A cidade de Santos, tem em seu vasto catálogo turístico, uma ocorrência nada comum: edifícios inclinados. Turistas do mundo inteiro acham interessante e registram como um atrativo muito curioso.

Os inúmeros cruzeiros, que partem do hub santista, tem logo na saída ou entrada do porto, uma visão meio caótica das edificações que se alinham na orla, e isto acabou virando atração turística.

Mas a cidade de Santos também não é conhecida só pelo belo jardim a longo da praia (o maior do mundo), mas também por apresentar inúmeros problemas de recalques em edifícios apoiados apenas na camada superficial de areia.

Desde o inicio da ocupação da orla já se sabia da ocorrência de uma espessa camada de argila marinha mole no subsolo santista e dos prováveis recalques que poderiam ocorrer por conta do adensamento.

Por ser região litorânea e pelo fato de ter sido construída em parte sobre antigos terrenos de manguezais, a cidade de Santos tem um dos solos dos mais difíceis do país para a construção de fundações de edificações.

Por esta razão, uma série de edifícios foram erguidos ao longo do passado, sobretudo a partir dos anos 60 com fundações executadas a partir projetos e sondagens equivocadas.

Com a maturação da cidade com o turismo e do veraneio, seguiu-se uma especulação imobiliária, tornou responsável pelos erros, já que os edifícios eram construídos com muita rapidez para abrigar a população transitória de veranistas e de turistas.

Com o tempo, muito desses edifícios passaram a sofrer acentuados recalques, ou popularmente tornam-se “tortos”, ou inclinados, estilo “Torre de Pisa (ou seja, perdem o prumo) aos olhos dos pedestres situados na praia, ou em navegação próxima a orla.

Curiosamente embora possam ocorrer em toda a orla, é numa faixa limitada entre os canis 3 e 6 onde está concentrado o maior numero de edificações com inclinações maiores ou chamados tecnicamente de recalques diferenciais.

Com uma estimativa de cerca de 90 prédios com esta característica, existe portanto uma concentração orla do Boqueirão, Embaré e Aparecida. Pode-se assim definir isto com uma faixa crítica.

 

Faixa considerada a mais crítica.

Faixa considerada a mais crítica.

As soluções que se apresentam são o reaprumo ou a implosão e reconstrução .

Certamente a primeira opção é menos impactante que a segunda, e já foi executada com êxito no edifício que era considerado o mais inclinado da orla, o denominado “Núncio Malzoni”, localizado na Av. Bartolomeu de Gusmão, 17 no bairro do Boqueirão, que tinha mais de 2 metros de inclinação do topo em relação à base (como referencia a inclinação da Torre de Pisa na Itália, é de aproximadamente 4 metros).

 

Mas para controlar a criticidade destas construções a Prefeitura de Santos tem realizado há anos convênios com universidades (USP, Unisanta) institutos como o IPT, para analisar características do solo, das fundações e suas edificações, para entender a dimensão exata do universo de prédios e moradores e caso haja necessidade de alguma intervenção, para garantir a segurança e a preservação do patrimônio, tendo a própria Prefeitura como mediadora na busca de recursos federais, para concessão de crédito diretamente aos proprietários.

A USP por exemplo tem estudos da região desde a década de 40, e foi de vital importância como parceira da Prefeitura e dos moradores da cidade, para orientar ações naquelas edificações
Em 2013 depois de 40 anos de debates técnicos sobre a situação, a prefeitura elaborou um plano de convocar síndicos de 65 edifícios com inclinações entre 50cm e acima, entre a base e o topo, para discutir as condições de segurança das construções. Nesses encontros todos os responsáveis serão notificados a providenciar laudos técnicos estruturais das edificações, e conforme for a análise destes laudos, a municipalidade poderá exigir medidas de estabilização, realinhamentos etc…

Grande preocupação dos moradores certamente é com custos destes laudos, cujos orçamentos iniciais vão de R$ 40 a R$ 200 mil, por conta da valorização imobiliária que a cidade passa.

 

Estes 65 edifícios foram considerados os mais “desalinhados” após 8 anos de estudos que teve inicio em 2004 num trabalho técnico conveniado entre a Prefeitura, a Universidade de São Paulo e a Universidade Santa Cecília de Santos.

Já definido por lei, atualmente todos os síndicos devem enviar a prefeitura anualmente a medição do desaprumo de seus edifícios.

Preocupação nova, como a elevação dos oceanos e o consequente aumento do “encharcamento” das regiões de orla, justificam também todas estas ações da Prefeitura, pois podem contribuir para as alterações das inclinações. Este “encharcamento” já tem sido apontado como responsável por falta de drenagem em solos litorâneos, quando ocorre chuvas, provocando enchentes onde nunca antes havia ocorrido.

As construções novas e mais contemporâneas, já possuem fundações melhores conforme mostra a ilustração, mas enquanto isto a cidade terá que conviver com suas torres de Pisa, com monitorações constantes, para aquilo que possa ser uma atração turística curiosa, não se converta em tragédias e custos sociais elevados.

Comparação das fundações

Comparação das fundações

Veja a Galeria


BIBLIOGRAFIA:

  • vivasantos.com.br
  • Dias, Marianna Silva – Análise do Comportamento de edifícios apoiados em fundação direta na cidade de Santos, 2010 – Escola Politécnica da USP
  • Vídeo TV Tribuna – © Copyright 2014 Globo Comunicação e Participações S.A., globo.tv
  • Vídeo R7 – © Record 2009-2014 Rádio e Televisão
  • Ilustração fundações: Alex Ponciano

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