Cães abandonados estão presentes em inúmeras cidades do mundo e na Russia não deixa de ser diferente principalmente em Moscou e São Petersburgo. Só em Moscou as estatísticas dão conta de mais de 35.000 cães de rua.

Mas os cães de Moscou estão perfeitamente integrados na sociedade russa e são quase universalmente amados. Calcula-se que aproximadamente 500 deles vivem em estações de Metrô e viajam frequentemente nos trens.

O cães parecem entender que os vagões finais são os mais vazios para eles viajarem a vontade.

Eles chegam no metrô imploram por comida, ou então para tirar uma soneca até chegarem no seu destino, quando então saem. Eles tem uma precisão de onde e como chegar ao seu destino e acredita-se que desenvolveram algum instinto de sobrevivência baseado em algumas regras, como:

  • Eles podem “sentir” quanto tempo eles estão no trem e que é hora de sair.
    Eles reconhecem o nome da estação quando a voz gravada o anuncia.
    Eles sabem como a estação cheira.
    Ou usam todos estes métodos juntos.

E mais, eles gostam de usar os vagões finais dos trens, porque eles são os menos ocupados. Além disto eles também parecem ter aprendido atravessar ruas agitadas da cidade quando há uma luz verde. Os especialistas que estudaram esta situação, acreditam que esses cachorros pensam que sabem quando cruzar por causa da posição sinal de pedestres e não pela cor do semáforo.

“Este ainda não é meu trem”

Alguns dos cães descobriram uma maneira muito inteligente de obter comida de pessoas. O que eles fazem é que eles esperam até que alguém compre comida de um quiosque na rua e então eles se esgueiram atrás da pessoa e de repente atacam muito alto. Se a pessoa estiver assustada o suficiente, eles deixarão cair seus alimentos e o cão vai engolir. Um tipo de comida que os cães gostam especialmente é shawarma (parecido com nosso churrasco grego), que é um tipo popular de comida oriental comido em Moscou.

Os cães de Moscou são muito parecidos um com o outro, exceto por serem cores diferentes. Eles são de tamanho médio, e têm pele grossa, cabeças em forma de cunha e olhos de amêndoa. Um biólogo chamado Andrei Poyarkov, que costumava estudar lobos, agora está estudando os cães de rua em Moscou. O número de lobos em toda a Rússia é entre 50.000 e 60.000 e o número de cães de ruas na cidade de Moscou é de cerca de 35.000.

Então, isso significa que os cães vivem juntos e por isto se encontram um com o outro. Com isso eles são muito menos agressivos uns contra os outros do que os lobos são. O líder de um bando de cães não é o mais forte e o mais dominante, como ocorre numa matilha de lobos. Em vez disso, é o cão mais inteligente. Isso porque os outros cães sabem que seu líder deve ser inteligente para que o bando possa sobreviver, conclui o biólogo.

Muitos pensam que Moscou deveria tentar livrar-se de todos os cães de rua, mas outras gostam de tê-los por perto. Há algum tempo atrás, havia um plano para reunir todos os cães e enviá-los para um lugar a cerca de 150 milhas de distância da cidade. Mas entidades de direitos dos animais argumentaram que isso seria como enviar os cães para um campo de concentração. Como sempre em questões assim fizeram um abaixo assinado recolhendo assinaturas de artistas e músicos famosos que achavam que o plano era ruim e o plano não foi levado à frente.

Ativistas em ação para proteger os cães de rua de Moscou

Houveram outros planos que envolveram abrigos e esterilização, mas esses programas não fariam muita diferença na população de cães. O Sr. Poyarkov diz que a quantidade de comida disponível manterá o número de cães aproximadamente o mesmo. Além disso, a maioria dos filhotes nascidos não sobrevive para ser adultos e, se o fizerem, basicamente assumem o lugar de um adulto que morreu. O tempo de vida de um cachorro de Moscou é de cerca de 10 anos. Também se não pode adotar esses cães como animais de estimação, porque eles nasceram meio selvagens e cresceram dessa maneira e a maioria deles nem sequer pode manter-se dentro de uma residência.

Desta forma Moscou continua com um grupo engenhoso de caninos que encontraram seu próprio caminho para navegar dos subúrbios da cidade até o centro, onde passam seus dias implorando por comida. Depois de uma camaradagem feliz, à noite, eles seguem para o sistema do metrô e trens novamente e viajam para casa, esperançosamente com barrigas cheias.

Esses cães muitas vezes dormem em carros de metrô, viajam em bandos e tornaram-se hábeis em circular em multidões de passageiros. De acordo com um artigo numa edição do “The Sun, UK”, quando no centro da cidade, os cães aprenderam a usar suas artimanhas psicológicas para obter alimentos das pessoas – ladrando algumas vezes ou apelando “psicologicamente” girando suas cabeças e/ou usando seus grandes olhos castanhos para culpar as pessoas obrigando-as a dar-lhes seus lanches.

Aliás não faltam artigos e vídeos no Youtube que relate ou mostre os cães circulando livremente sem serem perturbados e até sendo idolatrados, parecendo uma situação análoga com as vacas na Índia.

Malchik, violentamente morta por uma adolescente ganhou monumento e é adorada por muitos.

A situação é tão icônica que em dezembro de 2001, uma cachorra chamada Malchik estava vivendo muito bem da caridade dos viajantes e funcionários da estação de uma das maiores estações de trem de Moscou, Mendeleyevskaya, que uma jovem modelo de 22 anos chamada Yuliana Romanova estava caminhando com seu terrier quando Malchik a atacou. A modelo meio que perturbada entrou na briga e esfaqueou o pobre cachorro seis vezes com uma faca de cozinha.

A tragédia ganhou imenso apoio na comunidade; Um grupo de artistas locais se juntou com os funcionários da estação e várias celebridades russas para instalar um monumento a Malchik no local de seu assassinato assustador. Os moscovitas que viajam através da estação são vistos esfregando o nariz de Malchik para dar boa sorte, depositando flores e outros atos de conformação.

Estudiosos então, acreditam que os cães do metrô de Moscou aprenderam seu comportamento – e sua programação – através de uma série de interações positivas com passageiros e funcionários da estação de metrô, dos trem de passageiros e uma série de empresários que estão todos felizes em dar um pouco de comida, para aquele cão abandonado a sorte. Andar no metrô e trens é apenas um dos truques dos cães para sobreviver.

Muitos poderiam se perguntar, se os cães de rua de Moscou são tão adoráveis quanto você poderia esperar. À medida que a cidade cresceu mais acostumada à presença desses animais, os cães ficaram mais confortáveis buscando o calor e a segurança do metrô de Moscou.

Se as multidões forem tolerantes eles irão se divertir no chão de azulejo frio do metrô. Se houver um assento sobressalente aberto, eles vão tomá-lo e se esticar-se por alguns minutos e cair no sono. Alguns cães “adotaram” humanos específicos que eles sabem que os alimentará com deleites e oferecerão alguns afagos amigáveis. Talvez surpreendentemente, os cachorros são até suficientemente inteligentes para transitar no metrô, por causa da existência deste “lobby” comportamental. Os cães de metrô provavelmente são motivados pelo reforço positivo, como comida e amor.

O talento governante para esses animais, explica o Dr. Poyarkov, é a inteligência. Não só o metrô de Moscou é incrivelmente vasto e complicado, e também é lotado e ruidoso. A maioria dos turistas humanos tem dificuldade em navegar no metrô de Moscou pela primeira vez, mas os cães tem uma habilidade incrível para dominá-lo e apesar dessas condições, os cachorros podem se deslizar pelas multidões, encontrar o trem que querem e viajar confortavelmente até chegarem em seus destinos.



Eles esperam pacientemente em plataformas de metrô, andam através de multidões agudas com desenvoltura e até dormem enquanto estão a bordo, sobem e descem escadas, as vezes rolantes. E, assim como as pessoas, às vezes eles se misturam nos seus trens. Um grupo de notícias viu um desses animais que pareciam ter pouca dificuldade em encontrar seu passeio dentro de uma estação de trem que é um labirinto. O cão parecia entender ativamente que uma atitude amigável era essencial para passar por seu passeio sem problemas.

Fica aquela questão, de como eles se adaptaram ao tal caos humano?

O melhor lugar para começar a responder a essa pergunta seria, que os cães mudaram imensamente nos milhares de anos em que eles viveram e trabalharam ao lado dos humanos. Talvez mais do que qualquer outra espécie no planeta, os cães aprenderam a interpretar com sucesso os sinais físicos e emocionais de uma pessoa.

É um fenômeno conhecido como evolução convergente, que “ocorre quando diferentes espécies evoluem traços semelhantes ao se adaptarem a um ambiente compartilhado”. Como resultado, os cães desenvolveram a capacidade de entender quais pessoas vão deixá-los em seu caminho e quais pessoas serão alvo deles. Esses cães experientes se adaptaram para saber que tipo de comportamento é aceitável em certos lugares. E, assim como os passageiros humanos, eles se adaptaram às regras do metrô.

Os cães parecem compreender ativamente aonde eles estão indo e se tornando parte da comunidade dos milhares que circulam nas estações e nos trens.

Durante anos, os cachorros do metrô de Moscou atraíram a atenção internacional por sua ingenuidade e habilidade única para aproveitar ao máximo de seus ambientes urbanos. Na prática é a história dos cães russos que se apropriaram do transporte público da Rússia.

Cães perdidos e abandonados sempre causaram problemas na Rússia há décadas. Enquanto o número de adoções e resgate estão em ascensão em todo o país, o número de recorrentes nas ruas não diminuiu. Alguns ativistas afirmam que o incrível número de cachorros de rua é devido a atitudes ruins em relação aos animais domésticos por parte do russo de classe média. A mentalidade típica para animais de estimação é que eles são exclusivamente para entretenimento – uma vez que eles perderam esse valor, então jogá-los na rua se torna algo factível. Não é muito diferente do que se pratica em vários outros países e cidades.

A situação dos cães é tão tradicional que virou comics e games

Por várias ocasiões, autoridades e ambientalistas tentaram a questão até com a possibilidade de extermínio, mas estas táticas de destruição da população dispersa tiveram pouco impacto sobre o número total de animais dispersos.

Enquanto isto a população até se diverte com eles, afinal eles não perdem a chance de brincar enquanto viajam no metrô. Eles gostam de saltar no trem apenas alguns segundos antes de as portas serem fechadas, arriscando suas caudas, ficarem presas. “Eles fazem isso por diversão, apenas porque eles têm comida e abrigos suficiente mesmo que temporário”, concluem quem os observa.

Nem sempre foi assim pois durante a União Soviética, não eram permitidos cães nas estações de metrô e também porque restaurantes e lanchonetes eram escassos em toda Moscou e não havia nenhuma razão para se aventurar a ir até a cidade.

A maioria dos cães tinha a preferência de viver em zonas industriais, por onde procuravam comida nos lixões ou o resto de comida que trabalhadores jogavam fora. Após a queda da URSS, a situação mudou drasticamente, pois as suas casas nos arredores de Moscou se tornaram centros comerciais e complexos de apartamentos, enquanto os restaurantes e lanchonetes foram instaladas na área mais central da cidade.

Mas enquanto os cachorros de rua que vagavam pelos metrôs da grande cidade conseguiram encontrar alguma medida de paz na sua existência urbana, não é o caso de uma grande parte dos outros cachorros que estão nas vastas extensões da Rússia.

Em abril de 2017, “The Siberian Times” informou que um menino de 12 anos, chamado Ivan Tsybenko, foi atacado por uma série de cães e gravemente ferido na cidade de Khabarovsk, uma cidade de meio milhão de habitantes. Foi o segundo ataque em Khabarovsk e a população da cidade parece estar cada vez mais preocupada com o potencial de violência contínua e com a agressividade de cães.

De qualquer maneira os cães do Metrô de Moscou são um fato pitoresco, até se comparado com outros Metrôs do mundo, como por exemplo o de São Paulo, que até a pouco tempo atrás, nem cães guias eram permitidos.

Confira os cães de Moscou:



Bibliografia/Fontes:

  • Russia!, Only in – Smartest Dogs: Moscow Stray Dogs, Issue of April 7, 2009 – Moscow
  • Andress, Justin – A Bunch Of Dogs In Russia Have Figured Out How To Use Public Transportation, Weird Nature-Ranker, Los Angeles 2017
  • Guelph, Slice of –Moscow´s train-riding dogs, Posted on May 3, 2013
  • Urikson – Dogs of Moscow, DeviantArt – 2010-2017
  • Dorrie – The Stray Dogs of Moscow, Follow The Piper – Kansas City 08-11-2011.