Lá no longínquo século 19, na São Paulo ainda muito provinciana, não existiam banheiros nas moradias sendo elas ricas ou pobres.

Então há que se imaginar como se resolviam as coisas numa época tão rudimentar. Era mesmo a era do penico e da bacia, que dispensam apresentações. As famílias mais ricas ainda possuíam um móvel parecido com uma poltrona de madeira com o seu meio vazado, onde por baixo um penico era de uso normal e quanto aos banhos eram numa bacia grande mesmo.

Historiadores relatam que até os serviçais de D. João VI sempre transportavam uma dessas cadeira-penico nos passeios e deslocamentos do rei, portanto não era de se estranhar que o nobre europeu também a usasse em seu pais de origem.

Com relação aos banhos, contam ainda historiadores que, após os trabalhos costumeiros na “sala de costura”, à noitinha, as pretas costureiras preparavam os quartos para a noite, que constituía em “colocar velas nos castiçais e arear as bacias para os banhos”. Isto é relatado e registrado na segunda metade do século XIX.

Já no final deste século, foram desativados os últimos chafarizes públicos de onde a população retirava água, pois houve uma melhora no sistema de abastecimento de água, ao mesmo tempo que criava-se uma limitada rede de esgotos, que eram lançados no Rio Tietê sem nenhum tratamento (já naquela época).

Com isto as famílias ricas passaram a ter em suas casas banheiros e as mais simples ou pobres ainda usavam os métodos antigos. Zica Bergami (1913-2011), testemunha recente desta situação e famosa compositora de “Lampião de Gás” (clássico interpretado por Inezita Barroso), relata que em sua infância, só haviam toilettes nos grandes palacetes dos bairros ricos. Os menos favorecidos tinham que se virar com tinas ou bacias enormes, ou então banhavam-se à noite, nos tanques dos quintais, depois que todos iam dormir.

Largo São Bento em 1884 em foto de Militão Augusto de Azevedo. A direita a famosa Casa de Banhos de José Fischer, Serêa Paulista. Do centro ao fundo a Rua São Bento. (Acervo do Museu Paulista da USP – Museu do Ipiranga)

Largo São Bento em 1884 em foto de Militão Augusto de Azevedo. A direita a famosa Casa de Banhos de José Fischer, Serêa Paulista. Do centro ao fundo a Rua São Bento. (Acervo do Museu Paulista da USP – Museu do Ipiranga)

Para se resolver isto, inspiração não faltou pois no século XIX nos grandes centros europeus eram comuns, as casas de banhos, e certamente isto acabou chegando naquela São Paulo tão inóspita. A história conta que a primeira notícia que se tem de uma casa de banho é de fevereiro de 1857, quando Carlos Pedro Etchecoin anunciava a abertura de sua casa Banhos de Saúde, na Rua do Carmo, 3, com a oferta de um serviço de banhos de lavagem ou de vapor, segundo o gosto ou a necessidade de cada um.

Eram contudo banhos de caráter medicinal, com acompanhamento médico. Não deve ter durado muito tempo, pois outro Etchecoin, agora João Luís Etchecoin e Cia., proprietários do Hotel Quatro Nações, anunciava em 1863 também “banhos de corpo inteiro”.

As casas de banhos então, logo se tornariam um recurso de mais amplitude, que segundo o “Almanaque Paulista Ilustrado para 1896” dizia haver, naquela época, quatro estabelecimentos do tipo na cidade: na Rua Direita, na Rua Boa Vista e dois no Largo São Bento, entre eles, a Casa de Banhos da Sereia Paulista, inaugurada em 1865, portanto a primeira casa de banhos de caráter não só higiênico, mas também de função social, que foi inaugurada em 28 de setembro daquele ano e para grande alegria do jornalista do tradicional Correio Paulistano, que há muito tempo vinha se queixando da falta deste tipo de serviço na capital. Servia ainda refrescos finos e bebidas de “espírito” e pertencia a Henrique Schroeder.

Mas no primeiro dia de janeiro de1871, um personagem pitoresco por que não dizer bizarro adquiriu a Sereia Paulista. Seu nome José Fischer, um húngaro alto, barbudo e ranzinza que havia chegado ao Brasil no ano anterior.

Fischer reformou a casa e ao longo do tempo transformou a sala onde eram servidas as bebidas em restaurante. Ficou famoso pelos bifes à Leipzig, que ficariam popularizados como bifes à cavalo. Já naquela época tornou-se um bom programa paulistano, ou seja, ir tomar banho na Sereia e depois jantar um bife com vinho húngaro que era uma novidade para os brasileiros. A taverna acabou marcando seu ponto na história a melhor de São Paulo.

O perfil deste negócio, importado de modelos europeus, era que após os banhos os clientes sentiam muita fome e sede, daí Fischer ter feito de uma simples casa de banhos algo que atendesse os clientes de uma forma mais ampla.

Para o boato da procedência falsa do vinho, Fischer lançou o desafio de prova.

Para o boato da procedência falsa do vinho, Fischer lançou o desafio de prova.

Fischer importava vinhos da Hungria, principalmente dos tipos Tokay, Ménesi e Ruszti, e seu comportamento ranzinza e de “esquentado” veio a se destacar quando em 1887 começou a circular um boato de que o vinho servido na Sereia era produzido no Tietê e não importado como ele vendia.

Irritado o húngaro mandou publicar um anúncio no jornal A Província de São Paulo de 21-02-1887, oferecendo uma recompensa de um conto de réis a quem o provasse que seu vinho não era da Hungria, caso contrário ficaria considerado boateiro mentiroso.

Mas um ano antes (1886) Fischer já sentia um pouco cansado do negócio, pois colocou sua tradicional e pioneira casa de banho à venda e ao que se sabe não deve ter conseguido nenhuma boa proposta de negócio porque somente em 1891 é que passou a casa a uma tal “Companhia Sereia Paulista” que apesar de ter planos de expansão com a construção de um prédio maior, acabou entrando em liquidação dois anos depois.

José Fischer foi embora do Brasil e retirou-se para Dassau, Alemanha onde faleceu em 1898 e não há registro de que alguém tenha provado que seus vinhos não vinham da Hungria, ficando então o vinho do Tietê como uma lenda ou folclore daqueles tempos.

O local da antiga Casa de Banhos, hoje é um calçadão e uma extensão do tráfego da Rua Boa Vista em direção a Rua Líbero Badaró

O local da antiga Casa de Banhos, hoje é um calçadão e uma extensão do tráfego da Rua Boa Vista em direção a Rua Líbero Badaró

Do antigo casarão que tinha entrada pela Rua São Bento e pela rua São José (hoje Líbero Badaró), e que foi também depósito de vinhos de José Fischer, nada restou, o mesmo com construções que ali foram feitas depois da Sereia Paulista (como por exemplo o Hotel do Rebechino), pois tudo foi tragado pela reurbanização do Largo São Bento para instalação da Estação de Metrô de mesmo nome.

Ao passar por alí, lembre-se da história do vinho do Tietê….


Bibliografia/Fontes:

  • GERODETTI, João Emílio – CORNEJO, Carlos – Lembranças de São Paulo, Edições Solaris – São Paulo, 1999
    BUENO, Beatriz Piccolo Siqueira – São Paulo: um novo olhar sobre a história, Via das Artes – São Paulo 2012
    GOMES, Laurentino, 1808, Editora Planeta do Brasil, 2007, pág. 302.
    BARROS, Maria Paes de, No Tempo de Dantes, São Paulo, Paz e Terra, 1998, pág. 19.
    BERGAMI, Zica, Onde estão os Pirilampos?, João Scortecci Editora, São Paulo, 1989, pág. 18.
    Jornal Correio Paulistano de 12-02-1857.
    Jornal Correio Paulistano de 08-01-1963.
    NOGUEIRA, Almeida, A Academia de São Paulo – Tradições e reminiscências, Nona série, 1912.
    Jornal Correio Paulistano de 26-09-1865
    Diário de São Paulo de 01-01-1871
    Correio Paulistano de 01-10-1865.
    BARBUY, Heloísa, A Cidade-Exposição, Comércio e Cosmopolitismo em São Paulo, 1860-1914, Editora da Universidade de São Paulo, 2006.
    Jornal A Província de S. Paulo de 21-12-1887.
    Jornal Correio Paulistano de 05-05-1886.
    Jornal O Estado de S. Paulo de 06-08-1893.
    Jornal O Estado de S. Paulo de 19-02-1898.

vinhodotiete

 

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