Embora eu tenha trabalhado alguns poucos anos com o produto, constantemente sou perguntado sobre o futuro do papel, principalmente como suporte para transmissão e armazenamento de informações e imagens.

Fim do papel? O assunto é polêmico e complexo, por isso dependendo do grau de envolvimento dos agentes com o produto, as opiniões são múltiplas.

Inventado pelos chineses há milhares de anos, o Papel ao lado da Roda e outras poucas geniais criações, é um dos responsáveis pelo estagio atual desenvolvimento da humanidade. Sem ele poderíamos hoje, no máximo, estar entrando na Idade Média.

Por séculos o Papel tem sido um dos produtos mais próximos e úteis ao homem, seja para escrever ou em outras das suas múltiplas serventias.

Mas o principal propósito do papel como suporte para transmitir e guardar informações/imagens, tem sido desafiado nos últimos 50 anos pelas novas mídias, principalmente as eletrônicas.

Comparadas ao papel, essas novas e glamorosas mídias escondem em si grandes fragilidades, colocando em risco de perda, parte considerável do que hoje se produz e se armazena de informações/imagens.

A maior fragilidade esta na rápida evolução, lançamentos de múltiplas versões em curtos períodos de tempo quase sempre incompatíveis entre elas.

Vamos imaginar que os documentos da antiguidade (inclusive os religiosos) tivessem sido armazenados em algum tipo de mídia que não um suporte físico legível ao olho humano, e que descobertos por algum arqueólogo, tivéssemos a pretensão de abrir os arquivos contidos nessa hipotética mídia?

Como seria essa mídia? De madeira? Pedra? Ferro? etc…

Qual o tamanho desse possível suporte? Tipo disco rígido? CD? Disquete?, Fita? USB? SDMemory?, etc…?

Se fosse um Disquete, baseados na evolução dos últimos anos e retrocedendo no tempo, ele provavelmente deveria ter o tamanho de um estádio do futebol.

E o leitor desse disquete? Qual o tamanho?

Usava válvulas, transistores, C-MOS, etc…? Teria que ter tensão de alimentação de 110, 220volts, AC,DC….

Como era a arquitetura do hardware? RISC ou CISC…?

A arquitetura era semelhante a uma maquina de Von Neumann?

Usava álgebra Booleana? A linguagem era binária?

Quantos bits, 2,4,8,16,32,64?

Qual o sistema operacional era usado?

Os arquivos estariam protegidos por senha?

Qual o nivel de segurança da senha, “civilian” ou “Military Encryption”?

As possibilidades de acessarmos os dados dessa hipotética mídia ficaria próximo do impossível, e muito dos conhecimentos atuais da humanidade simplesmente não existiria se não fosse o papel.

A obsolescência já esta presente em varias mídias de armazenamento. Ex: Fitas de Video VHS/Betamax, muitas das alegrias e emoções ali registradas já foram ou estão sendo perdidas para sempre. E as fotos e informações armazenadas nos disquetes de 3 1/2 ou nos ainda flexíveis de 5 1/4″, cartuchos de fitas?

A evolução dessas mídias esta tão rápida que arquivos com menos de 10 anos de armazenamento já correm o risco de não serem abertos pelos dispositivos atuais, seja por incompatibilidades de “software” ou de “hardware”.

Para aumentar a fragilidade, já temos a “cloud”, o armazenamento nas nuvens.

Armazenar (fazer upload) de fotos e documentos eletronicamente, sem preservar originais, é um risco que se deva levar em conta.

Apesar dos vários inconvenientes destas estruturas, teremos que conviver durante muito tempo ainda com fábricas de papel e celulose.

 

 

As mídias eletrônicas podem ir a situação de “crash”, Operadores por engano podem apagar os dados, ou mesmo um acidente da natureza onde é gerado um grande campo magnético, pode levar ao apagamento total de dados eletrônicos.

Agora no começo de 2012 nos chega a noticia que vários “sites” globais de troca de arquivos estão sendo fechados, seja por pirataria ou outras razões, e seus arquivos estão sendo simplesmente apagados. Aqueles que lá tinham seus arquivos já estão no prejuízo.

Sempre que alguém diz que confia muito na segurança do armazenamento digital, lhe proponho imaginar o cenário de escolha abaixo:

  • Sobre uma mesa está a mais confiável das mídias eletrônicas, contendo as imagens eletrônicas de todos os seus documentos importantes, inclusive as escrituras de seus imóveis, etc… e na mesma mesa os originais em papel.
  • Pergunto: “Podemos mandar incinerar seus papéis, ou voce quer preserva-los por segurança?
  • Até o momento, não encontrei quem não prefira ter a segurança do armazenamento em papel.

Se hoje acontecer uma reforma econômica no pais, com os planos Collor ou Bresser e outros, o cidadão prejudicado dificilmente terá como provar sua posição sem uma prova impressa, e mesmo que tenha algum registro eletrônico dificilmente será aceito como prova (além de talvez não encontrar um dispositivo para lê-lo), visto a fragilidade de como se pode altera-los.

Nos EUA alguns juízes já começam a contestar as assinaturas digitalizadas, podendo criar contenciosos jurídicos de proporções inimagináveis em futuro próximo.

Quanto mais rápida for a evolução dos novos suportes, melhor para o papel. Em poucos anos, a utopia de uma sociedade totalmente sem papel perderá força.

É lamentável que muito do que foi e esta sendo produzido e somente armazenado eletronicamente, estará definitivamente perdido em pouco tempo. Quando os prejuízos se tornarem mais sensíveis, a imprescindível ação de se imprimir e guardar as informações/imagens essenciais, será retomada.

Texto original de Antônio Leoncio da Silva – Gerente de Desenvolvimento e Procurement de Papel da Xerox do Brasil de 1998 a 2006.

antonio.leoncio@gmail.com


Este blogueiro, tem seu pensamento alinhado com este texto, e em sua concordância vê também com sério risco esta euforia de décadas, em querer se acabar com o papel. A civilização é feita de eras, e a impressão visual é a que verdadeiramente transmite o legado do conhecimento entre estas várias eras, seja por livros, inscrições em materiais duráveis, etc, etc.

É evidente que, pelo volume de informações geradas nestes últimos 100 anos, armazenadas em milhares de datacenters, universidades, centros de pesquisas, organizações cartoriais, etc, não poderíamos colocar tudo em papel, sob pena de não ternos espaço no planeta para produzir tanta celulose, mas é evidente mantermos o papel como alicerce prioritário em informações relevantes e de segurança de nosso dia-a-dia e para transmitir a evolução da civilização para a eras que ainda virão.


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