A história revela que o grande acontecimento de 1910 foi a passagem do Cometa de Halley, que segundo registros semeou uma onda de pânico global.

Muitas especulações existiam sobre o cometa, tal como sobre o suposto efeito letal do gás de sua cauda, causaram tal perplexidade e medo, que culminou com a morte de várias pessoas que, não querendo morrer envenenadas pelo “gás letal”, preferiam se suicidar.

A mística do Halley é escrita com muitas lendas, superstições, avanços científicos e tragédias. Ele era até a pouco tempo uma espécie de popstar dos objetos astronômicos.

A visita do Halley no início do século 20 foi muito comentada porque era a primeira feita com a existência de tecnologias de gravação. O cometa foi fotografado pela primeira vez e ganhou esta fama mundial.

Pedra do Baú a noite vista da estrada que liga Campos do Jordão a São Bento do Sapucaí, conhecida hoje como estrada campista.

Pedra do Baú a noite vista da estrada que liga Campos do Jordão a São Bento do Sapucaí, conhecida hoje como estrada campista.

Encontrar quem tenha visto e deixado registro do fenômeno, sempre trás surpresas da pandemia que se criou na época.

É o caso do relato de Octávio da Matta, conhecido como “Vico” que então com 10 anos na ocasião da passagem do cometa, deixou o relato abaixo, registrado em seu livro “Campos do Jordão a cidade que vi nascer”

“Em meados de junho é comum Campos do Jordão amanhecer toda coberta de geada e sob intenso frio que, logo a seguir, dá lugar a um sol brilhante e quente que se projeta de límpido céu azul.

Em 1910, contudo, o dia 24 de junho apresentou um aspecto completamente diferente do normal.

Às nove horas da manhã tinha-se a impressão do sol estar raiando, razão pela qual toda a população olhava para o céu em busca de uma explicação que ninguém sabia dar. Uns, mais metidos a “sabidos” mas bem ignorantes, diziam que o sol estava se apagando, o que motivou um certo terror entre a criançada e mesmo entre muitos adultos.

Eu e meus irmãos costumávamos lenhar numa pequena mata situada onde hoje se encontra a Vila Guarani. Naquela manhã, como de costume, nos dirigimos para lá mas, percebendo que algo de anormal se passava, ao invés de lenhar ficamos observando o céu. Em dado momento um de nós percebeu bem próximo ao sol um estrela muito brilhante que parecia desprender uma chama, que logo passamos a chamar de rabo.

A estrela de rabo permaneceu vários dias visível e aumentando progressivamente, enquanto nós, os garotos, tínhamos nossos temores aumentados pelas opiniões dos adultos que pareciam cada vez mais convencidos da aproximação do fim do mundo.

Uma madrugada meu pai acordou a mim e meus irmãos chamando-nos para assistir um espetáculo realmente grandioso. A estrela brilhava com enorme intensidade e sua cauda atingia grande parte do céu. Pouco a pouco ela foi diminuindo o seu brilho e a cauda foi diminuindo até se extinguir totalmente.

Mais tarde, em conversa com um salesiano chamado Crispim, fui informado tratar-se do Cometa de Halley, visível de setenta e seis em setenta e seis anos, aproximadamente e que nada tinha a ver com o “fim do mundo” preconizado pelos “sábios” locais.”

Infelizmente Vico não pode também presenciar o retorno do cometa em 1985/1986, pois falecera em 13 de Outubro de 1983, contudo sua cidade querida, junto com as cidades vizinhas de São Bento do Sapucaí e Santo Antonio do Pinhal se prepararam para o evento, pois esta região nos altos da Mantiqueira se tornara os melhores pontos astronômicos para observação.

Só Campos do Jordão recebeu em seus hotéis e pousadas 21 mil americanos, 9 mil europeus e milhares de brasileiros e sul americanos e de outras localidades para observar o famoso cometa.

Mas contrariando os temores e expectativas, não foi um espetáculo memorável, tal como em 1910, deixando todos decepcionados….


BIBLIOGRAFIA:

  • Narrativa: © Campos do Jordão a cidade que vi nascer, Octávio da Matta – B.L.Ferrari. 1ª edição, Campos do Jordão, 2011
  • Gazeta da Física – Volume 8, Janeiro 1985, Portugal
  • Campos do Jordão, na rota do Halley – INPE (URLib em md-m09.sid.inpe.br), 1986)

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