Deslizamentos de terra são ocorrências, que já fazem parte da história brasileira há séculos. Várias são as causas destes deslizamentos, mas os danos ou tragédias advindas são quase totalmente ocasionadas pela omissão do poder público.
Santos, a cidade do grande porto, como algumas outras cidades brasileiras tem em sua história a marca de uma tragédia anunciada.

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A massa da avalanche cobrindo casas e parte da Santa Casa de Misericórdia de Santos

Na madrugada chuvosa de 10 de março de 1928, um estrondo ensurdecedor acordou os moradores da região do Monte Serrat. Inicialmente, pensou-se que um raio havia caído nas imediações. Mas a realidade era muito mais apavorante: um formidável bloco de terra havia-se desprendido do morro e despencado sobre numerosas casas, causando a morte de pelo menos uma centena de pessoas que, em sua maioria, estavam dormindo.
A catástrofe começou a ser desenhada anos antes. Sem qualquer critério, pedreiras se instalaram no sopé do Monte Serrat e começaram a escavar suas encostas. Nem a Santa Casa de Misericórdia, a primeira do País, perdoou a montanha. Quando decidiu construir uma nova enfermaria, para tratar as vítimas de tuberculose, a instituição não pensou duas vezes antes de arrasar uma grande fatia do Monte Serrat, na face que dá para a praça dos Andradas. O sopé do morro foi cortado a pique por ordem da Santa Casa, que construiu ainda um muro de pedra para conter as águas. Algum tempo depois, constatou-se que essa providência fora absolutamente inútil.

Pouco antes numa quarta-feira (7 de março de 1928), a ameaça já era visível. As pesadas chuvas tinham aberto uma enorme fenda de mais de um metro de largura no alto do Monte Serrat, mas a Prefeitura não se ateve ao fato e não tomou as devidas providências emergências que a situação justificava.

Resultado: como as águas de março continuaram a despencar dos céus, a ferida na montanha foi alastrando-se, tornando a avalanche uma ocorrência inevitável.

Pois às 4h50 do dia 10, a natureza se vingou de tantas agressões sofridas. O Monte Serrat veio abaixo, atingindo duramente a travessa da Santa Casa, uma viela onde existiam cerca de 30 casas, das quais 15 ficaram soterradas e os fundos do hospital, situado na rua São Francisco.

Da Santa Casa de Misericórdia desapareceram sob a terra o necrotério e a sala de cirurgias. O desastre que matou a enfermeira de nome Maria Brumen na hora e provocou um pânico sem precedentes no hospital, o que provocou uma movimentação intensa de profissionais de saúde correndo com centenas de doentes, que se espalharam aos gritos pelas imediações.

Com isso, a cidade parou. O comércio fechou as portas, enquanto o Corpo de Bombeiros, Polícia, funcionários da Companhia Docas, ferroviários e o povo em geral acudiam, procurando resgatar quem ainda estava vivo sob os escombros. Não se sabia quantas vítimas fatais havia, tampouco quantos feridos ainda poderiam ser retirados do local da tragédia. Chegava-se ao exagero de afirmar que poderiam estar mortas perto de 300 pessoas.

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A imprensa deu o registro da tragédia por dias

Famílias inteiras desapareceram no desmoronamento. Até o meio-dia daquele do fatídico 10 de março, seis pessoas haviam sido resgatadas vivas e outras 20 encontradas mortas, sendo removidas para o necrotério do cemitério do Saboó e outros pontos da cidade. Os bombeiros e soldados da Força Pública trabalhavam com vigor, mas sabiam que seriam necessários muitos dias para remover a grande massa de terra e pedra que despencara da montanha.
Muitos outros cadáveres seriam retirados horas depois e a chuva continuava a castigar a Baixada Santista, acelerando a decomposição dos corpos que se encontravam soterrados e criando o risco de novos deslizamentos.

Na terça-feira, 13 de março, um outro bloco de terra desprendeu-se, mas sem causar grandes estragos. No entanto, ao mesmo tempo, uma fenda ameaçadora se abriu em outra vertente do morro e teve de ser cuidadosamente desmontada. Temendo por suas vidas, moradores das imediações foram se retirando de suas casas, temendo nova catástrofe.

Na quinta-feira, 15 de março, o delegado regional de Santos, Armando Ferreira da Rosa, divulgou um balanço das vítimas fatais. Até aquela data, 80 pessoas haviam morrido em decorrência da avalanche. Posteriormente, outros corpos encontrados e óbitos de feridos internados nos hospitais da cidade elevaram para pelo menos uma centena o número de mortos. Apesar da omissão das autoridades, ninguém foi responsabilizado pela tragédia.

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Neste ponto do Monte Serrat, numa visão atual, abriu-se uma fenda que ruiu encosta abaixo deslizando 130.000 m3 de terra e rochas soterrando casas, parte da Santa Casa de Santos, causando uma verdadeira tragédia em março de 1928.

Uma omissão criminosa:
Alertada sobre o risco de um grande desabamento no Monte Serrat, a Prefeitura de Santos nada fez para impedir a tragédia. Ao contrário. O procurador da firma Domingos Pinto & Cia. pediu ao Executivo local que fizesse uma vistoria no morro. Depois de muita insistência, um engenheiro chamado Mendonça foi destacado para a missão, mas, após executar seu trabalho, afirmou que não havia risco algum. Era o dia 9 de março de 1928. Horas depois, o parecer do engenheiro ruía junto com o morro.

A Prefeitura também foi acusada pela facilidade com que concedia licença para exploração de pedreiras no sopé do morro. O Monte Serrat, como os do Fontana, do Pacheco e de São Bento que formam a cadeia que atravessa a cidade de Santos, no sentido Leste-Oeste, dividindo-a em duas zonas distintas, tem uma constituição silicosa e se assenta sobre lajes inclinadas.

Dentro da terra há enormes blocos de granito, desajustados uns dos outros, que podem facilmente se deslocar. A vegetação é quase nula e, naquela época, os morros santistas não possuíam obras de arrimo. Ou seja, tudo facilitava os deslizamentos, mas os técnicos da Prefeitura ignoraram o risco.

Essa falta de responsabilidade foi reforçada, depois da tragédia de 10 de março de 1928, diante da ameaça de desmoronamento de mais de um bloco do Monte Serrat, cujo desmonte havia sido iniciado pelos engenheiros da Prefeitura na quarta-feira, 13 de março. De repente, chegou uma ordem da Prefeitura mandando suspender o serviço.

A ordem partira do vice-prefeito, Benedito Pinheiro, na ocasião prefeito em exercício, em consequência de um protesto apresentado pela direção do Cassino do Monte Serrat, situado no alto do morro, e pela firma Domingos Pinto & Cia., proprietária de uma serraria na rua São Francisco. As duas empresas, que estavam se lixando para a segurança da população, ameaçavam processar a Prefeitura, pois as obras de desmonte do enorme bloco de terra certamente lhes causariam prejuízos.

Enquanto as obras eram paralisadas, por iniciativa do dócil e servil vice-prefeito Benedito Pinheiro, a cidade ficou sob a ameaça de uma nova calamidade. O serviço só foi retomado depois que foi entregue à Prefeitura um abaixo-assinado subscrito, entre outros, por 2.700 dos 2.900 sócios do cassino.

Apesar de toda a negligência desta ocorrência, onde segundo registros soube-se que as chuvas intensas, mobilizaram cerca de 130.000 m³ de solo morro abaixo, novos deslizamentos ainda ocorreriam em 1929, 1953, 1956, 1978 e 1979, na referida encosta, eventos de deslizamento de massa que ocasionaram severos danos patrimoniais, deixando dezenas de vítimas fatais. Em de março de 1953 por exemplo durante chuvas intensas e ininterruptas, 60 deslizamentos simultâneos assolaram os morros de Santos, infligindo perdas de vida e destruição de habitações da população mais pobre.

Mas como muitas cidades de encostas ou com grandes encostas Santos sempre tem que entrar em alerta quando o índice pluviométrico atinge valores expressivos. Por exemplo, de acordo com a defesa civil de Santos, nos meses de dezembro de 2010, Janeiro e Fevereiro de 2011 o índice pluviométrico acumulado foi de 338,7mm, 339,0mm e 459,0mm respectivamente, causando assim alerta constante nas encostas devido a probabilidade de ocorrências de deslizamentos. E é sabido que quando a precipitação chuvosa supera cerca de 100mm por dia, o perigo já é eminente que foi o que ocorreu em 1928. É claro que com a ocupação das encostas as tragédias sempre estão para acontecer e com elas os danos fatais e patrimoniais.


Alguns registros da tragédia de 1928


O Monte Serrat, tem um vasto histórico de desmoronamentos. Como exemplo há a história que em 1614 tem-se um desmoronamento que soterrou piratas que saqueavam a então Vila de Santos definido então como um milagroso desmoronamento. Mas a primeira notícia de problemas com o Monte Serrat datam de 1898, quando ocorreu um desmoronamento de pequenas proporções.

Não a toa a comprovação de duas rachaduras na encosta, comprovada nas verificações feitas dias antes e depois do grande desmoronamento de 1928, levou ao questionamento sobre o risco de se manter e os problemas legais para demolir o Monte Serrat, antes que ocorressem novas tragédias, o que não acabou acontecendo, e novos sucessivos deslizamentos ocorreram e ainda podem ocorrer nos dias atuais.
Mas a avalanche de 1928 poderia ter proporções muito menores caso as autoridades locais cumprissem o seu papel. Foi uma ferida na história de Santos…


Bibliografia/Fontes:

  • Gutjahr, Mirian Ramos – Estudos históricos de eventos climáticos extremos na Baixada Santista-SP – Instituto Geológico da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo – 2010, São Paulo,SP
  • Oliveira, Matheus da Silva – Análise da Aplicação de Geoprocessamento no Gerenciamento de Áreas de Risco de Movimentos de Massa – Universidade Federal de Viçosa – 2011, Viçosa,MG
  • Lima, Cristina Santos Candido de – Aguiar, Tina Moura – Técnicas Construtivas Sustentáveis p/ Contenção de Encostas – Universidade Santa Cecília – 2015, Santos,SP
  • Alves, Odair Rodrigues – Avalanche – JÁ/Diário Popular – Issue #38 – 27/07/1997 – São Paulo,SP

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