O esplendor da Pedra do Baú, aqui vista em sua face Sul, de Campos do Jordão, coleciona uma bela história de desbravamento.

O esplendor da Pedra do Baú, aqui vista em sua face Sul, de Campos do Jordão, coleciona uma bela história de desbravamento.

Não há quem suba a Serra da Mantiqueira, rumo as cidades de Santo Antonio do Pinhal, Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, que não deixe de admirar uma formação rochosa, a Pedra do Baú. Adorada por montanhistas, ela é atração visual principalmente nas cidades de Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, cidade a qual pertence a curiosa “montanha”.

Mas ao retornarmos a primeira metade do século passado, acharemos uma verdadeira história de conquista da tão difícil escalada a Pera do Baú.

Conta Ricardo Lenz, neto do Dr. Luiz Dumont Villares (1899-1979), pioneiro da indústria de elevadores no Brasil e sobrinho de Santos Dumont, que quando o Hotel Toriba em Campos do Jordão estava sendo construído (e que foi aberto em 1943), seu avô tinha, junto a frente do famoso Hotel, o privilégio da vista da Pedra do Baú em sua face Sul e que sonhava em conquistá-la.

Esta era a visão que Luiz Dumont Villares tinha da Pedra do Baú, do local onde estava sendo construído o Hotel Toriba em Campos do Jordão, naqueles anos 40, do século passado

Esta era a visão que Luiz Dumont Villares tinha da Pedra do Baú, do local onde estava sendo construído o Hotel Toriba em Campos do Jordão, naqueles anos 40, do século passado

Entre uma e outra pesquisa acabou por descobrir que em 1940, os irmãos João e Antônio Teixeira de Souza, os irmãos Cortez de São Bento de Sapucaí já tinham escalado a pedra do Baú pela primeira vez. O então rico empresário, se pôs a dirigir por aquelas barrentas estradas, entre Campos do Jordão e São Bento para encontrar os irmãos quando facilmente localizou na pequena São Bento , o Antonio “Cortez”.

O empresário, que era um apaixonado pela região de toda a Mantiqueira resolveu então contratar os dois irmãos para levá-lo ao topo da Pedra.

Nascia ali então uma parceria de dois sonhadores, em “domar” a famosa Pedra. Alguns dias depois, o Dr. Luiz retornou a São Bento encontrando Cortez com todo material e provisões necessárias e uma equipe de apoiadores.

Após longa e difícil trajetória chegaram na base da Pedra e quando olharam para cima, se depararam com muitos desafios e recursos rudimentares para escalar o paredão. Enfrentando a escalada, chegaram ao topo, e ficaram durante bom tempo contemplando a enorme beleza da paisagem numa visão deslumbrante de 360º quando então resolveram retornar. Apesar de todo esforço e desafios Luiz Villares ficou tão impressionado com a beleza do local e que já como grande admirador da “Pedra”, patrocinou em 1947 a construção de escadas (a primeira e a segunda escada [Via Ferrata] do Baú) e do primeiro abrigo de montanha do Brasil construído a mais de 1950 metros em nível do mar, chamado de “Abrigo Montanhês”.

Achado na Villares, pelo sobrinho de Luiz Dumont Villares, Fernando Stickel, um detalhamento do projeto do Abrigo/Refúgio do Baú

Achado na Villares, pelo sobrinho de Luiz Dumont Villares, Fernando Stickel, um detalhamento do projeto do Abrigo/Refúgio do Baú

Foi construído exatamente no topo da Pedra do Baú feita com tijolos, telhado de cobre e bem servida de água, pois havia compartimentos para receber e armazenar águas da chuva, construída por Floriano Rodrigues Pinheiro, e para hospedagem das pessoas que tinha ainda como conforto, lareira, beliches (treze) e uma cozinha com fogão.

Um lugar para aproveitar confortavelmente ainda mais a beleza e vista do local. Imaginem como deveria bem fora do contexto uma casa no topo da Pedra, a 1950m de altitude, com o tamanho do prazer e da vista maravilhosa que você desfrutaria ao amanhecer e ao entardecer interagindo com uma exuberante natureza. Chegou também a existir um livro de registro de visitantes que ficava à disposição de todos que passavam e dormiam no abrigo.

O Abrigo Montanhês ou Refúgio do Bahú como também era chamado, no topo da Pedra do Baú em 1947

O Abrigo Montanhês ou Refúgio do Bahú como também era chamado, no topo da Pedra do Baú em 1947

Algumas cenas da saga da conquista e da construção do abrigo/refúgio:


 

Todos da família Dumont Villares sempre foram grandes apoiadores destas aventuras, tal o apreço que o Dr. Luiz Dumont Villares tinha pela região e por uma motivação ainda maior como relatou Paulo Diederichsen Villares, em “A HISTÓRIA DO PAIOL GRANDE”:

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“Após o término da Segunda Guerra Mundial, lá pelos anos de 1946, meu pai, Luiz Dumont Villares, foi procurado por um grande amigo seu, o Dr Job Lane, que era dono do Hospital Samaritano em São Paulo. Disse ele à meu pai:

“Luiz eu conheci um americano lá nos Estados Unidos, que tem um Acampamento de Férias para jovens e perdeu seus dois filhos na Guerra. Em homenagem e lembrança de esses dois filhos, ele gostaria de tocar um acampamento de férias aqui no Brasil, semelhante ao dele, mas precisa de quem de apoio a ele. Você não gostaria de conhecê-lo? “

Assim foi que meu pai numa próxima ida sua para os Estados Unidos, convidou o Mr. Donald D. Kennedy para um jantar em Nova Iorque e o diálogo dos dois foi mais ou menos assim, segundo meu pai:

“Mr. Kennedy, o que é um acampamento de férias para jovens?“

Mr. Kennedy então explicou e explicou, contando o que ele e a mulher dele, Harriet, faziam, no chamado “Camp Kieve”, em Vermont. Era uma oportunidade para jovens meninos, entre onze e quinze anos de idade, aprenderem a desfrutar a natureza, a fazer amigos, através de muito esporte, num ambiente longe da cidade e longe das “saias das mães”.

Meu pai ficou muito impressionado e disse :

“Não temos nada parecido no Brasil”

Mr. Kennedy então respondeu:

“Porisso mesmo que eu tive a idéia de fazer algo semelhante ao que eu tenho aqui, em memória aos meus filhos que perdi na Guerra”

Meu pai voltou para o Brasil, chamou o Dr. Job Lane e ambos juntos resolveram procurar amigos que topassem a ideia de implantar o primeiro acampamento de férias do Brasil.

Não foi difícil reunir um punhado de amigos. O difícil foi realizar a tarefa no curto espaço de tempo que restava, pois o compromisso de meu pai com o Mr. Kennedy, foi o de ter um acampamento de férias pronto para funcionar no verão de 1947!!

Como foi escolhido o local?

Em 1943, no final da construção do Hotel Toriba, em Campos do Jordão, que meu pai fazia com meu avô, Ernesto Diederichsen, o famoso empreiteiro Floriano Pinheiro, que construía o Hotel, apresentou a ele o humilde pedreiro, Antonio Cortez que havia acabado de subir a Pedra do Báu, até então nunca escalada. Era plena Segunda Guerra, mas meu pai ficou tão entusiasmado, aos ter sido levado pelo Antonio, para também escalar a Pedra, que resolveu comprá-la, com idéia de fazer uma escada, e mais tarde, lá em cima, um abrigo, do tipo dos que existiam no Alpes da Suíça, País onde havia estudado.

Queria que “todo o mundo” pudesse escalar a Pedra, afim de desfrutar daquela empolgante natureza.

Foi assim que, anos depois, justamente quando meu pai resolveu levar para a frente a idéia do Mr. Kennedy, que o tal abrigo, em cima da Pedra do Baú estava sendo feito. E numa ida dele, para ver como andava a construção da casinha, em que eu também estava presente; lá de cima, me lembro do seguinte diálogo de meu pai com o Antonio Cortez, que não só havia colocado as escadas e os degraus, mas estava também construindo a casinha. Disse ele:

“Antonio, presta bem atenção. Eu vou explicar para você o que é um Acampamento de Férias para Jovens”

Respondeu o Antonio :

“Pois não Doutor, pode falar ! “

e meu pai, com muita paciência, explicou e explicou, tudo o que havia apreendido do Mr. Kennedy, terminou e perguntou :

“Antonio, você entendeu o que eu falei?“

respondeu o Antonio:

“Entendi sim, doutor”

meu pai então perguntou :

“Então me diga aonde posso fazer esse Acampamento?“

“Lá em baixo“

respondeu prontamente o Antonio Cortez, apontando, lá de cima do Baú, para o vale lá em baixo, onde hoje é o Acampamento Paiol Grande.

Meu pai voltou para São Paulo, reuniu seus amigos, e compraram as terras onde hoje está o Acampamento Paiol Grande.

Porque o nome Acampamento Paiol Grande?

Porque o Acampamento está no Vale do Paiol Grande. A Pedra do Baú está no meio de dois vales. Um chama-se Vale do Baú, fica no lado de campos e Jordão, e ou outro, Vale do Paiol Grande.

E daí?

Daí, após a compra do terreno, foi uma correria incrível!! O Acampamento tinha que ficar pronto em poucos meses! Não dava tempo de contratar um arquiteto. Então, meu pai, pegou os desenhistas do departamento de projetos da Elevadores Atlas, que projetavam as cabines dos elevadores, e juntos foram projetando os primeiros chalés de madeira.

Meu pai havia acabado de comprar seu primeiro avião, um Beechcraft Bonanza,e conseguiu com o Prefeito de São Bento do Sapucaí que fizesse um campinho de aviação na cidade, para assim ele poder sair na hora do almoço do Campo de Marte, onde guardava o seu avião e dar um pulo até o Paiol, afim de ver como andavam as obras. Nos domingos ele me convidava:

“Paulo, vamos dar um pulinho até São Bento, para ver como andam as obras do Acampamento?“

Eu tinha só dez aninhos de idade, mas lá ia de “co-pila”

Como foi a primeira temporada ?

Foi uma aventura total. A piscina não tinha ficado pronta. Era uma piscina de terra, mas muito divertida. Uma lama só ! O prédio do refeitório estava pronto, felizmente, então a gente tinha onde comer, mas o Ranchão, onde a gente iria fazer os eventos fechados, não estava. Faltavam as paredes laterais.

E aí o que aconteceu?

Deu um “pé de vento” e o teto do Ranchão desabou! Ficamos sem o Ranchão no primeiro ano.

E os chalés ?

Tudo bem, mas não tinham água quente. Aliás, assim foi por muito tempo, pois apesar das primeiras temporadas serem de dois meses, era verão, então o Mr. Kennedy entendia que não precisávamos de água quente. Só mais tarde, quando começaram as temporadas das moças, em Julho, com era inverno, então os chalés ganharam água quente.

Resumo da primeira temporada, não havia meio termo, alguns Paioleiros adoraram, mas outros, entre os “grandes”, que ficaram no chalé dos Ventos, detestaram a tal ponto que até FUGIRAM do Paiol.

Qual era a programação no primeiro ano?

Muito esporte, piscina de barro, lutas de Box, longas cavalgadas, banhos de rio de descoberta de cachoeiras, campeonatos de arco e flecha e é claro, muitas subidas na Pedra do Baú. Muitas porque eram dois meses!

Nas cavalgadas, sempre acampávamos em barracas e nunca sabíamos direito para onde estávamos indo, pois não haviam trilhas. Era só mato. À noite, é claro, sempre ouvíamos miados de onças. Não sabíamos que onça não mia e só “esturra” !!!

FOI UMA EXPERIÊNCIA INESQUECIVEL

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Bom, o acampamento é um bela e consolidada realidade, (veja aqui), já o Abrigo Montanhês no topo da Pedra do Baú, não resistiu pois sofreu 2 atos de vandalismo. No primeiro, atearam fogo nas camas e jogaram o sino do alto da Pedra. Mas Luiz Dumont Villares restaurou todo o abrigo e o sino.

Num segundo ato de vandalismo, o abrigo foi totalmente destruído. Atearam fogo em tudo e destruíram a construção e desta vez o Sr. Villares desistiu de reconstrui-lo, tendo em vista os inúmeros atos de vandalismo e destruição do local.

Até o livro de registro de viajantes também foi roubado, e uma parte da história foi perdida com este lastimável ato. Quem sabe um dia quem pegou resolva devolver este imenso patrimônio histórico. O local que teve vários nomes, como Abrigo Montanhês, Refúgio do Bahú, Abrigo do Baú, abrigo Antonio Cortez, etc. e o que restou foram apenas os alicerces da casa, em meio a vegetação local.


BIBLIOGRAFIA/FONTES

  • Matta, Octávio da – Campos do Jordão, a cidade que vi nascer – B.L.Ferrari, Campos do Jordão, 2011
  • Svevo, Celia e Nedopetalski, Sandra – O Toriba na cultura de Campos do Jordão – Metalivros, São Paulo, 2007
  • Campos do Jordão, Histórias de – Jornal Eu amo CJ – #1 – Campos do Jordão, 28/09/2012
  • Acervo Erico Stickel
  • Villares, Paulo Diederichsen – A história do Paiol Grande – Fernando Stickel, 2012

pedrabau

 

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