Em dezembro de 2015 o Brasil foi surpreendido com um colossal incêndio no Museu da língua Portuguesa no centro de São Paulo. O museu mais frequentado da AL e do Brasil, era o único no mundo orientado em seu acerco para uma língua.

O seu acervo foi todo queimado, mas como era totalmente digital pode ser restabelecido rapidamente por conta dos backups que a tecnologia permite.

Mas não foi só a perda do acervo que se caracterizou como único dano. A mais importante construção histórica de São Paulo, num estilo vitoriano clássico foi mais uma vez a vitima. Se o acervo do museu pode ser recuperado, o dano arquitetônico nem tanto, isto por que este lado da edificação que sofreu o incêndio torrou o que sobrou do primeiro incêndio em 1946 o que ainda era original ou seja as ferragens e vigas de aço que vieram da Inglaterra no início do século passado.

Ambas situações fatais parecem ter a mesma origem (elétrica), contudo há mais que uma mera causa de curto circuito.

Se no incêndio atual embora se tenha só suspeitas que um refletor foi a causa, mas é possível concluir que colocar um refletor de alta potência a pouca distância de uma rede de dormir de tecido facilmente inflável possa ter sido uma negligência, o incêndio de 1946 no mesmo local virou caso de polícia, pois existia a suspeita de ter sido provocado criminalmente para uma literal “queima de arquivo.


Estacao-da-Luz-1915_thumb.jpgComo era a estação antes do incêndio de 1946. Ainda não existia o 2º andar em toda a ala leste, apenas o térreo (da plataforma de trens) e o 1º andar. Esta ala leste é a maior ao lado da torre. Neste incêndio a relógio da torre também foi atingindo.

Estacao-da-luz-2014_thumb.jpgComo estava a estação em 2015 antes do incêndio do Museu da Língua Portuguesa no primeiro e segundo andares da ala leste. Só as paredes sobraram.


1946: a queima de arquivo:

Foi uma queima de arquivo, literalmente, afirmavam.

No início de novembro de 1946, a São Paulo Railway Company (SPR), da Inglaterra, estava prestes a assinar o termo de transferência de seu patrimônio para o Governo Federal, pois já estava vencido o prazo de 90 anos da outorga do serviço de trens entre Santos e Jundiaí, de acôrdo com a lei imperial 1.759, de 26 de abril de 1856.

O Ministério da Viação, entretanto, nunca colocou as mãos nos documentos sobre a administração da empresa, já que na madrugada de 6 de novembro daquele ano, dois dias antes da passagem do bastão, a Estação da Luz, onde funcionava o quartel-general da SPR, virou uma imensa fogueira.

O incêndio, o primeiro na história do prédio, começou às 2h05 justamente nos escritórios da empresa. Às 2h45, o relógio da estação já virara uma imensa tocha vermelha, ruindo em seguida. O Corpo de Bombeiros foi chamado e isolou a rua José Paulino, no trecho entre a rua Prates e a avenida Tiradentes, mas pouco pôde fazer. As chamas encontraram pela frente material de fácil combustão e se propagaram rapidamente, ferindo cinco bombeiros.

O rescaldo prosseguiu até as 6 horas da manhã e precisou ser retomado horas depois, pois na noite do dia 7 irromperam novos focos de incêndio. Os bombeiros encontraram nas bilheterias grande quantidade de moedas derretidas pelas chamas. O cofre que continha o dinheiro para o pagamento dos empregados também foi achado. Ele se encontrava nos escritórios da SPR, mas o fogo, ao queimar o piso, provocou a queda do cofre no restaurante.

O estrago foi enorme. As chamas haviam devorado também as cabines telefônicas, o depósito de bagagens, parte da seção dos Correios e Telégrafos, o bar e restaurante, o serviço de informações e todos os escritórios administrativos, incluindo a Superintendência onde se encontravam os documentos referentes à ferrovia.

Só não virou cinzas o arquivo do registro dos empregados, que estava na Contadoria Central, na rua Senador Queirós.

Por volta das 9 horas, a Polícia Técnica iniciou os trabalhos para descobrir as causas do incêndio, que, tudo levava a crer, fora criminoso. O caso envolvia tantas suspeitas que o ministro da Viação, Clóvis Pestana, determinou que uma comissão de engenheiros de seu ministério viesse a São Paulo com o objetivo específico de colaborar nas investigações.

Naquela manhã, os trens de carga circularam sem problemas, pois medidas foram tomadas para facilitar o embarque de mercadorias, evitando-se qualquer prejuízo no abastecimento das cidades servidas pela SPR. A população, entretanto, sofreu como no incêndio atual. Aqueles que precisavam ir a Jundiaí ou aos subúrbios ao Norte da cidade tiveram de rumar para a Barra Funda. Já quem tinha de ir na direção de Santos passou a embarcar no Brás. Só dois dias depois os trens de passageiros voltaram a sair da Estação da Luz.

O vice superintendente da SPR, John Hillmann chegou à estação da Luz pouco depois da Polícia Técnica, por volta das 9h30. Seu veredicto: um curto-circuito tinha causado o incêndio.

Já o chefe do Tráfego da Estação da Luz, Nicolau Alayon, foi só preconceito ao culpar a colônia judaica pelo ocorrido. Segundo ele, a SPR fora vítima de um atentado praticado pelo movimento sionista, que lutava pela implantação de um Estado judeu na Palestina, então dominada pela Grã-Bretanha. Como suas declarações foram duramente criticadas, Nicolau lançou mão de um velho e surrado artifício: afirmou que havia sido “mal interpretado” pela imprensa (alguma similaridade com os dias atuais?).

No dia seguinte, 8 de novembro, enquanto o delegado de Incêndios, Rego Freitas, entregava à Superintendência da SPR o cofre contendo Cr$ 8 milhões (o dinheiro da época), que se destinavam ao pagamento dos empregados, uma cerimônia no gabinete do ministro Clóvis Pestana, na Capital Federal, marcava a transferência do patrimônio da empresa inglesa para a União.

Depois do acidente, o Ministério da Viação chegou a divulgar uma nota informando que a data da solenidade deveria ser adiada, para dar tempo às investigações da Policia. Misteriosamente, entretanto, o Governo acabou voltando atrás. A SPR ou simplesmente “Inglesa” como ficou conhecida por anos, passou a se chamar Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, vinculada à Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA).

O prejuízo causado pelo incêndio – estimado na época entre Cr$10 milhões e Cr$40 milhões, foi assumido pelos contribuintes (já daquela época heim ?), pois foram dos cofres públicos que saíram os recursos utilizados na reforma da Estação da Luz. O prédio foi reconstruído em 1946, respeitando-se o estilo original. No entanto, algumas alterações foram feitas. Assim, no segundo andar, no salão central, foram colocados grossos pilares de sustentação para mais um andar, que foram de fato construídos e que arderam neste incêndio atual, onde estava instalado o museu da língua portuguesa.

As investigações deram em nada, embora a Polícia tivesse a convicção de que gente da própria SPR fora a responsável pelo fogo. E qual seria o objetivo do crime? Esconder os lucros privados e os prejuízos públicos causados por uma empresa que deteve o monopólio do transporte ferroviário ao Porto de Santos do século 19 atê 1938, quando a Sorocabana, controlada pelo Governo Estadual, implantou um ramal de Mairinque até a Baixada Santista.
Até então, as demais empresas que exploravam os serviços de transporte sobre trilhos no Interior pagavam pesadas tarifas para que a SPR levasse mercadorias ao litoral e trouxesse produtos estrangeiros desembarcados no Porto de Santos.

De quebra, a empresa inglesa ainda retardava ao máximo a entrega de trilhos, locomotivas, vagões, carvão e outros insumos necessários à expansão dos serviços de outras ferrovias. Na verdade, a SPR não passava de um lucrativo “funil ferroviário”, que não tinha interesse algum em estender trilhos ao interior adentro para promover o desenvolvimento.


A destruição em 1946, onde prevaleceu a suspeita de incêndio criminoso


2015: o refletor “irresponsável”

No último dia 21 de dezembro 2015, um incêndio destruiu parte do prédio que abriga o museu que estava localizado no 2 ° e 3° andares da ala leste do edifício. Uma câmera de segurança registrou o começo do incêndio. No 2° andar uma exposição do historiador Câmara Cascudo. No provável local de início do incêndio, estavam penduradas várias redes de dormir, muito próximos de refletores. O incêndio teria começado com a troca da iluminação. A suspeita é que uma fagulha, causada por um curto-circuito ou o estouro de uma lâmpada, tenha caído nas redes. O blog ainda lança uma suspeita de mera queima de umas das redes que estava muito próximo de um desses refletores. Os refletores mostrados pelas imagens da câmera de segurança e pela mídia em visita aos escombros sugerem tipo de iluminação de alta potência.

Pouco depois das 14h dos funcionários fazem testes com os refletores e já por volta de 14h52, começa o incêndio no corredor. Vários pedaços em chamas são mostrados caindo do teto e ao que parece são as redes pegando fogo. Um minuto depois, o incêndio já toma conta do corredor e pela grande quantidade de material de fácil combustão da exposição e da própria edificação (toras e vidas de madeira entre outras).

O incêndio devastou toda a instalação do Museu da Língua Portuguesa, instalado nos pavimentos superiores da estação desde 2006. Uma morte foi registrada que era do bombeiro civil que trabalhava no local, que na tentativa de apagar o fogo foi intoxicado com a fumaça e morreu com parada cardiorrespiratória. De acordo com uma análise prévia dos bombeiros no local, as chamas destruíram o segundo e terceiro andares do prédio, mas, em princípio, não afetaram a estrutura da estação de trem local que tem um movimento diário de 400 mil pessoas ao dia. A visita do governador Geraldo Alckmin ao local era de um desconsolo total que afirmava a todo tempo que iria reconstruir o museu e a estação centenária. Só se conseguiu controlar o incêndio aproximadamente 3 horas depois e o bombeiros tiveram um grande ajuda para isto devido a uma forte chuva que desabava sobre a cidade.

Uma imensa nuvem de fumaça cinza cobriu todo o centro, e o teto de madeira do prédio, restaurado no século passado, desabou, num cenário muito parecido com o incêndio de 1946.

Embora laudos oficiais não apareçam depois de sete meses, o que já foi mostrado deixam claro que foi naquele corredor com as redes de tecido e refletores instalados para esta exposição como sendo os responsáveis pela catástrofe. Alguma negligência passou por alí.

Como em 1946, os acessos foram interditados por alguns dias, trazendo prejuízos aos usuários dos trens e metrô que se conectam naquela estação.

A Secretaria da Cultura e a gestão do Museu da Língua Portuguesa garantiam que o local cumpria todas as normas de segurança e de combate ás chamas desde sua inauguração em 2006, embora o prédio não tivesse laudos pertinentes. Garantiram ainda que o espaço seria reconstruído aprimorando as estruturas relacionadas à possibilidade de incêndio, como compartimentação de ambientes para confinar o fogo, uso de materiais construtivos com baixa combustibilidade e tratamento com produtos anti-chamas.


A destruição de 2015 com forte suspeita de negligências


2016: A reconstrução e restauro:

Em janeiro portanto um mês após o incêndio, foi firmado um convênio entre a Secretaria de Estado da Cultura, a Fundação Roberto Mariano e a Organização ID Brasil com o objetivo de reconstruir o Museu e sua edificação preservando as características originais já que o prédio é tombado pelo patrimônio histórico nas três esferas (municipal, estadual e federal). O governo do Estado junto com a Fundação Roberto Marinho articularam com a iniciativa privada a criação de uma aliança solidária, para que junto com a indenização do seguro tenham o folego para a reconstrução do museu e restauro de seu espaço. Apesar da previsão de alguns meses a meta é inaugurar o museu no menor espaço possível.

Em março de acordo com a Secretaria de Estado da Cultura, o objetivo inicial era “preparar o conjunto arquitetônico para os trabalhos de restauro e recuperação”. Serão realizadas a impermeabilização das lajes expostas, a instalação de sistemas de drenagem e a construção de uma cobertura provisória, com o objetivo de evitar a infiltração de água da chuva no edifício, preparando­o para todo o período de restauro.

Com duração estimada de 10 semanas, esta etapa ainda deve liberar as entradas principais da Estação da Luz para circulação de passageiros da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e do Metrô.

O orçamento para esta primeira etapa de obras é de R$ 1,8 milhão, valor coberto pelo seguro da instituição. De acordo com informações da Secretaria da Cultura, a intervenção já foi aprovada pelos três órgãos de proteção ao patrimônio histórico, o Iphan, o Condephaat e o Conpresp.

Que o museu e o prédio histórico sejam devolvidos a população e continue sendo um ícone cultural brasileiro pois desde sua inauguração em 2006 até antes do fatídico incêndio tinha recebido mais de 4 milhões de visitantes nos seus quase 10 anos de atividades. E também que a Luz não seja mais dos incêndios…


Bibliografia/Fontes:

  • Alves, Odair Rodrigues – Queima de Arquivo, JÁ/Diário Popular #37 em 20/07/1997 – São Paulo
  • Vídeos: Donn Smith (p/o) Uol,Estadão,Globo.tv,FolhaSP
  • Imagens: acervo pessoal.

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