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Salto para um brilho maior…

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Em estágio final de construção, fonte de luz síncrotron de última geração pode elevar a qualidade da pesquisa brasileira

Eram quase 6 da tarde da quinta-feira, 17 de maio, quando o engenheiro eletricista Sergio Marques aproveitou para esticar as pernas e buscar energia em mais uma xícara de café. Em seguida, ele retomaria as medições que sua equipe vinha fazendo desde o início da semana, às vezes por 24 horas a fio, com o grupo da física brasileira Liu Lin.

Marques e Liu são pesquisadores do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas, interior de São Paulo, e testavam os componentes de um acelerador linear de elétrons comprado por US$ 6 milhões do Instituto de Física Aplicada de Xangai, na China. Instalado nas semanas anteriores em um túnel de 32 metros blindado com paredes de concreto, o aparelho impulsiona a cada meio segundo pacotes microscópicos de trilhões dessas partículas de carga elétrica negativa a velocidades próximas à da luz.

Ele alimentará o maior, mais complexo e versátil instrumento de pesquisa já construído no país: o Sirius, uma fonte de última geração produtora de radiação síncrotron, um tipo especial de luz que permite investigar a estrutura da matéria na escala dos átomos e das moléculas.

O Sirius está em construção desde 2014 no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), a 15 quilômetros de Campinas, e deve estar pronto para um teste inicial até o final deste ano, caso as verbas solicitadas meses atrás ao governo federal e por ele aprovadas sejam liberadas logo. A nova fonte de luz síncrotron é um acelerador de partículas composto de três partes, montado em um edifício de 68 mil metros quadrados que deve permanecer o mais isolado possível de alterações de temperatura e vibrações do exterior – até das geradas pelo tráfego de caminhões da rodovia que liga Campinas a Mogi–Mirim e passa a 2 quilômetros dali.

Projetado pelas equipes do LNLS, o Sirius substituirá o UVX, a primeira fonte de luz síncrotron do hemisfério Sul, construída nos anos 1990 e hoje não mais competitiva. Cerca de 90% de suas peças foram desenvolvidas nas oficinas do LNLS ou desenhadas ali e produzidas por empresas brasileiras de alta tecnologia.

O acelerador linear é exceção. “Por questão de prazo, encomendamos uma máquina com especificações de altíssimo nível para os pesquisadores que haviam concluído em Xangai uma fonte de luz de terceira geração, uma anterior à do Sirius, e nos ofereceram informações sobre quase todas as partes do acelerador”, explica Marques, que começou a trabalhar no UVX em 1997, aos 16 anos, e lidera o grupo de diagnóstico do LNLS, que monitora o feixe de elétrons e a qualidade da luz síncrotron que chega às estações experimentais.

Quando estiver em plena atividade, o Sirius será, ainda que por um tempo limitado, a fonte de luz síncrotron mais avançada do mundo e também a com maior brilho na faixa dos raios X em sua classe de energia. De modo simplificado, isso significa que o acelerador permitirá extrair dos elétrons viajando a quase 300 milquilômetros por segundo feixes muito concentrados de uma luz que penetra profundamente até em materiais densos, como rochas, e permite produzir imagens nítidas de pontos distantes entre si poucos nanômetros (milionésimos do milímetro).

Seu brilho intenso deve diminuir de horas para segundos o tempo para obter as imagens das amostras, algo importante no estudo de materiais biológicos, que se degradam rapidamente. A redução do tempo para produzir cada imagem deve permitir obter um número maior delas por segundo e reconstituir o movimento de fenômenos muito rápidos do mundo dos átomos e das moléculas, como a interação entre dois compostos ou a movimentação de íons na carga e descarga de baterias.

O poder de resolução do Sirius será superior ao das fontes de luz síncrotron de terceira geração, como a máquina atual do European Synchrotron Radiation Facility (ESRF), na França, onde a pesquisadora israelense Ada Yonath realizou parte dos experimentos que definiram a estrutura tridimensional do ribossomo, organela produtora de proteínas nas células, e lhe renderam o Nobel de Química de 2009.

As imagens do Sirius também deverão alcançar resolução mil vezes superior à do UVX, uma fonte de segunda geração que, mesmo defasada, permitiu à equipe do físico Glaucius Oliva, professor da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, identificar a estrutura tridimensional da proteína NS5, essencial para a reprodução do vírus zika (ver Pesquisa FAPESP nº 254).

Com a nova máquina de Campinas, espera-se ir além e identificar a estrutura tridimensional de proteínas maiores e mais complexas, de interesse da biologia e da indústria de fármacos, além de estudar materiais de interesse da indústria (ver infográfico na página ao lado).

“O Sirius está muito próximo do limite daquilo que a engenharia permite construir e será capaz de produzir ciência competitiva internacionalmente por, ao menos, uma década”, afirma o físico Antônio José Roque da Silva, diretor do LNLS e do projeto do Sirius. Professor da USP e especialista em modelagem matemática de materiais na escala atômica, José Roque chegou ao LNLS em 2009 com duas missões: aprimorar o UVX, que, envelhecido, começava a perder usuários e especialistas para instituições no exterior, e levar adiante o projeto de construir seu substituto – o nome Sirius surgiria mais tarde, emprestado da estrela mais brilhante do céu noturno.

De início, José Roque buscou a ajuda de dois antigos colaboradores do LNLS: o engenheiro civil Antonio Ricardo Droher Rodrigues, um dos três brasileiros que lideraram a construção do UVX de 1987 a 1997, e do físico francês Yves Petroff, que dirigiu laboratórios de luz síncrotron na França e participou do projeto da primeira fonte brasileira.

“O UVX não tinha mais capacidade de competir e optamos por aprimorar nichos nos quais poderíamos produzir trabalhos relevantes, com o uso de radiação infravermelha e ultravioleta”, conta José Roque. Ao mesmo tempo, o trio aperfeiçoou o projeto de uma fonte de terceira geração elaborado pela equipe do físico José Antônio Brum, que dirigiu a Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron (ABTLuS), atual CNPEM, de 2001 a 2009. Três anos mais tarde, com um projeto maduro em mãos, José Roque e sua equipe o submeteram a um comitê científico internacional.

No relatório final, os membros do comitê afirmaram que o desenho da nova fonte era excelente para os padrões da época, mas recomendaram que se buscasse o nível de brilho que vigoraria no futuro. “Não havia máquina com as características sugeridas por eles em funcionamento no mundo”, lembrou José Roque na manhã de 17 de maio, em sua sala no LNLS. “Era a chance de sairmos e nos mantermos por um período à frente dos Estados Unidos, do Japão e de países da Europa.”

As equipes do LNLS voltaram à mesa de projetos e retomaram os testes de equipamentos. Responsável pela física de aceleradores no LNLS, Liu Lin e seu grupo redesenharam a rede magnética do Sirius para que o seu brilho superasse o das máquinas existentes. Seis meses depois, o comitê aprovou o novo projeto, orçado em US$ 585 milhões (na época, R$ 1,3 bilhão). Obter financiamento estável era fundamental, mas só parte do problema. “Tivemos de conseguir o terreno para a construção e definir as características do prédio enquanto redesenhávamos a máquina e buscávamos saída para questões tecnológicas”, contou José Roque. “Houve momentos em que equilibramos 20 pratos no ar.”

Os primeiros R$ 9 milhões para o pré-projeto foram desembolsados em 2009 e 2010 pelo então Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) a gestão (2005-2010) do físico Sergio Rezende, que conhecera o projeto de Brum em 2008. Mas faltava uma fonte definida dos recursos, que, em um primeiro momento, seriam providos pelo MCT (atual MCTIC, depois de incorporar Inovações e Telecomunicações), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e por agências de fomento.

Outros dois ocupantes se sucederam à frente do ministério e repassaram R$ 77 milhões ao projeto até que, em 2014, o engenheiro Clélio Campolina Diniz deu luz verde para o início das obras civis e propôs um orçamento de R$ 240 milhões para 2015. No ano seguinte, o Sirius foi incluído na segunda edição do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e hoje é uma das obras do Programa Avançar.

A oscilação do dólar, a inflação e os aprimoramentos na fonte de luz e no prédio elevaram o valor do Sirius para R$ 1,8 bilhão. “É o único projeto brasileiro de tais dimensões sem atrasos importantes”, afirma o engenheiro eletrônico e físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, presidente do Conselho Administrativo do CNPEM, organização social vinculada ao MCTIC, gestora do LNLS.

Pedro Wongtschowski, engenheiro químico que presidiu o Conselho Administrativo do CNPEM de 2010 a 2015, atribui o cumprimento do cronograma e a pouca alteração de valores à adoção de um modelo de governança usado em projetos de grande porte pelo setor privado. “A execução só começou depois de concluído um projeto executivo detalhado; a contratação de obras ocorreu mediante licitação cuidadosa e foram adquiridos primeiro os equipamentos que exigiam prazo maior para serem entregues”, lembra. “Também se aproveitou a implantação do Sirius para desenvolver componentes com fornecedores nacionais, etapa que contou com o apoio da FAPESP”, conta Wongtschowski, atual presidente do Conselho Administrativo do grupo Ultrapar Participações e membro do Conselho Superior da FAPESP.

Do custo total previsto, R$ 1,16 bilhão já foi repassado pelo MCTIC, sendo R$ 760 milhões na gestão de Gilberto Kassab, conta Cerqueira Leite, que teve atuação fundamental nos anos 1980 na implantação do UVX. Para Cerqueira Leite, o Sirius só sobreviveu à retração econômica recente porque, aos poucos, o projeto conseguiu envolver, além dos seus idealizadores e da comunidade científica, “autoridades e políticos de Brasília”.

É uma conclusão semelhante à que chegaram anos atrás dois pesquisadores que analisaram o processo de criação e implantação do UVX. Léa Velho, professora do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Osvaldo Frota Pessoa Junior, professor do Departamento de Filosofia da USP, avaliaram os argumentos que motivaram a construção do primeiro síncrotron brasileiro e as negociações que permitiram tirá-lo do papel. Em um artigo de 1998 na revista Social Studies of Science, afirmaram que o apoio ao projeto veio mais de setores da política científica do que dos pesquisadores e potenciais usuários. Escreveram ainda que a habilidade política dos poucos cientistas envolvidos fora crucial para a sua implementação.

“O Sirius representa uma tentativa de promover um novo salto de qualidade na ciência nacional”, analisa o físico argentino Aldo Craievich, que, aos 79 anos e aposentado da USP, ainda faz pesquisa usando o UVX. Com o físico Cylon Gonçalves da Silva e Ricardo Rodrigues, Craievich compôs o trio que coordenou a construção do primeiro síncrotron nacional.

O projeto de instalar no país um equipamento para fazer ciência em grande escala – a Big Science, iniciada nos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial com o projeto da bomba nuclear – nasceu no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no início dos anos 1980 com o físico Roberto Leal Lobo e Silva Filho. Apoiado por Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, então presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Lobo conduziu o projeto até o início do governo democrático, em 1985. Com a criação do MCT, foi substituído por Cylon, que tinha suporte do ministro Renato Archer.

“Quando se decidiu pela construção da primeira fonte de luz síncrotron, o único modelo de funcionamento que fazia sentido era o de um laboratório nacional nos moldes norte-americanos, aberto a usuários de instituições de pesquisa e de empresas do país e do exterior”, conta Cylon. “A construção da máquina era mera desculpa para formar pessoas qualificadas para gerar tecnologia no país e capazes de produzir ciência na fronteira do conhecimento. Acertamos ao optar por projetar e construir o máximo em casa, o que gerou a expertise usada no Sirius.”

Construir equipamentos para fazer ciência em larga escala demanda fluxo contínuo de verbas, competência técnica e científica e, quase sempre, gera disputas. Foi assim com o UVX e, em uma escala menor, com o Sirius. Logo após aprovado o projeto da primeira fonte nacional de luz síncrotron, a direção da Sociedade Brasileira de Física publicou um manifesto contrário ao projeto. Afirmava que não havia no país competência técnica para construí-lo, que não existiriam usuários e que drenaria os recursos de outras áreas da ciência e tecnologia.

“Nenhuma dessas previsões se concretizou”, recorda Rodrigues, coordenador de aceleradores do Sirius. “Construímos a máquina, os usuários vieram, hoje são 6,2 mil cadastrados, e o nível de financiamento aumentou em todas as áreas”.

“Instalações de grande porte como o Sirius são caras em qualquer lugar do mundo, mas se pagam com o tempo”, afirma Fernanda De Negri, economista do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea). Seu custo representa 0,05% do orçamento público brasileiro (a receita do governo), da ordem de R$ 3,5 trilhões. “Em muitas áreas, infraestruturas como essa são necessárias para se produzir ciência de qualidade, capaz de gerar inovação e tornar o país economicamente mais competitivo”, diz a pesquisadora, que lançou em junho o livro Novos caminhos para a inovação no Brasil (Editora Wilson Center), no qual menciona o Sirius como um raro exemplo no país de planejamento científico de longo prazo.

A entrevista do físico Roque da Silva feita pela youtuber Alexandra Makowski sobre o novo acelerador
“Desde o projeto da bomba atômica e a missão Apollo, a ciência deixou de ser feita só com pequenos investimentos e visão de curto prazo”, observa Glauco Arbix, professor do Departamento de Sociologia da USP. “É preciso ter visão de médio e de longo prazos e irrigar o sistema de modo a alimentar laboratórios menores e a criar projetos de relevância científica, econômica e social, capazes de elevar o patamar da ciência brasileira e aumentar seu impacto”, defende Arbix, que presidiu de 2011 a 2015 a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o órgão de fomento de inovação federal. “Sem isso, o país continuará patinando”.

E mais, a Sirius competirá com um equipamento de quarta geração inaugurado em 2016 na Suécia e outro planejado para funcionar a partir de 2020 na França – Veja aqui:


Bibliografia/Fontes:

  • Ricardo Zorzetto/Pesquisa FAPESP
  • Velho, l. e PessoaJR., o. The decision-making process in the construction of the synchrotron light National laboratory in Brazil.Social Studies of Science.v. 28, n. 2, p. 195-219. abr. 1998
  • Imagens de Léo Ramos Chaves, de Campinas, SP
  • Agradecimentos a Paula Iliadis, Pesquisa FAPESP

 
 

Chernobyl: sarcófagos, fauna e turistas…

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Já se vão mais de 32 anos desde a explosão do reator 4 da Usina de Chernobyl, na Ucrania. Os cenários fantasmagóricos continuam na região e muitos trabalhos e pesquisas foram e tem sido realizados para verificar os impactos do desastre nestes anos e o que se reserva para o futuro.

Claro que numa primeira ação foi necessário correr contra o tempo para estancar a sangria radioativa e neste particular investiu-se em sarcófagos gigantes de contenção.

Um gigantesco sarcófago:

O quarto maior reator da usina nuclear ucraniana de Chernobil, causador da maior catástrofe atômica da história em 1986, deixou de ser uma ameaça pelos próximos cem anos, já que em 2016 recebeu um sarcófago novo, gigantesco e confiável. Apesar disto espera-se que a monitoração continue, principalmente próximo ao vencimento deste prazo.

Numa incrível façanha de engenharia, a gigantesca estrutura que foi financiada pelo Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, o reator foi inteiramente coberto.

A estrutura em forma de arco, com 110 metros de largura, 150 de altura e 256 de comprimento com um peso de mais de 30.000 toneladas, foi erguida a 180 metros do reator danificado, que era protegida por um primeiro sarcófago de concreto, instalado imediatamente após o acidente nuclear em 1986.

Este novo sarcófago, construído pelo consórcio francês Novarka custou aproximadamente 1,5 milhão de euros e foi instalado sobre o reator através de um exclusivo e engenhoso sistema ferroviário.

O novo sarcófago possui guindastes movidos a controle remoto, que, ajudarão a remover o teto do antigo, que, segundo a monitoração, está em mau estado e corre o risco de desabar.

Essa é a maior estrutura móvel já construída pela humanidade”, disse o então Presidente da Ucrânia, Petró Poroshenko, na cerimônia para comemorar a instalação do novo sarcófago.

O chefe de Estado destacou que “uma coalizão de 28 países ofereceu suporte à Ucrânia no projeto, fornecendo pouco mais de 1,4 milhão de euros para a construção”. Exclamava Poroshenko na ocasião “todo o mundo pode ver o que a Ucrânia e o mundo puderam fazer quando unidos, e como podemos defender o mundo da ameaça nuclear.” “Tivemos que construir o novo sarcófago em condições de guerra, enquanto nos defendíamos da Rússia.”, destacava o chefe de Estado.


Só para relembrar, o pior acidente nuclear da história, Chernobyl, ocorreu a 120 quilômetros de Kiev, liberando 50 milhões de curies de radiação por vastas áreas do país, da Bielorrússia e da Rússia. Uma “zona de exclusão”, criada ao redor da central danificada, foi evacuada por mais de 135.000 pessoas após o acidente, das cidades de Pripyat, (50.000 habitantes), Chernobyl, (12.000) e de várias outras localidades nas proximidades da usina.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, esta radiação afetou mais de 5 milhões de pessoas, principalmente na Rússia, Ucrânia e Bielorrússia. Mais de 600.000 pessoas participaram do trabalho de lidar com a catástrofe e suas consequências. Em apenas 206 dias, um total de 90.000 homens construíram, em meio a condições adversas, perigosas, um cubo com 400.000 metros cúbicos de concreto e 7.000 toneladas de estrutura metálica do reator danificado, que agora está coberto por este novo sarcófago.

Fauna e Flora:

Quem tem analisado a flora e fauna das regiões afetadas tem sido o biologista Timothy Mousseau que tem estudando os efeitos duradouros da radiação sobre a flora e fauna de Chernobyl.
Em 2014 numa apresentação in-loco o som de clique do detector de radiação de Timothy Mousseau aumentava lentamente enquanto caminhava pela floresta situada a algumas milhas a oeste da usina nuclear.

Quando ele parou para examinar uma teia de aranha em um galho de árvore, o visor do dispositivo mostrou 25 microsieverts por hora, que Dr. Mousseau afirmara ser típico esta medição, para aquela área não muito longe do Novoshepelychi, uma das centenas de aldeias que foram abandonados depois de precipitações radioativas provenientes da explosão do reator 1986 e que tornou a região inabitável.

Os níveis de radioatividade aqui estão muito abaixo daqueles que ainda são encontrados em partes do sarcófago que cobre o reator destruído, antes do novo arco (2º sarcófago) cobrí-lo.

Mas os níveis nesta clareira que ele analisa (veja no vídeo), onde acácias e pinheiros escoceses são intercaladas com alguma vegetação ocasional, tem medições mais elevados do que o normal. Em 10 dias aqui uma pessoa estaria exposta a tanta radiação de fundo como habitante típico dos Estados Unidos receberia de todas as fontes em um ano. Isso faz com que seja de zona proibida, exceto para incursões curtas, pois é um bom lugar para estudar os efeitos a longo prazo das radiações sobre os organismos, afirmara.

“Esse nível de exposição crônica está acima do que a maioria das espécies vai tolerar sem mostrar alguns sinais, quer em termos de quanto tempo eles vivem ou do número de tumores que têm, ou mutações genéticas e catarata”, dissera Mousseau. “É um ambiente de laboratório perfeito para nós.”

Dr. Mousseau, um biólogo da Universidade da Carolina do Sul, tem vindo a área contaminada em torno de Chernobyl, conhecida como a zona de exclusão, desde 1999. A lista de criaturas que estudou é longa: várias aves, vários insetos, incluindo zangões, borboletas e cigarras; aranhas e morcegos e ratos, ratazanas e outros roedores pequenos. Ele também realizou uma pesquisa semelhante em Fukushima, no Japão, depois que ocorreram vazamentos por lá também.

Em dezenas de documentos ao longo dos anos Dr. Mousseau, seu colaborador de longa data, Anders Pape Moller, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, e colegas relataram evidências do pedágio de radiação: maior frequência de tumores e anomalias físicas como bicos deformadas entre aves comparadas com as zonas de não contaminação, por exemplo, e um declínio nas populações de insetos e aranhas com o aumento da intensidade da radiação.

Mas em suas descobertas mais recentes, mostrou algo novo. Algumas espécies de aves, relatadas na revista Ecologia Funcional, parecem ter se adaptado ao ambiente radioativo através da produção de níveis mais altos de antioxidantes protetores, com danos menores correspondentemente. Para estas aves, o Dr. Mousseau, acredita que a exposição crônica à radiação parece ser uma espécie de “Unnatural Selection” a conduzir uma mudança evolutiva.

A radiação ionizante, como o produzido por césio, estrôncio e outros isótopos radioactivos, afeta o tecido vivo de várias maneiras, entre as quais, quebra de cadeias de DNA. Uma dose alta o suficiente, muito milhares de vezes superiores aos níveis da floresta, claramente causaram doença ou morte. Isso é o que aconteceu com várias dezenas de técnicos e bombeiros na usina de Chernobyl, quando o reator explodiu em 26 de abril de 1986. Eles foram expostos a doses letais, em muitos casos, em apenas alguns minutos, e os seus órgãos e tecidos foram tão danificados que eles morreram dentro de algumas semanas.

Alguns pesquisadores contudo, têm desafiado os estudos de Dr. Mousseau e seus colaboradores, argumentando que é difícil demonstrar que os níveis de radiação na zona de exclusão, que abrange cerca de 1.000 milhas quadradas, tiveram muito efeito perceptível. Houve também relatos de populações abundantes de alguns animais na zona, o que sugere que a falta de atividade humana tem levado para a estas áreas tornarem-se um refúgio para a fauna.

Dr. Mousseau descarta contudo, a ideia de que a zona seja algum tipo de Éden pós-apocalíptico. Mas deu uma pausa em suas recentes argumentações, porque concluiu que por algumas adaptações tem permitido que criaturas prosperem na zona.

As descobertas também sugerem que em alguns casos os níveis de radiação pode ter tido um efeito inverso, ou seja, pássaros em áreas com maior exposição à radiação podem apresentar uma maior adaptação, e, portanto, menos danos genéticos, do que aqueles em áreas com níveis de radiação mais baixas.

Mas tendo como base todos os estudos do Dr. Mousseau e seus colegas, a zona de exclusão de Chernobyl tornou-se um laboratório do mundo real. “A natureza é um ambiente muito mais estressante do que o laboratório”, afirmara. Anomalias e outros efeitos da radiação são vistos em níveis de radiação muito menor do que em estudos baseados em laboratório, dissera. Os níveis de radiação na zona de exclusão também variam consideravelmente de lugar para lugar, porque os padrões climáticos durante o acidente e suas conseqüências afetaram a intensidade da precipitação e outras manifestações climáticas.

Em outros estudos o local do desastre nuclear, tem se tornado um improvável local de desova para lobos e outros animais selvagens. De acordo com um estudo recente no European Journal of Wildlife Research (relatado por Livescience), alguns dos lobos cinzentos nascidos em Chernobyl estão se aventurando fora da zona de exclusão, talvez carregando partículas de mutações genéticas com eles.

A população de lobos cinzentos é grande nas áreas afetadas.

Enquanto alguns estudos descobriram que a fauna local na zona sofria de efeitos nocivos, outros descobriram que a zona do desastre se transformou em uma reserva natural improvável, que permitiu que os lobos cinzentos florescessem. De acordo com o autor do estudo, Michael Byrne, um ecologista da vida selvagem da Universidade do Missouri em Columbia, a densidade populacional de lobos cinzentos em torno de Chernobyl é até sete vezes maior do que nas reservas vizinhas. E agora, alguns lobos começaram a se aventurar fora da zona do desastre. Pesquisadores rastrearam um lobo jovem que viajou cerca de 186 milhas fora da zona de exclusão ao longo de 21 dias.

A jornada deste lobo é prova de que Chernobyl pode ser mais útil do que apenas um “buraco negro ecológico”. De fato, “a zona de exclusão de Chernobyl pode realmente agir como uma fonte de vida selvagem para ajudar outras populações da região. E essas descobertas podem não se aplicar apenas aos lobos – é razoável supor que coisas semelhantes estão acontecendo com outros animais também ”, disse Byrne à Livescience. Quando saber se os lobos podem estar transportando mutações radioativas com eles? “Não temos evidências para sustentar que isso está acontecendo”, disse Byrne. “É uma área interessante de pesquisas futuras.”

Mas não só lobos voltaram a zona de exclusão. Varias outras espécies também estão vivendo lá. Veja:

Com relação a flora ainda se descobriu que a alta radioatividade em torno da usina, matou os fungos do local. Cientistas descobriram que árvores e folhas que morrem por lá ficam intactas sem se decompor. O material orgânico das regiões contaminadas tem índice de decomposição 40% inferior. Por isto, a hipótese é que as radiações tenham afetado as populações de fungos, micróbios e insetos que se alimentam de matéria orgânica morta. Há árvores que estão mortas há 15 anos, mas ainda não começaram a apodrecer.

O comportamento da fauna e da flora se tornaram um imenso laboratório real para aprendizado dos efeitos da catástrofe.

Turistas e Energia Solar:

Os cenários criados pela catástrofe, deixaram grandes lições e incrível é que a reboque de tudo isso, criou um destino turístico. Depois de três décadas da tragédia, milhares de viajantes estão visitando anualmente a cidade de Pripyat, cidade fantasma onde viviam, junto com suas famílias, cientistas e operários que trabalhavam em Chernobyl.

Após a explosão de um dos reatores da usina, que deu início a propagação de material radioativo por toda a região, os quase 50 mil habitantes de Pripyat, que fica a três quilômetros do local do acidente, foram evacuados. Deixaram para trás prédios residenciais, um hotel, escolas, restaurantes, um hospital e centros esportivos que hoje, com seu aspecto fantasmagórico, atraem curiosos do mundo inteiro. No centro de tudo isso, um triste parque de diversões ainda exibe uma roda-gigante projetada para fazer a alegria das crianças locais, que hoje trás profundas reflexões sobre o que aconteceu com a crianças que alí se divertiam.

Os visitantes chegam a bordo de tours guiados vindos principalmente da cidade ucraniana de Kiev, a 150 quilômetros de distância. Os passeios exploram Pripyat, através do ingresso nas antigas salas de aula, ginásios esportivos e apartamentos da cidade. Em muitos dos lugares, ainda é possível ver sinais de um local que foi abandonado às pressas, com objetos pessoais jogados pelo chão e até máscaras respiratórias espalhadas no interior dos prédios do local.

Os ambientes certamente se deterioraram desde a evacuação e encontram-se completamente abandonados como em um antigo ginásio esportivo onde uma tabela de basquete aparece sobre uma parede cinza e descascada. Não muito longe, uma piscina vazia é iluminada através de janelas enferrujadas e quebradas. Em algumas casas, é possível ver objetos pessoais de seus antigos moradores, como quadros e bonecas. E, em uma antiga maternidade, surgem camas enferrujadas em uma visão que inspira tristeza.

Mas um dos locais mais visitados e fotografados, é o parque de diversões, onde além de sua roda-gigante, o lugar exibe um pista com carrinhos de bate-bate completamente aos pedaços, enferrujados. Apesar do cenário pós-apocalíptico e perigoso alguns dos passeios chegam bem perto do reator 4, causador da explosão, cuja área destruída se encontra hoje envolta por estruturas conhecidas como “sarcófagos”.

É claro que visitar um lugar devastado como este desperta inúmeras emoções, embora tanto em Chernobyl como em Pripyat possam ser considerados passeios bem educativos, apesar de tristes quando se projeta como a vida deveria ser feliz por lá.

A visita a Pripyat só são realizadas por agências autorizadas para conduzir o passeio. A visita, porém, não pode ser caracterizadas como livre de riscos, pois estudos desenvolvidos na época da tragédia avaliaram que Chernobyl e arredores estarão contaminados e por tanto condenáveis, por níveis de radiação perigosos para seres humanos pelos próximos 24 mil anos, motivo pelo qual a usina e a cidade de Pripyat estão dentro de uma crítica zona de exclusão cujos acessos são controladas por forças de segurança da Ucrânia.

Claro que com esta situação, os próprios guias turísticos carregam, durante as visitas, contadores Geiger, instrumentos que medem níveis de radiação e mostram se os locais visitados em Pripyat estão mais seguros para serem explorados.

Toda esta criticidade e perigo, parece não amedrontar legiões de turistas. Uma organização governamental que tem controle sobre a zona de exclusão, estima que mais de 16 mil turistas de 84 países estiveram em Chernobyl e arredores só em 2015. O turismo macabro continua a atrair muitos viajantes.

Se você leitor quiser visitar o local basta acessar o TourKiev

Não só de turistas, mas um projeto ucraniano-alemão, o Solar Chernobyl está sendo preparado para ser erguido como uma “fazenda Solar” bem ao lado dos reatores de Chernobyl. Planejado para entrar em operação em 2018, a instalação de deverá ter um megawatt em 3.800 painéis fotovoltaicos, capaz de alimentar até 2.000 residências. Outros 99 megawatts estão sendo planejados para um desenvolvimento futuro, e o projeto, que até agora tem um custo de um milhão de euros para ser construído, deverá se pagar dentro dos próximos sete anos.

A Ucrânia possui atualmente 12 usinas nucleares ativas, mas não é um país estranho para a energia solar. A fazenda Solar Chernobyl não é a primeira fazenda solar do país, e sim a quarta instalação desse tipo construída em território ucraniano, que tem se esforçado para desmantelar suas usinas nucleares. E para a própria central nuclear de Chernobyl, o arrendamento das áreas próximas e os projetos significam outro desenvolvimento bem-vindo, os investimento e fundos financeiros, que também ajudam a lidar com o espólio do desastre nuclear. Veja abaixo algumas cenas atuais de Chernobyl e Pripyat:


 

Veja também:

 

Bibliografia/Fontes:

  • Fountain, Henry – At Chernobyl, Hints of Nature´s Adaptation – NYT, 2014
  • Yah, Laura – Chernobyl is Turning Into a Wildlife Preserve for Wolves – LiveScience, 2018
  • Mousseau, Timithy A. e outros – Highly reduced mass loss rates and increased litter layer in radioactively contaminated areas – Oecologia, 2014
  • EFE – Chernobil deixa de ser um perigo pelo próximo século, Dez/2016

 

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