Aqueles que porventura circulavam por aquela estreita rodovia (ainda uma via de 2 faixas em cada sentido ), conhecida como Rodovia Presidente Dutra lá pelos anos 50,60,70, ligando São Paulo ao Rio, certamente vão se lembrar de uma bela construção, que não deixava de ser surpreendente, tratando-se de uma fábrica, no município de Guarulhos.

Era a fábrica de biscoitos Duchen, que não fora fundada alí mas sim no tradicional bairro da Mooca, em São Paulo, onde ficou por muitos anos. Fundada em 1903, a Duchen foi um destaque no mercado de biscoitos com suas marcas Kid Lat, Specialat e Duchen.

Cumpria uma tradição pois desde sua fundação produzia produtos inovadores e de sinônimos de qualidade para os consumidores que tinham bem agregado o nome Duchen. Seu sucesso era fruto de uma busca constante de qualidade e aperfeiçoamento na fabricação de seus produtos e serviços.

A Duchen, foi com certeza um destaque na renovação da atividade industrial em São Paulo, já que introduzira novos conceitos no tocante as atividades produtivas.

Para expandir seus negócios e facilitar o aporte logístico de seus produtos para o interior de São Paulo e para o Rio de Janeiro, escolheu a rodovia para montar sua grande fábrica, cuja construção teve início em 1950 e concluída em 1951.



Este grande empreendimento foi projetado por Oscar Niemeyer em 1949 e tinha uma sinuosidade, comprida e estreita, com suas colunas à mostra, lembrando uma espinha de peixe. A edificação é uma obra inédita e única na trajetória de Oscar Niemeyer, já que foi um projeto para abrigar uma fábrica, uma indústria.

Tanto é que este projeto foi ganhador de um prêmio (na categoria de construção industrial) na 1ª Bienal de São Paulo em 1951.

A suntuosa e moderna construção em Guarulhos, era ponto de destaque observado da Rodovia Presidente Dutra

A suntuosa e moderna construção em Guarulhos, era ponto de destaque observado da Rodovia Presidente Dutra

A fábrica com sua bela edificação permaneceu naquele local de 1951 a meados dos anos 80 do século passado, quando encerrou suas atividades e a sua premiada construção ficou a própria sorte.

Com o passar do tempo, uma transportadora vizinha adquiriu o terreno com a fabrica para transformar em pátio e estacionamento para os seus caminhões, mas descobriram que havia algo acontecendo com o destino da edificação no CONDEPHAAT; era a discussão sobre o processo de tombamento.

A obra arquitetônica era sem dúvida, um marco na história da arquitetura industrial do Brasil.

E como aconteceu com muitas construções antigas, agora um novo proprietário tinha a intenção de pô-la abaixo. No CONDEPHAAT um dos membros chamou a atenção para o que afirmava que Niemeyer não tinha essa sua obra em alta conta. Aliás há várias construções em São Paulo do arquiteto, que são renegadas pelo próprio.

A decisão tomada pelo conselho seguiu o princípio de autoridade do artista. O arquiteto foi consultado e se mostrou indiferente à destruição. Assim, o conselho recusou o tombamento e em 1990 com uma rapidez predadora, máquinas e tratores invadiram a Duchen e sua demolição foi um ato selvagem sob a ótica de pensamento arquitetônico e patrimonial, portanto a partir daquele momento a fábrica deixou de existir. O novo proprietário do terreno, a Transportadora Atlas acabou tendo litígio com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), por conta do ocorrido.

Quanto a Niemeyer, ficou caracterizado no episódio um claro exemplo de conflito entre o artista e o autor. O artista, ser concreto, de carne e osso, pensante e de raciocínio, confere a si mesmo o direito de desfalcar o autor, de modificar suas características pela supressão ou desprezo de uma obra.

Também confirmou-se mais uma vez o estigma que na prática tombamento acelera destruição. Quanto a marca Duchen que foi comprada pela Parmalat ainda nos anos 90, foi ressuscitada em 2003 em sua linha de bolachas.

A propaganda na época áurea mostrando a sinuosa fábrica (1952) – (Luciano Cartegni)

A propaganda na época áurea mostrando a sinuosa fábrica (1952) – (Luciano Cartegni)

Com estes fatos São Paulo e o Brasil perderam para sempre as duas únicas fábricas do mundo projetadas pelo Niemeyer, a Duchen e muito depois a Ericsson de São José dos Campos, que virou um shopping e quanto a edificação sinuosa que outrora abrigou uma linha que produziu milhões de pacotes de bolacha, sobrou entulho, engolido pela transportadora que comprou o terreno.

Por muito tempo ainda se via os entulhos da demolição da fábrica.

Por muito tempo ainda se via os entulhos da demolição da fábrica.


Bibliografia/Fontes:

  • Revista do Patrimônio Histórico #34 – 2012
  • Hans Günther Flieg – Instituto Moreira Salles (foto)
  • CONDEPHAAT – SP
  • Fundação Oscar Niemeyer

duchen

 

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