Capivaras sempre estiveram nos rios urbanos de São Paulo, notadamente nas várzeas do Rio Tiete e Pinheiros. Mas em 1990 a cidade foi surpreendida pela localização de jacarés nesses dois rios, e um deles virou celebridade.

O caso ganhou muita notoriedade e entrou para os registros históricos da cidade, pois no dia 14 de agosto de 1990 uma movimentação estranha quebrou a rotina urbana e chamou a atenção dos moradores da zona norte. Eles avistaram o que seria um jacaré-de-papo-amarelo entre as pontes da Vila Maria e da Vila Guilherme.

Os bombeiros foram chamados e atestaram a presença do bicho na margem esquerda do Rio Tietê. Só que não conseguiram capturá-lo. Começava aí a epopeia de Teimoso, apelido dado ao bicho de um metro de comprimento e que parou o trânsito da principal via da capital por mais de 3 horas.

Os bombeiros fizeram muitas tentativas de resgate, mas fracassaram em todas. A frustração gerava justificativas de que não estavam acostumados com este tipo de ocorrência certamente gerando constrangimentos as equipes.

Depois destas tentativas iniciais, voltaram uma semana depois do início do caso, numa terceira investida.

Um congestionamento enorme se estabeleceu durante umas 3 horas na tentativa de captura do jacaré Teimoso, no dia 14 de agosto de 1990.

Chegaram a cercar o Teimoso pois foi acuado na margem direita do rio por dois oficiais que estavam em um barco e um time de bombeiros em terra e uma rede de quarenta metros, ele parecia não ter para onde fugir. Mas ele acabou mergulhando assustado com a aproximação de barulho de um helicóptero.

A caçada demorou dois meses para ser resolvida e só em 23 de outubro de 1990, numa operação montada pela Polícia Florestal, a Guarda Metropolitana e o Corpo de Bombeiros, foi que o Teimoso foi capturado no outro extremo da cidade no Rio Pinheiros.

No momento não se sabia ao certo se era o Teimoso ou não, pois junto com ele, outros sete jacarés foram capturados e levados ao Parque Ecológico do Tietê, extensa área verde as margens do Rio Tietê entre São Paulo e Guarulhos com 15 milhões de m². Mas graças a seu tamanho, coloração e formato não ficou dúvidas.

Teimoso e seus amigos no Parque ecológico de Tietê depois de uma cansativa captura no Rio Pinheiros em 23 de outubro de 1990

Nunca se soube como o animal foi parar lá e a versão mais aceita na época era de que ele talvez criado em cativeiro, seu dono, com medo de ser multado pela Polícia Federal, jogou-o no rio. Mas como outros jacarés foram achados já despertava alguma preocupação, pois poderiam estar aumentando sua população pelo fato de existirem muitas capivaras e estas servirem como predação para os jacarés.

A ocorrência mais uma vez trouxe a questão da poluição dos rios, pois tanto o teimoso como as capivaras viviam nestes rios com uma taxa de oxigênio que era de menos de um miligrama por litro de água. Não se acreditava que fosse possível vida num lugar desses, com animais inclusive se reproduzindo bastante com as capivaras.

Teimoso acabou virando símbolo de luta para a despoluição dos rios, sendo sempre lembrado para campanhas, educação, projetos, etc. Em 2016, um Teimoso gigante colocado no local pela Fundação SOS Mata Atlântica como sensibilização para saneamento básico e a necessidade de zelar pela qualidade da água dos rios. O episódio tornou-se um folclore da cidade sempre referenciado em ocasiões como de um livro didático infantil de Ruben Ciola – Teimoso o Jacaré Ecológico:

[ Veja o livro aqui ]

Se o Teimoso e outros jacarés foram removidos dos rios Tietê e Pinheiros, nos anos seguintes foi a vez da remoção das capivaras, apenas do Tietê, pois o aumento da profundidade da calha, sua canalização das margens e o projeto de despoluição entrariam em curso.

Em 1999, por exemplo, umas 80 capivaras foram retiradas do rio e levadas ao Parque Ecológico do Tietê. Mas as que escaparam do recolhimento certamente migraram para o rio Pinheiros, pois as obras do rio tornaram-se intensas. Mesmo ainda no rio Tietê há registros de atropelamento desses animais, pois não havia isolamento das pistas com as áreas da margem. Houve também notícias de abate e consumo de carne das capivaras por favelados que existiam às margens do rio.

Com a canalização das calhas do rio Tietê do Parque Ecológico até o complexo viário do Cebolão, as capivaras migraram deste trecho do rio, embora as vezes alguma solitária aparece. Além da migração para o rio Pinheiros dentro da capital, há ocorrências destes animais na grande SP pela ramificação oeste e pelo interior de todo o Estado onde o rio Tietê circula.

O cenário bizarro com as torres comerciais, a ciclovia e filhotes de capivara

Mas se o Jacaré Teimoso fez sua história, as capivaras agora no rio Pinheiros também estão fazendo a sua, tornando-se parte de fato da paisagem urbana, e incrivelmente vivendo no rio mais poluído da cidade, se não um dos mais poluídos do mundo.

Vivem, se reproduzem, e circulam sem qualquer inibição na extensa ciclovia dividindo espaço com ciclistas, ao lado de uma ferrovia (Linha 9 da CPTM) e da movimentada Av. Nações Unidas (Marginal Pinheiros). Em breve com o monotrilho (linha 17), será possível também observá-las do alto, na região do Brooklin.

A convivência das capivaras com os ciclistas…

Com não houve obras de canalização das margens do rio Pinheiros como ocorreu no rio Tietê e manteve-se área verde ao longo de suas margens, as capivaras fazem delas sua morada e usam o rio densamente poluído o que prova a resistência deste animal para sobreviver em lugar tão inóspito. Nada mostra que esta situação irá mudar e com isto o cenário bizarro vai se manter. Já virou ícone turístico da cidade, pois principalmente no Brooklin com suas torres empresariais que recebem uma população de vários países, contemplam aquele cenário curioso.



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