Lá pelo ano de 1509 numa das cartas de Américo Vespúcio, havia uma gravura que retratava um marinheiro e três mulheres índias que parecem seduzi-lo com a nudez de seus corpos. Mas como hoje nem tudo que se via era o que era as índias, estavam desviando a atenção do aventureiro para que uma outra, segurando um porrete, o acertasse na cabeça.

A gravura ilustrava então prática indígena no Brasil que anos depois poderia ter se tornando realidade com Hans Staden um aventureiro que nasceu na cidade de Homberg, no Estado alemão de Hesse, no começo do século 16. Ainda jovem, se empolgou com o que ouvia sobre as índias e, em 1548, fugiu de casa. Foi para a cidade de Bremen e, depois, para a Holanda. De lá, embarcou, no porto de Campon, rumo a Portugal. Chegando à “Santa Terrinha”, se engajou numa frota que partiria para Pernambuco. Começava sua primeira aventura em terras brasileiras.

Gravura ilustrando a chegada de Hans Staden no porto de Lisboa. Ele está representado a direita com sua barba.

Gravura ilustrando a chegada de Hans Staden no porto de Lisboa. Ele está representado a direita com sua barba.

Na realidade Hans era um aventureiro mercenário alemão do século XVI. Por duas vezes, Staden esteve no Brasil, onde participou de combates nas capitanias de Pernambuco e de São Vicente contra navegadores franceses e seus aliados indígenas, sendo que uma das vezes passou nove meses refém dos índios tupinambás.

Gravura de uma cena de antropofagia presenciada por Hans Staden (ao fundo de barba)

Gravura de uma cena de antropofagia presenciada por Hans Staden (ao fundo de barba)

No Novo Mundo e enfrentou a morte diversas vezes. No Litoral Norte do Estado de São Paulo, onde hoje está localizada a cidade de Ubatuba ele por pouco não foi devorado pelos índios tupinambás que durante 9 meses o engordaram para um banquete que teria como prato principal “aventureiro alemão à brasileira”.

A convivência forçada com os tupinambás ocorreu na segunda passagem de Staden pelo Brasil. Ele saiu do porto espanhol de Cádiz, como marinheiro, para conhecer o Rio da Prata, na Argentina. O navio durante uma tempestade naufragou no litoral de Santa Catarina e dois anos depois, ele conseguiu chegar a São Vicente, reduto da colonização portuguesa, na Capitania Hereditária de Martin Afonso de Sousa. O alemão vagou por vários dias até chegar a Itanhaém, onde foi bem recebido pelos pequenos núcleos de portugueses que já se formavam.

Os portugueses tinham como aliados os índios tupiniquins, que viviam entre Itanhaém e São Vicente. Seu grande temor eram os tupinambás, antropófagos e amigos dos franceses, que viviam mais ao Norte. Para se defender dos tupinambás, que não lhes davam trégua, os lusitanos resolveram construir um forte no canal de Bertioga, que separa a ilha de Santo Amaro, o Guarujá, do Continente. Concluíram a obra, mas esta ficou desativada por algum tempo, pois não havia artilheiro disponível. Quando descobriram que Staden era artilheiro, os portugueses imediatamente o contrataram por quatro meses, enquanto não chegava de Portugal o oficial solicitado para a função.

Mais preocupado em se aventurar pela selva do que zelar pela segurança dos portugueses, Staden saiu um dia à caça de jacus (aves da família da galinha que eram muito comuns na Mata Atlântica) e foi atacado por um bando de tupinambás. Foi despido, amarrado e espancado antes de ser colocado em uma canoa rumo a Ubatuba. Quando chegou à taba dos índios, segundo sua própria narração, as mulheres já lambiam os beiços de gula. O objetivo era amarrá-lo a um poste, esmigalhar sua cabeça com um tacape e devorá-lo. Mas o alemão tinha sorte de sobra e acabou se livrando da morte.

Enquanto Staden aguardava a execução e era insultado pelas mulheres, os dois índios que primeiro o haviam agarrado na selva e que portanto eram considerados seus donos, decidiram libertá-lo. Os irmãos Alkkindar-mirim e Nhae-pepo-açu resolveram dá-lo de presente ao tio Ipiru-açu, que um ano antes os havia presenteado com um escravo. Caberia ao tio sacrificar Staden.

mulheres retalhando

O alemão foi levado para fora e esperava a chegada de Ipiru-açu com seu iverapema, um tacape especial para sacrifícios. Seu novo dono, impressionado com o cabelo de fogo do escravo, resolveu deixar o massacre para mais tarde, quando o alemão estivesse mais gordo. Staden, que era “hóspede” do chefe Cunhambebe, inimigo figadal dos tupiniquins e dos “peros” (portugueses), foi submetido a um processo de engorda, sendo alimentado como um rei. Objetivo: tornar mais apetitoso o futuro banquete dos índios.

Relevo de Staden em Homberg, sua cidade natal

Relevo de Staden em Homberg, sua cidade natal

Para salvar sua pele, Staden começou a dizer que era francês para o chefe tupinambá. O selvagem não acreditou totalmente que o prisioneiro era, na verdade, um aliado. Mas, meio na dúvida, adiou sua execução seguidamente. O aventureiro, então, fez de tudo para ganhar a confiança dos índios. Passou a acompanhá-los em expedições guerreiras e a usar seus conhecimentos na cura de doenças. Presenciou várias cenas de canibalismo, inclusive de Cunhambebe, que devorou a perna assada de um inimigo.

Entusiasmado com a chegada à aldeia de um francês, mercador de pimenta, o aventureiro viu a chance de poder voltar para a Europa. Mas, como Staden falava mal e porcamente o francês, o mercador, muito sarcástico disse que ele era um pero e aconselhou os tupinambás a matá-lo e a comê-lo. Os índios, entretanto, achavam que o alemão ainda não estava no ponto.

Na segunda oportunidade que teve de conversar com o mercador, Staden lhe contou toda a sua história. O francês se arrependeu de sua maldade e convidou o aventureiro a embarcar em seu navio ramo a Iteron (nome provisório de Niterói). O mercador conseguiu convencer os selvagens, que impuseram uma condição: Staden só iria embora se seus pais e irmãos viessem buscá-lo, trazendo um navio cheio de machados, facas, tesouras, pentes e espelhos. Desde esse dia, o aventureiro ficou tranquilo.

Pouco tempo depois, um outro navio francês, o Vataville. aportou naquelas praias e os tupinambás foram convidados a ir a bordo, levando Staden. Dez marinheiros se passaram por irmãos do aventureiro, entregaram bugigangas aos índios e levaram o alemão. Ele estava a salvo, mas ainda não livre de novas aventuras. O Vataville aportou em Iteron e, na saída, viu um barco português que rumava para São Vicente e resolveu atacá-lo.

Após atirar bolas de fogo, mandou Staden junto com os marinheiros para conversar com os portugueses. Mas o pequeno navio luso reagiu e Staden, assim como outros saiu ferido. Por causa desse encontro, o Vataville levou mais de cinco meses para chegar à Normandia. De lá, o aventureiro regressou para sua pátria e resolveu contar sua saga em livro.

Na verdade, o livro não foi escrito por Staden, mais dado a participar das aventuras do que a registrá-las. Ele ditou suas memórias a um médico da cidade de Marpurgo, um tal de doutor Zychmann. Antes dessa obra, os relatos sobre o Brasil eram escassos. Só existiam algumas poucas cartas relatando a vida na colônia portuguesa, entre elas o célebre texto encaminhado por Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel I, comunicando-lhe a descoberta da terra.

“Viagem ao Brasil” é uma importante fonte de consulta sobre os primeiros anos do Brasil, mas exageros e fantasia não faltam nos relatos de Staden.

Em uma passagem, o aventureiro conta que, certa ocasião, foi cercado por 8 mil índios, em Pernambuco. Também há relatos de antropófagos cozinhando portugueses em panelões, utensílios que eles não conheciam. Publicada em 1557, a obra foi traduzida em 23 idiomas, inclusive o japonês.

Por aqui no Brasil, o episódio do aventureiro alemão além de constar nos livros e de pesquisadores de história, ganhou um filme em 1999 “Hans Staden – Lá vem a nossa comida Pulando”, que tem em seu roteiro o próprio relato de Hans”.


Trailer do filme Hans Staden que reapresenta a saga em que o aventureiro quase virou um banquete nas mãos dos Tupinambás em Ubatuba, SP


Bibliografia/Fontes:

  • Whitehead, Neil e Hasrbmeier – Hans Staden’s True History: An Account of Cannibal Captivity in Brazil, Duke University Press – 2008
  • Staden, Hans – Duas Viagens ao Brasil, L&PM, Porto Alegre – 2010
  • Wiki Hans Staden
  • Alves, Odair Rodrigues – Delícia de Alemão, JÁ-Diário Popular #28, São Paulo 1997

hansstaden

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