandre Mackenzie, que se tornaria sede brasileira da São Paulo Light & Power, que depois se tornaria apenas Light e viraria Eletropaulo, atualmente Shopping Light,
  • ouviria falar da linha de metrô que a Light construiria sob o viaduto em 1927,
  • veria várias apresentações de artistas populares,
  • veria vários grupos de hippies vendendo suas bugigangas em suas calçadas, nos anos 60/70
  • veria inúmeras sessões de filmagens e de peças publicitárias,
  • e muito mais…..

Com isto o viaduto do Chá é um testemunho da história e das transformações que a área central da cidade sofreu nestes 120 anos. Inaugurado no dia 6 de novembro de 1892, um dos principais cartões postais de São Paulo levou 30 meses para ser montado. O objetivo era construir uma passagem sobre o Morro do Chá, como era conhecida a área da chácara da baronesa de Tatuí onde existia essas plantações, e foi uma proposta do litógrafo Jules Martin.

Antes da construção do viaduto, para ir da hoje Rua Líbero Badaró para a hoje praça Ramos de Azevedo (Teatro Municipa)l era preciso descer uma encosta, atravessar uma tal de ponte do Lorena sobre o rio Anhangabaú e subir a Ladeira do Paredão, atual Rua Xavier de Toledo.

Na rua Líbero Badaró existia a chácara e a casa da Baronesa de Tatuí, que se opunha ferozmente à construção do viaduto. Onde hoje se encontra o Teatro Municipal era uma serraria do alemão Gustavo Sydow fazendo vizinhança com a chácara do Barão de Itapetininga, margeada pelas ruas Formosa, 24 de maio e D. José de Barros.

O panorama do vale sob o viaduto próximo a data de inauguração, mostrando as chácaras de chá e verduras. No lado esquerdo as terras do Barão de Tatui e as da direita o inicio das terras do Barão de Itapetininga (e depois da Baronesa de Itú)

No dia de sua inauguração, vários pessoas se aglomeravam no centro de São Paulo, ansiosos para assistir à grande inauguração do Viaduto do Chá. Com as ruas laterais enfeitadas de flores, bandeiras e uma iluminação especial, o Presidente do Estado como era a hierarquia política na época, Bernardino de Campos, juntou-se a população e aos funcionários da administração paulistana, a outras autoridades, e do clero para cortar a fita verde e amarela e triunfalmente atravessar o viaduto.

Ilustração da inauguração do primeiro viaduto em 1892.

No dia seguinte a inauguração, conforme acertado, passou-se a cobrar três vinténs (60 réis) para a passagem de cada pedestre. O pedágio tinha validade por quatro anos, quando sob protestos da população, uma decisão da Câmara Municipal pagou à construtora um alto valor para cessar a cobrança.

O bucólico cenário em 1895, na esquina do viaduto com a atual rua Cel. Xavier de Toledo, onde hoje se localiza do shopping Light.

A história do viaduto inicia-se com o francês Jules Martin, morador da capital, que teve a ideia de construir uma ligação direta entre a Rua Direita e a Rua Barão de Itapetininga por sobre o vale do Anhangabaú . Na vitrine de um ateliê, na Rua da Constituição, os paulistanos tomaram contato com o primeiro projeto do Viaduto do Chá. A ideia agradou tanto que em 1877 mereceu uma notícia na Província de S. Paulo (atual O Estado de São Paulo).

“Está nas vidraças do Sr. Jules Martin um belo quadro representando o que pode ser o viaduto de que por vezes se tem falado entre nós como o meio plausível de ligar a rua Direita, isto é, o centro da cidade, ao novo bairro do morro do Chá”, dizia o artigo do jornal

O projeto apresentado por ele em 1877 aos órgãos municipais, teve boa recepção entre a população, mas sofreu grande oposição do Barão de Tatuí, pois sua família morava num grande sobrado na atual rua Líbero Badaró, bem na entrada do Viaduto do Chá (onde hoje está a Praça do Patriarca e o Edifício Conde Prates). A questão foi levada a juízo, e a conclusão foi pela desapropriação do imóvel, para poder viabilizar a obra. O barão resistiu e disse que não saíria do local. Os moradores que queriam a obra, cansados de esperar o desfecho da situação, se armaram de picaretas e outras ferramentas e destruíram uma das paredes do sobrado do barão. Então ele se mudou e as obras finalmente prosseguiram.

Martin organizou uma empresa, a “Companhia Paulista do Viaducto do Chá” para a execução da obra e encomendou da Alemanha a armação metálica do viaduto. O viaduto tinha 240 metros de comprimento, dos quais 180 eram a estrutura metálica importada, além de 14 metros de largura. As obras começaram em 1888, e a polêmica demolição da casa do barão de Tatui aconteceu em 1889.

Entre a inauguração e esboço original do projeto, passaram-se 15 anos. O nome “Viaducto do Chá” foi dado em função da grande plantação de chá da Índia que havia em todo o Vale sobre o qual foi construído o viaduto, ou porque havia a presença de mascates que vendiam chá na região antes mesmo do viaduto ser idealizado.

O viaduto em 1926, com os belos jardins no vale que substituíram as chácaras. Nesta ocasião o viaduto já tinha pesado tráfego de bondes e pessoas, o que motivou a construção de uma nova estrutura.

Junto com o viaduto veio também a construção de portões e guaritas de madeira em suas duas extremidades, onde então era cobrado polêmico pedágio de três vinténs pela passagem pela empresa responsável pelo viaduto. Por conta disto o viaduto ganhou também o apelido ‘viaduto de três vinténs’. Certamente este pedágio logo se tornou alvo de críticas e protestos e foi revogado pela Prefeitura após os acordos da Câmara Municipal.

Imagens da primeira reforma do viaduto para reforço estrutural, para permitir a circulação de bondes. No detalhe algumas moradias de trabalhadores cercando o vale de plantações ((Foto: Acervo Fundação Energia e Saneamento).

Mas o crescimento da cidade e a grande circulação de pessoas e veículos fizeram a estrutura de metal do Viaduto a sentir os efeitos das pesadas cargas, e iniciou-se um debate para uma possível reforma de reforço.

A solução foi acordada em 1938 e consistia em construir uma nova estrutura no lugar da anterior, duas vezes mais larga e de cimento armado. As obras começaram no mesmo ano, e diferentemente do ato da inauguração, a demolição da antiga estrutura para dar lugar à nova não teve nenhum evento festivo de grande concentração de pessoas e autoridades, ou seja sem nenhum holofote de destaque.

Detalhe da construção do novo viaduto em cimento armado (anos 30).

Num raro momento, os dois viadutos juntos: no lado esquerdo o novo viaduto de concreto armado e na direita o antigo viaduto prestes a ser demolido. Ao fundo e a direita a construção do Edifício Matarazzo, hoje sede da Prefeitura Municipal. E ao fundo a esquerda o palacete Conde Prates, demolido depois para a construção do edifício contemporâneo de mesmo nome.

O anuncio do Estadão sobre a entrega do novo viaduto do chá em 1938.

Uma cena de 1948, o viaduto, sobre as avenidas do vale do Anhangabaú e o Edifício Alexandre Mackenzie totalmente concluído.

Atualmente, o viaduto serve de ligação às ruas Barão de Itapetininga e Direita, ou entre as Praças Ramos de Azevedo e a Praça do Patriarca, por onde passam diversas linhas de ônibus, além de milhares de pedestres diariamente. Por estar em sua margen a atual sede da Prefeitura (O Edifício Matarazzo) é comum a ocorrência de manifestações e protestos das mais variadas motivações.

Tumulo de Jules Martin, o projetista do viaduto do chá, no cemitério-museu da Consolação.

Além de tudo que acontece na região, com o viaduto sendo o protagonista central, dos 27 endereços paulistanos mais requisitados para filmes, novelas e comerciais, 15 ficam nos distritos Sé e República.

E certamente o Viaduto do Chá é o primeiro deles, empatado com a vibrante Avenida Paulista. Em segundo lugar nada mais, nada menos, que o próprio Vale do Anhangabaú, logo abaixo do viaduto, vindo em terceiro não distante dali a Praça da Sé.

O viaduto e parte do Vale do Anhangabaú, num belo ensaio de Carlos Augusto Magalhães em 2008.

Aos 120 anos, o primeiro viaduto de São Paulo, continua sendo além de um dos pontos turísticos mais requisitados, um local vibrante e partícipe de grandes histórias.

O Viaduto do Chá e o Vale do Anhangabaú em 2010: fluxo viário subterrâneo, e a volta dos jardins e espaços para eventos. O viaduto é o camarote de contemplação de tudo isto.(Foto: Miguel Schincariol)

Parabéns pelo aniversário……


VEJA O SLIDESHOW CRONOLÓGICO


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