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A revolta dos passageiros…

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As recentes manifestações deste mês de Junho de 2013, tendo como motivação inicial a questão de tarifas de transporte público, tem precedentes muito parecidos com o quebra-quebra de 1947, onde a motivação principal cede espaço para anarquias urbanas e infiltrações políticas com objetivos muito similares !

“Revoltada com o aumento das tarifas de transporte público, a população da Capital destruiu centenas de bondes e ônibus, há 66 anos”

1incendio1947

Vários ônibus foram incendiados e depredados

Foi uma pancadaria como poucas vezes se viu na Capital. Há quase 66 anos, no início de agosto de 1947, a população de São Pau­lo incendiou 16 ônibus, cinco bondes, dois carros da Prefeitu­ra e ainda depredou outros 347 veículos da Companhia Munici­pal de Transportes Coletivos (CMTC) em represália ao au­mento generalizado das tarifas de transporte público. A con­fusão foi de tal ordem que pro­vocou a queda do então prefei­to da Capital, Cristiano Stockler das Neves, responsável pela impopular medida.

A decisão começou a ser pla­nejada tão logo a CMTC foi cri­ada, em março daquele ano, para suceder a Light na prestação de serviços de transporte público na Capital. Como a tarifa dos bondes estava congelada desde o início da operação, o negócio não era dos mais rentáveis, o que dificultava a manutenção das li­nhas e a sua expansão. As au­toridades do município tenta­ram defender esse argumento inúmeras vezes em entrevistas e pronunciamentos, mas foi inútil, pois o povo não consi­derou a decisão justa.

O quebra-quebra teve início em 1º° de agosto, quando a pas­sagem dos bondes, que custa­va Cr$ 0,20 desde 1901, foi re­ajustada para Cr$ 0,50 e as dos ônibus, que eram divididas em três categorias, foram unificadas em Cr$ 1. O primei­ro incidente foi registrado às 11 horas daquela sexta-feira chuvosa. Aos gritos, um grupo de populares investiu contra um bonde no largo São Fran­cisco no momento em que o veí­culo recebia passageiros. Em poucos minutos, os manifes­tantes depredaram dois bondes e ainda assaltaram um ônibus da linha Jardim Paulista. Em seguida, o grupo subiu a ave­nida Brigadeiro Luís Antônio, atacando todos os coletivos que cruzavam seu caminho.

Simultaneamente, a revolta explodia no largo da Pólvora e ganhava a rua da Liberdade. Ar­mados com pedaços de paus e com as próprias alavancas dos bondes, os populares investiam contra os veículos, quebrando balaustres, vidros, bancos e ras­gando cortinas. Os ônibus tam­bém não escaparam à fúria po­pular e, em pouco tempo, mais de dez estavam depredados.

Descendo pela Liberdade, a massa, ao atravessar a praça João Mendes, quebrou todos os veículos da CMTC que ali se en­contravam, tendo chegado a ate­ar fogo em vários ônibus. Diri­giram-se em seguida à praça da Sé, onde continuaram a tarefa de depredação e apedrejamento dos veículos da CMTC que por ali transitavam.

As depredações mais con­tundentes ocorreram nas imedi­ações da praça do Patriarca e do vale do Anhangabaú, onde se concentravam os pontos iniciais de diversas linhas. Na esquina do viaduto do Chá com Patriar­ca, dois ônibus novos da linha Perdizes foram assaltados, que­brados e finalmente, incendia­dos. No Anhangabaú e na praça Ramos de Azevedo, o quadro era o mesmo. O Centro da Capital es­tava pegando fogo, literalmente.

A revolta se espalhou rapida­mente pela cidade. Na Avenida Pau­lista, no cruzamento com a Aveni­da Brigadeiro Luís Antônio, a mul­tidão atacou dois bondes fechados, os famosos “camarões”, assim chamados por causa da sua cor, de um laranja berrante. Em frente à Prefeitura, instalada em um edifí­cio na rua Libero Badaró que dava fundos para o vale do Anhangabaú (Palacete Prates), a multidão atacou dois carros ofi­ciais que estavam estacionados, ateando-lhes fogo. Rapidamente, os dois automóveis ardiam e fi­cavam totalmente destruídos.

GermanLorca

Enfurecida, a massa se con­centrou em frente à sede da Pre­feitura, e só não a invadiu por­que soldados da Cavalaria entra­ram em ação, dispersando a mul­tidão. Esta, então, se dirigiu para o Anhangabaú, onde assaltou os porões da Prefeitura, retirando, do Arquivo Municipal, ali insta­lado, pacotes de documentos que imediatamente eram abertos e es­palhados pelo gramado do vale. Uma nova carga dos policiais, contudo, dispersou a turma.

Também o prédio da Light (uma das acionistas da CMTC) foi atingido por pedras e paus. Todas as vidraças da sua parte frontal foram estilhaçadas. Na esquina da rua da Figueira com avenida Rangel Pestana, a multidão invadiu um posto de gasolina e saqueou o suficiente para atear fogo aos ônibus e bondes. Mas o posto não foi depredado, nem tampouco roubado. Na rua da Consolação, na esquina com alameda Santos, um ônibus foi parado pela multidão e o motorista, assustado, disparou um tiro de revólver que atingiu um menor de idade. Se não fosse a rápida atuação da força pública ele teria sido linchado. Mas nenhum outro motorista ou motorneiro foi molestado. A conduta da multidão em geral se repetia: os populares cercavam os ônibus e bondes e exigiam que os condutores abandonassem seus postos e que todos os passageiros descessem, em seguida o incendiavam, sem ferir qualquer pessoa. As depredações e os ataques da população se espalharam por outros bairros da cidade, mencionam-se ocorrências de ataques sistemáticos no terminal de bondes de Vila Mariana, Penha, Brás e Santo Amaro. Preocupadas, as guarnições da 2ª região militar entraram imediatamente em prontidão. O governador Adhemar de Barros alarmado com as dimensões da revolta popular teria telefonado ao presidente Dutra, no palácio do Catete, afirmando que somente o exército seria capaz de conter a rebelião popular e restabelecer a ordem. O presidente Dutra teria negado a intervenção do exército, alegando que o assunto era de exclusiva competência do governo do Estado.

incendio1947

Comunistas

Logo após ser informada da revolta popular, a direção da CMTC determinou que todos os ônibus e bondes fos­sem recolhidos às garagens e estações. A ordem foi cumprida penosamente em meio à grande confusão reinante e, por volta das 16 horas, todos os veículos de transporte coletivo estavam fora das ruas, com exceção dos que foram destruídos.

Enquanto isso, a Polícia se mostrava incapaz de conter os manifestantes, movimentando-se desordenadamente e com dis­persão de esforços, embora os focos de violência já estivessem claramente identificados. Por conta disso, o comércio resolveu baixar suas portas muito mais cedo. O faturamento naquele dia só foi bom para os taxistas, que, com o colapso do sistema públi­co de transporte, passaram a fa­zer lotações rumo a todos os can­tos da cidade.

No dia seguinte, alguns ôni­bus e bondes voltaram a circu­lar, mas não refrescaram a vida de uma boa parte da população que, naquela época, trabalhava pelo menos em regime de meio expediente aos sábados. Com isso, os taxistas continuaram a trabalhar dobrado, embora sofrendo a concorrência de quem não era ramo. Motoristas de au­tomóveis particulares e até mes­mo de caminhões lançaram-se às ruas para reforçar o orçamento doméstico.

O trabalho também era inten­so nas oficinas da CMTC, onde os mecânicos da empresa repa­ravam os veículos danificados na véspera para colocá-los o quanto antes de volta em circu­lação. Mas as dificuldades não eram poucas, já que os veículos e até mesmo a maioria de seus componentes eram importados. Ou seja, por causa de uma ou ou­tra peça em falta no estoque, bon­des e ônibus tinham de ficar en­costados nas garagens.

Pelas ruas, a temperatura já havia descido, mas ainda foram registrados alguns acidentes. No sábado, dois irmãos se pos­taram na entrada da galeria Prestes Maia, no vale do Anhangabaú, onde havia vári­os pontos de ônibus, e come­çaram a incitar o povo a novas depredações. Foram presos.

No sábado, houve algumas manifestações na praça do Pa­triarca, dissolvidas pela Cavalaria, que levou diversos mani­festantes para o temido Depar­tamento de Ordem Política e Social (Dops). Também no do­mingo, às 19h30, um “camarão” por pouco não foi depredado na rua Vergueiro. E até em São Ber­nardo do Campo foram registra­dos incidentes: uma perua equi­pada com alto-falante circulou pela cidade da região do ABC incitando o povo a partir para novas depredações. Os autores da proposta foram detidos.

Houve gente que partiu para atos irresponsáveis, como Astor de Oliveira Guimarães Dias, de 23 anos. No domingo, ele jogou um caibro sobre os trilhos quando um bonde lota­do, proveniente de Santo Ama­ro, se aproximava em grande velocidade do largo da Pólvo­ra. Por sorte, o motorneiro con­seguiu frear a tempo, evitando assim que o carro saltasse dos trilhos. O rapaz foi preso.

Nenhuma morte foi registra­da nos incidentes, mas muitos manifestantes ficaram feridos, alguns a tiros de fuzil, como o operário Alexandre de Jesus, de 19 anos, alvejado na praça do Correio, e José Antônio Isidoro, de 23. que foi atingido por um disparo na avenida Brigadeiro Luís Antônio. Também foram fe­ridos soldados da Força Pública, motorneiros e condutores. Al­guns ficaram internados em es­tado grave no Hospital das Clí­nicas e na Santa Casa.

O go­vernador do Estado, Adhemar de Barros, utilizou essas víti­mas para atacar seus adversá­rios políticos. Foi sobre os om­bros deles que Adhemar jogou a responsabilidade pelos feri­dos e prejuízos causados à ci­dade, o que lhe permitiu dar início a uma intensa persegui­ção aos militantes de esquer­da, especialmente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), cujo registro fora cassado em maio.

O governador, entretan­to, sabia muito bem o que po­deria acontecer na cidade em função do aumento das passa­gens. Tanto é que ele não pen­sou duas vezes antes de aten­der o convite para participar das comemorações do 50° aniver­sário de Bauru, comemorado naquele mesmo 1° de agosto. Adhemar só voltou ao Palácio dos Campos Elíseos, então sede do Executivo paulista, na manhã do sábado, quando a confusão já era menor.

Além dos comunistas, quem pagou o pato foi o prefeito Cristiano Stockler das Neves. Ele procurou justificar de todas as formas a exagerada majoração das passagens, mas o quebra-quebra o desgastou muito junto à população e aos seus pares no poder, a ponto de a CMTC passar a ser chamada jocosamente de “Cobre Mais Trinta Centavos”. No dia 28 de agosto ele foi substituído pelo jurista Paulo Lauro, primeiro negro a exercer o cargo de pre­feito de São Paulo.

quebraquebra

“O Estado de São Paulo” de 2 de Agosto de 1947 dava os detalhes da fúria da população

Ferro-velho

A ideia de se criar uma es­tatal para cuidar do transpor­te coletivo na Capital paulis­ta surgiu no final dos anos 30, na interventoria de Adhemar de Barros, quando Pres­tes Maia era prefeito da capi­tal. A empresa, imaginavam os dois governantes, deveria iniciar suas atividades em 1941, quando venceria o pra­zo de 40 anos concedido à Light para explorar o serviço de bondes elétricos na Capi­tal. O presidente Getúlio Var­gas, entretanto, não aprovou o plano e baixou decreto prorrogando o contrato com a Light. Com a queda de Ge­túlio, em 45, o presidente José Linhares revogou tal decreto.

Em 9 de março de 1947, cinco dias antes da posse de Adhemar no governo pau­lista, a CMTC finalmente saiu do papel. A empresa surgiu com um capital de Cr$ 250 milhões injetado pela Prefeitura (Cr$ 80 mi­lhões), governo do Estado (Cr$ 70 milhões), Light (Cr$ 60 milhões) e outras empre­sas de ônibus (Cr$ 40 mi­lhões). A Light ficava como acionista porque cabia a ela fornecer a energia para mo­ver os bondes e também os ônibus elétricos, os chama­dos trólebus, que passaram a operar em 1948.

Menos de cinco meses de­pois, a CMTC estava tecnica­mente quebrada. Após fazer um balanço dos prejuízos cau­sados pelo quebra-quebra e dos recursos necessários para reaparelhar o sistema de trans­porte coletivo da cidade, a Pre­feitura concluía que seriam necessários 300 milhões de cruzeiros. Descapitalizada, a empresa, que não possuía mais do que 1.100 veículos, sendo 500 bondes e 600 ôni­bus, foi capengando anos a fio, de crise em crise, limitan­do-se a adquirir verdadeira sucata, isto é, ônibus e bondes usados retirados de circulação no Exterior e empurrados para a Prefeitura paulistana.

Ainda em 1947, por exem­plo, a CMTC anunciou com estardalhaço a compra em Nova Iorque, nos Estados Uni­dos, de 75 bondes fechados. Os veículos em questão foram substituídos nas ruas da cida­de americana pelos PCC, o bonde mais moderno e confor­tável do mundo na época.

Era de se esperar que os americanos torrassem o mate­rial velho por qualquer preço, mas isso não aconteceu. Ao con­trário. Um PCC custava nos Estados Unidos o correspon­dente a Cr$ 600 mil, mas eles venderam a São Paulo os bon­des velhos, sucateados, por ab­surdos Cr$ 200 mil cada. Nada como um bom negócio com os brasileiros para se livrar lucrativamente do ferro-velho, raci­ocinou acertadamente a prefei­tura de Nova Iorque.

Episódios como este fo­ram uma constante na trajetó­ria da CMTC. Para piorar, a empresa, como é comum en­tre as estatais, tornou-se um cabide de empregos e um pa­raíso para funcionários fan­tasmas. Foi liquidada, na segunda adminis­tração de Paulo Maluf, que sucedera Luiz Erundina que a inchou absurdamente, e ela foi subs­tituída pela São Paulo Trans­portes — SPTrans com a função específica de apenas monitorar, regular, e fiscalizar as empresas concessionárias. Depois de provocar uma sangria desata­da nas economias do municí­pio, a CMTC chegou ao fim sem conseguir criar um siste­ma de transporte pelo menos razoável para o paulistano.

Por problemas semelhantes diversos motins e revoltas urbanas se espalharam pelo Brasil. Depois de São Paulo, vieram Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Natal, Uberlândia e muitas outras cidades.

O que mais impressiona segundo os relatos da grande imprensa da época, é que este quebra quebra de ônibus e bondes em 01 de Agosto de 1947, é o ímpeto com que os vários setores da cidade aderem espontâneamente, às arruaças, anarquias e a violência e ao mesmo tempo a simultaneamente com que explodem em diferentes pontos da cidade, num processo que se inicia com ataques a unidades de transportes coletivos, passando por outros atos contra tudo que está no caminho, e atinge seu clímax no enfrentamento com as forças policiais, destinadas a manter e a restabelecer a ordem pública. Tal como naqueles tempos, o que vimos hoje ocorrendo nas primeiras manifestações deste junho de 2013, tem muita semelhança.


LINKS RELACIONADOS:

Distúrbio urbano de 1947

Revista Esquinas – nº 41 – Faculdade Cásper Líbero


BIBLIOGRAFIA:

Duarte, Adriano – o motim contra os ônibus e bondes na cidade de São Paulo em agosto de 1947

Duarte, Adriano Luiz – O “dia de São Bartolomeu” e o “carnaval sem fim”: o quebra-quebra de ônibus e bondes na cidade de São Paulo em agosto de 1947 – Revista Brasileira de História 2005

Alves, Odair Rodrigues – Quebra-Quebra, JÁ Diário Popular São Paulo 03/08/1997

Silva, Carlos Benedito Rodrigues da/Fry, Peter/Vogt, Carlos/Gnerre, Maurizio/Sorj, Bernardo/Seeger, Anthony – Movimentos Sociais Urbanos, Minorias étnicas e outros estudos – Brasília 1983


Golbery vermelho …………..?

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Em tôda a estrutura de poder, existe um elemento central, chamado de estrategista, muitas vezes recebendo até outras denominações, para o qual converge e erradiam ações que definem caminhos e a força deste poder frente à área de influência. Isto ocorre em estruturas políticas, empresariais, organizações civis de todos tipo, etc.

Os mais antigos, principalmente aqueles que puderam viver e presenciar os acontecimentos antes, durante e pós regime militar, se lembrarão da figura de Golbery do Couto e Silva. Nos tempos atuais, já houveram algumas análises e crônicas atribuindo a José Dirceu o trabalho de Golbery nos dias atuais; Será?

 

Golbery, gaúcho, de carreira militar impecável, tendo participado da segunda guerra mundial pela FEB, Força Expedicionária Brasileira, foi braço direito do primeiro presidente militar Castelo Branco e destaque como teórico do movimento político-militar (1964).

Golbery sempre este ligado a estudos e estratégias para fazer frente ao avanço do comunismo no cenário político brasileiro. Suas ideias foram inicialmente delineadas em sua obra Planejamento estratégico (1955). Era respeitado e apoiado pelo general Humberto de Alencar Castelo Branco. Em 1962, um ano depois de passar à reserva, criou e dirigiu o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES). Durante sua atuação frente ao instituto teve papel de destaque na preparação do movimento que depôs o presidente João Goulart.

O IPES, através de financiamento do governo e de empresas ligadas à direita, montou uma extensa rede de informações. Os arquivos, gravações telefônicas e documentos levantados nessa época formaram dossiês que foram transferidos para o Serviço Nacional de Informações (SNI), criado em 1964, foi idealizado e também dirigido pelo General Golbery. O SNI teve grande influência em todo o regime militar, tanto do lado estratégico quanto da manipulação da sociedade mediante instrumentos de controle da mídia, para evitar a comunização do país e de se tornar um satélite de Cuba.

O Anti-“Linha-Dura” na Ditadura

O General Golbery, por ser de formação acadêmica intelectual nunca concordou com os métodos de ação da “linha dura”, sendo por ela odiado, enfrentando diversos panfletos que circularam nos quartéis que lhe atacavam, tachando-o de “entreguista” e até mesmo comunista (durante a crise com o Ministro do Exército Sylvio Frota, esse expediente foi comum).

Em 1967, Golbery do Couto e Silva assumiu uma vaga de ministro do Tribunal de Contas da União e, em 1974, no governo Geisel, tornou-se chefe da Casa Civil da Presidência da República, cargo que manteve com a posse do novo presidente, João Figueiredo. Ali teve influência no nascimento dos novos partidos. Foi ele quem excogitou e conduziu a reforma partidária de 1979. Nasceram ali, além do PDS que sucedeu à ARENA, o PMDB liderado por Ulysses Guimarães, o PT por Lula, o PP por Tancredo Neves, a sigla PTB previamente entregue a Ivete Vargas pelo próprio chefe da Casa Civil de Geisel, e, à época, de Figueiredo e o PDT de Leonel Brizola. O propósito era dividir a oposição, unida debaixo da sigla do MDB. De saída, Golbery conseguiu seu propósito.

Mais do que dividir a oposição, Golberi tinha uma grande preocupação e missão de tirar a influência de partidos comunistas (clandestinos, PCB, PCdoB) sobre instituições civis, como Centrais Sindicais, Igreja Católica, Estudantes da UNE os quais, José Dirceu inflamava gerando tôda uma anarquia urbana (principalmente em São Paulo). Obteve quase um sucesso total em suas estratégias neste sentido e de dividir a oposição, pois tendo um controle brutal em Serviços de informações, poderia agir para manutenção dos valores da direita e da democracia pró-EUA, já que Golbery era o homem forte de influencia americana no poder do Brasil, para garantir a não sovietização do cone Sul da América, nos tempos da guerra fria.

“Um dos relatos mais interessantes sobre este trabalho de Golbery é dado pelo empresário Mario Garnero que relata um dos grandes mistérios da história politica brasileira é compreender como e por que, afinal, o presidente Ernesto Geisel e o general Golbery do Couto e Silva deixaram um o jovem e desconhecido metalúrgico Luís Inácio da Silva, sem origem partidária e sem referência, de repente se transformar no maior líder sindical do país. Lula tem estrela, tem Sorte? Seria um predestinado? Ou teria sido construído, meticulosamente, nos arquivos secretos da ditadura? Entre os militares da repressão, há muito se comenta que Lula seria um dos seus, depois reinventado pelo general Golbery do Couto como parte de uma trama maior para tirar o poder do Partido Comunista, o PCB, nos sindicatos brasileiros e estudantes de escolas públicas.

Golbery se notabilizou-se como um dos teóricos da doutrina de segurança nacional, elaborada nos anos 50 pelos militares brasileiros da Escola Superior de Guerra (ESG). A doutrina se torna a justificativa ideológica das práticas autoritárias dos governos militares, para evitar os movimentos marxistas ditatoriais que andava em crescimento no mundo naqueles anos. Criador do Serviço Nacional de Informações (SNI), logo depois do golpe, é o principal indicador das cassações feitas pelo governo.

Como vivia uma relação de amor e ódio dentro da estrutura militar do poder, se pôs contrário à ascensão de Costa e Silva à Presidência (um dos mais linha-dura do regime), e retira-se do governo com a posse do novo mandatário. Entre 1968 e 1973 é presidente da filial brasileira da empresa norte-americana Dow Chemical e, posteriormente, seu presidente para a América do Sul.

Em 1981, Golberi, demitiu-se casa Casa Civil, depois das bombas do atentado no Riocentro, atentado este que fracassou mas pôs em risco a vida de milhares de civis além de representar retrocesso em relação à postura que defendeu e tentou implementar desde Geisel; por saber da participação de militares comandados pela linha dura. Não teve influência suficiente sobre Figueiredo para alijar de vez os membros da linha dura. No entanto permaneceu como condutor de conversas com a “oposição responsável”, principalmente Tancredo Neves e Thales Ramalho, para o complemento da transição para volta à Democracia.

Golbery recebeu vários apelidos: “Eminência parda, “O Bruxo” “O mágico” “O homem forte da ditadura” “O inventor do Lula” “gênio da Raça, por Glauber Rocha”, tudo isto por sua notável capacidade de articulação e inteligência, sendo denominado também pelo jornalista Elio Gaspari como “O Feiticeiro. Era também chamado por integrantes de grupos esquerdistas de Henry Kissinger brasileiro. Morreu em 1987 em São Paulo, e deixou também algumas frases célebres, por que não dizer proféticas:

  • O reconhecimento pelos países líderes do Ocidente, em particular pelos E.U.A., da justeza e solidez de nossos anseios dependerá, entretanto, grandemente de nós.
  • Ora, o Brasil, pelo prestígio que já goza no continente e no mundo, pelas suas variadas riquezas naturais, pelo seu elevado potencial humano e, além disso, pela sua inigualável posição geopolítica ao largo do Atlântico Sul, ocupa situação de importância singular quanto à satisfação de todas essas imperiosas necessidades da defesa do Ocidente.
  • Na verdade, é a insegurança generalizada e crescente em que se debate, agoniada, a humanidade de hoje, o ópio venenoso que cria e alimenta essas hórridas visões, capazes, entretanto, de se tornarem uma realidade monstruosa.
  • O Brasil vive um movimento de sístole e diástole, entre ciclos autoritários e democráticos.
  • Não interrompa uma pessoa que lhe conta algo que você já sabe. Uma história nunca é contada duas vezes da mesma maneira e é sempre bom ter mais uma versão.


José Dirceu de Oliveira e Silva, mineiro de Passa-Quatro é um político e advogado brasileiro, com base política em São Paulo.

Foi líder estudantil entre 1965 e 1968, ano em que foi preso em Ibiúna, no interior de São Paulo, durante uma tentativa de realização do XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Ainda em 1968 inflama as ruas de São Paulo, com o episódio conhecido como “A Batalha da Rua Maria Antonia

Em setembro de 1969, com mais quatorze presos políticos, deportados do país, em troca da libertação do embaixador americano Charles Burke Elbrick, foi deportado para o México. Posteriormente exilou-se em Cuba. Fez plásticas e mudou de nome para não ser reconhecido em suas tentativas de voltar ao Brasil após ser exilado, e voltou definitivamente ao país em 1971, vivendo um período clandestinamente em São Paulo e em algumas cidades do Nordeste e, quando teve novamente sua segurança ameaçada, retornou a Cuba. Em 1975 retornou ao Brasil, estabelecendo-se clandestinamente em Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná.

Com a redemocratização, em 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, do qual foi presidente nacional durante a década de 1990.

Exerceu vários mandatos: entre 1987 a 1990 foi deputado estadual constituinte por São Paulo, e, em 1991, 1998 e 2002 elegeu-se deputado federal. Em janeiro de 2003, após tomar posse na Câmara dos Deputados, licenciou-se para assumir o cargo de Ministro-Chefe da Casa Civil da Presidência da República, onde permaneceu até junho de 2005, quando deixou o Governo Federal acusado, por Roberto Jefferson de ser o mentor do Escândalo do Mensalão.

Retornando à Câmara para se defender, Dirceu teve seu mandato de deputado federal cassado no dia 1º de dezembro de 2005, tornando-se inelegível até 2015.

Politiburo atual do PT com José Dirceu ao centro

(©Getty images/AE/AG Globo/Folha Press)

Apogeu e queda

José Dirceu foi Ministro-Chefe da Casa Civil no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de 1 de janeiro de 2003 até 16 de junho de 2005, quando pediu demissão do cargo de ministro, e voltou a seu antigo cargo de deputado federal por São Paulo (era até então deputado licenciado) do Partido dos Trabalhadores.

Ocupou o principal posto da coordenação política do governo, sendo tratado pela imprensa como o verdadeiro homem forte da administração federal, a quem caberiam efetivamente as decisões, como um super-ministro e “primeiro ministro”, como era “considerado” no passado Golbery do Couto e Silva.

Sua demissão ocorreu em meio à crise política que surgiu após denúncias de corrupção nos Correios e em outras empresas estatais, vindas à tona após acusações do deputado Roberto Jefferson. Reassumiu, então, seu mandato de deputado federal.

Embora a oposição tenha afirmado diversas vezes que o presidente tenha demitido o ministro por reconhecer a culpa do mesmo, Lula, como esperado, nunca assumiu publicamente isto.

No dia 1 de dezembro de 2005, José Dirceu teve seu mandato cassado por quebra de decoro parlamentar. O placar da votação foi de 293 votos a favor da cassação e 192 contra; com isso, José Dirceu ficou inelegível até 2015. O relator do processo de cassação de José Dirceu no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados foi Júlio Delgado.

No dia 30 de março de 2006, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, denunciou ao Supremo Tribunal Federal (STF), quarenta pessoas, entre políticos e empresários, participantes do esquema do mensalão. O procurador indiciou por crimes graves, como corrupção ativa, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e peculato os ex-ministros do governo Lula José Dirceu (Casa Civil), Anderson Adauto (ministro dos transportes) e o ex-ministro dos transportes Luiz Gushiken (Comunicação Estratégica). Dirceu saiu do governo federal por ser insustentável a sua permanência na Casa Civil, pressão esta exercida pelo escândalo em que estava envolvido. O relator do caso no Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa (nomeado por Lula), atribuiu a liderança no esquema do “mensalão” a José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e Sílvio Pereira.

Após ser o principal alvo das investigações do mensalão do PT, José Dirceu tornou-se internamente para o PT, um símbolo de resistência por reproduzir a imagem de perseguido.

Mesmo cassado, volta à direção do PT, ignora as decisões do partido, cria confusão com aliados, é repreendido por Lula e diz que isso não tem importância”.

Em 23 de fevereiro de 2010, a Folha de São Paulo cita que José Dirceu foi contratado por ao menos R$ 620 mil pela principal empresa do grupo empresarial privado beneficiado com reativação da estatal Telebrás. O dinheiro teria sido pago entre 2007 e 2009 pelo dono de uma companhia sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. A oposição defende que a reativação da estatal teria sido comandada por Dirceu para beneficiá-lo.

Em seu blog, José Dirceu comenta que “a Folha joga sujo para atacar plano de banda larga do governo e lhe atingir”.

Em palestra no dia 13 de setembro de 2010 para sindicalistas do setor petroleiro em Salvador, José Dirceu teria declarado que “o problema do Brasil é o monopólio das grandes mídias, o excesso de liberdade e do direito de expressão e da imprensa”. A fala, divulgada no site do diretório do PT da Bahia, foi posteriormente desmentida por Dirceu, que negou ser de sua autoria. O presidente do diretório baiano atribuiu sua divulgação a um “equívoco da assessoria de imprensa do partido”.

O fato é que, o “mensalão” oruindo do envolvimento ou suspeita de envolvimento de José Dirceu, se sacramentou de fato em toda a administração pública, e se aperfeiçoou ampliando sua penetração em todas as esferas e escalões, conforme tem sido exposto na administração de Dilma, com os escândalos revelados nos Ministérios dos Transportes (DNIT), Agricultura, Turismo, Cidades, ANP, Conab entre tantos outros. Na pratica na necessidade de manter a “governabilidade” e impor um falso cenário de sucesso na administração, “compra-se”, partidos, dando a eles e seus integrantes, cargos e posições de influência na máquina pública, e daí para os privilégios e interesses pessoais, como tem sido amplamente noticiado. Em resumo o mensalão, não é ficção, mas tem seu início com José Dirceu e Lula em seu 1º mandato.

Ao compararmos as presenças de governo nas épocas distintas, Golbery agiu sempre em causa ampla, da nação, de fato da governabilidade dos militares e para garantir a transição para a democracia, como de fato aconteceu. Já com José Dirceu, enraizado direta ou indiretamente pelo PT no governo, desde a era Lula até Dilma, tem sido marcado por jogos de influencia, escândalos de corrupção, à causa de interesses pessoais e nefastos, como a imprensa amplamente tem publicado.

Golbery, em sua eternidade, deve estar vendo com frustração, que embora conseguisse evitar que fôssemos satélite de Cuba com suporte ideológico da URSS, estamos a mercê de virar um satélite da China, com suporte ideológico de Chaves

Se ser estrategista, como entidade necessária, para o exercício do poder saudável, seja via Casa Civil ou não, representar articulação, inteligência e negociação em nome de causa maior (o País), certamente Golbery cumpriu seu papel muito mais do que José Dirceu. Portanto o autor considera que não existe este papel nos dias atuais, e tem-se como resultado o caos moral que se apresenta estampado em todas as mídias, brasileiras e internacionais. Talvez um nome que possa representar a função de estrategista, mais próxima a Golbery, seja FHC, que tem transito saudável e respeitável em toda a classe política e intelectual do país e assimila com inteligência as modernidades do século 21.

Leitura de apoio:

Golbery do Couto e Silva (1)

Golbery do Couto e Silva (2)

As Sementes do AI-5

Um líder sob encomenda

José Dirceu (1)

José Dirceu (2)

A cassação de José Dirceu

Coleção Mensalão

Julgamento de José Dirceu gera princípio de crise entre poderes Judiciário e Legislativo no Brasil

Idoso agride Jose Dirceu com bengala

José Dirceu defende ‘reorganização da base de apoio’ e presidente do PT nega haver crise no governo

José Dirceu mostra que ainda manda em Brasilia

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