2015 de fato enterrou qualquer vestígio da mansão da família Matarazzo que viveu e deu o glamour na Avenida Paulista durante mais de 100 anos, no século passado.

Símbolo da opulência de uma das famílias mais ricas do Brasil, a mansão dos Matarazzo começou a ser construída em 1896 pelo italiano Conde Francesco Matarazzo, patriarca da família e fundador do império Indústrias Reunidas Matarazzo que produziam de cimento a óleos e biscoitos, passando por metalurgia, indústria química entre outras atividades.

No início do século 20 a mansão Matarazzo (à direita) reinava absoluta naquela Av.Paulista dos barões (aqui em 1907)

No início do século 20 a mansão Matarazzo (à direita) reinava absoluta naquela Av.Paulista dos barões (aqui em 1907)

O grupo empresarial cuja empresa inicial foi fundada pelo imigrante italiano Francisco Antonio Maria Matarazzo (1854 – 1937), chegou a ser composto por 365 empresas e 35 mil empregados e foi uma das 5 maiores empresas familiares do mundo. Se houvesse a possibilidade de o Conde ainda estar vivo ele seria o sexto homem mais rico do mundo. Foi o maior industrial brasileiro de todos os tempos.

Por 100 anos a mansão que também foi conhecida por Vila Matarazzo, permaneceu incrustada no nº 1230 da Avenida Paulista esquina com a Rua Pamplona. Neste período o palacete esteve envolvido em polêmicas e disputas judiciais entre os Matarazzo e a Prefeitura de São Paulo.

A única parte da história que sobrou, hoje nos escritórios da Camargo Correa.

A única parte da história que sobrou, hoje nos escritórios da Camargo Correa.

Em 1989, portando quase 100 anos depois do início de sua construção (1896) a então prefeita Luiza Erundina (PT), impondo manias socialistas suas e de seu partido, de se apoderar de propriedade alheia para uso “popular” procede ao tombamento do imóvel a contragosto e conflito com a família.  A dita prefeita queria instalar alí o “Museu do Trabalhador”. O imóvel então sofreu uma tentativa de implosão numa madrugada, porém sem sucesso, pois a estrutura do casarão resistiu as explosões. O Instituto de Criminalística, na época, divulgou um laudo constatando que o desabamento foi intencional, uma vez que as colunas de sustentação haviam sido escavadas, o mesmo diagnóstico dado a um incêndio que a mansão sofreria).

O que se viu a seguir foi uma produção de demandas judiciais (a família também cobrava uma indenização milionária) contra este ato da Prefeitura de SP à época até que em 1994 a família conseguiu reverter o tombamento e reaver sua mansão.

Embora havia questionamentos quanto ao valor do patrimônio material do imóvel, a mansão do conde Francisco Matarazzo (título que trouxe da Itália), foi projetada pelos italianos Giulio Saltini e Luigi Mancini, foi construída inicialmente em 1896, mas passou por reformulações, ampliações e adaptações, envolvendo outros nomes famosos como Marcello Piacentini (1881-1960), Vittorio  Morpurgo  (1890-1966), Tomaso Buzzi (1900–1981),  Lupano (1991).

Com todas estas intervenções a forma final dada então a grandiosa construção contava com dezenove quartos, dezessete salas, três adegas, refeitórios, uma cozinha com azulejos que iam até o teto e uma biblioteca repleta de livros raros. A decoração era composta por móveis venezianos, portas florentinas, mesas chinesas, pratarias e porcelanas de diversas procedências e quadros valiosíssimos de Rubens, Brueghel e Canaletto. Esse cenário compunha festas grandiosas frequentada pela alta sociedade paulistana. Tudo isto num terreno de 13.000m² cercado por belos jardins e resistiu muitos anos ao processo de verticalização da região da Avenida Paulista, uma das áreas mais valorizadas de São Paulo.

antes e depois

Mas parcialmente destruída e sem mais moradores pois fase aristocrática do terreno terminara após a morte do seu morador o Conde Chiquinho em 1977, que ainda teria como residente sua filha Maria Pia Matarazzo e sua mãe, a Condessa Mariângela (que viveu até os 100 anos), a mansão foi habitada até 1989, ano do fatídico ato autoritário da prefeita, quando então a condessa mudou-se para um apartamento com a filha Maria Pia na rua da Consolação.

Durante anos a área de 13.000 m² funcionou com estacionamento, onde apenas os fundos da mansão e seu portões de acesso permaneceram intactos.

Durante anos a área de 13.000 m² funcionou com estacionamento, onde apenas os fundos da mansão e seu portões de acesso permaneceram intactos.

Durante a gestão da prefeitura pós Erundina (Paulo Maluf) em 1996, a mansão é finalmente demolida. Como a família pretendia já nos anos 80 vender o terreno milionário e não obteve sucesso, em 1995 fez um acordo com a rede Multipark para transformar o terreno em um estacionamento, cujo funcionamento durou até 2011.

Caminhões retiram as obras de arte da mansão (1988)

Caminhões retiram as obras de arte da mansão (1988)

Um dos momentos mais tristes, a retirada do brasão da família, tanto casa como do portão principal de acesso (Av.Paulista x Rua Pamplona) em 1996 a mando de Maria Pia Matarazzo.

Um dos momentos mais tristes, a retirada do brasão da família, tanto casa como do portão principal de acesso (Av.Paulista x Rua Pamplona) em 1996 a mando de Maria Pia Matarazzo.

Neste ano iniciou-se as obras da Torre Matarazzo, cuja história também é repleta de situações polêmicas, tanto com a família, com a Prefeitura e com ONGs de preservação.

Embora a Cyrela e a Camargo Corrêa tenham comprado o emblemático terreno da família Matarazzo por R$ 125 milhões em 2006, somente em 2011 iniciou as obras da mega torre/shopping. Até o início das obras foi outra novela, que se arrastou por todos estes anos, que mobilizou cinco ramos da família, obtenção de licenças e alvarás, acordos de compensação de impactos da obra, alteração do projeto de 185,3 para 126,4 m de altura, pelas leis da época (ainda não se tinha o novo plano diretor aprovado e sancionado que permite edificações maiores sem limite para corredores de transporte público) e pressão pública de toda ordem (imprensa, Ongs, sociedade de bairro, etc). Até episódios de uma escavação arqueológica ocorreram onde encontraram tijolos com as inscrições IRFM, de Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo  que portanto, é uma relíquia com mais de 100 anos e provavelmente o que sobrou do emblemático endereço histórico.


Organizações e pessoas ainda tentaram salvar o portão principal de acesso, mesmo sem o escudo da família, mas em vão.


A população acabou por ganhar uma área verde, como um dos acordos de compensação pelo projeto da torre.

A população acabou por ganhar uma área verde, como um dos acordos de compensação pelo projeto da torre.

No tocante as compensações com o objetivo de reduzir os danos, a incorporadora acertou a realização de uma série de contrapartidas. Uma delas foi o alargamento das ruas Pamplona e São Carlos do Pinhal, pois nessa segunda fica a entrada principal do shopping. Elas ganharam uma faixa a mais.

Outra foi a criação de uma praça pública de 2 400 metros quadrados com mudas da Mata Atlântica e conservação de sessenta árvores nativas no entorno da torre. Um jardim sem muros nem cercas, para que qualquer pedestre possa acessá-lo.

O sucesso do projeto também foi consagrado pela conquista inédita em São Paulo para um prédio de uso misto: a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), na categoria Core & Shell – nível Gold, conferido pelo US Green Building Council.

Mesmo com finalidade diferente de uso e e operação, a Torre Matarazzo e o Shopping Cidade São Paulo obtiveram, conjuntamente, pré-certificação como construções de baixo impacto ambiental e que asseguram condições saudáveis de ocupação, ou seja, são empreendimentos que já nascem equipados com sistemas de automação favoráveis à efetiva redução de consumo de água e energia elétrica, refletindo em menor impacto ambiental e certamente menores custos operacionais.

Da mansão assobradada com mármore travertino nos pisos e fachadas só restaram fotos e um tijolo com a inscrição em relevo da sigla IRFM (Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo) encontrado nas primeiras escavações para análise técnica do local e que hoje faz parte da decoração do hall da CCP. Perdeu-se uma parte importante da história de São Paulo, do período cafeeiro e da industrialização, mas o perfil da avenida como centro financeiro, de lazer e cultural ganhou mais um shopping center com 170 lojas ícones, cinemas, teatro, etc., e um edifício comercial ampliando as ofertas de ocupação da famosa avenida, que ainda tem 7 subsolos para abrigar 1.500 veículos.

Os 1,5 milhão de pessoas que circulam pela avenida Paulista diariamente, entre jovens, turistas, executivos, trabalhadores e moradores, daqui a algum tempo não se lembrarão mais, ou simplesmente não saberão que naquele terreno existiu um fato histórico de grande relevância para a cidade de São Paulo. Para os conhecedores da história resumidamente uma mansão se transformou em vidro.

Inaugurado em abril deste ano a torre Matarazzo e o shopping cidade de São Paulo encerram 26 anos de uma longa novela, marcada por uma sucessão de impasses e polêmicas e mais uma vez confirmam a volúpia da cidade em se transformar, em se recriar.

A torre de vidro inserida no perfil da Av. Paulista, reproduzindo a imagem do céu

A torre de vidro inserida no perfil da Av. Paulista, reproduzindo a imagem do céu



Depois de 119 anos emocionantes e críticos registramos resumidamente os grandes momentos:



Veja também:
Matarazzo: Império derrubado

Bibliografia/Fontes:

  • Mateus, João Mascarenhas – A vila matarazzo na avenida paulista de tomaso buzzi:projeto e obras (1938-1940) – 12/2013 – Lisboa, PT
  • Tognon, Marcos – Uma obra brasileira do Circolo de Marcello Piacentini-Villa Matarazzo, – 12/1993 – UNICAMP, Campimas-SP
  • GASPARETTO, GILBERTO – Mansão Matarazzo: um século de história, 09/2010 – FSP, São Paulo
  • Batista, Liz – Era uma vez – 07/2015 – Acervo Estadão, São Paulo
  • Verônica, YaraPróximo Capítulo – 08/2015 – Revista Infra #176, São Paulo
  • Foto do tijolo IRFM: Mario Rodrigues, demais acervo pessoal e divulgação de portais
  • Leopoldo, Ricardo e França, Silva – Torre Matarazzo – 08/2014 – SindusCon-SP, São Paulo
  • Squeff, Larissa – Império derrubado – 01/1998 – Já/Diário Popular #61, São Paulo

mansaoquevirouvidro

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