O ano de 1968, foi um ano turbulento no mundo todo. Nos Estados Unidos, protestos de todas as formas contra a guerra herdada no Vietnã. Na França, milhares protestavam contra o governo de Charles de Gaulle e em maio de 1968 a Universidade Sorbonne foi ocupada; nas ruas principalmente de Paris eclodiam passeatas, greves e barricadas estudantis. Na Tchecoslováquia tanques soviéticos invadiam o país num episódio conhecido como primavera de Praga calando as iniciativas de liberdades do povo tcheco. Martin Luther King e o senador Robert F. Kennedy foram assassinados, a guerra fria amadurecia após a crise dos mísseis em Cuba, os hippies já demonstravam poder com os Beatles e Rolling Stones empunhando sexo, drogas e rock´n´roll, isto para citar alguns eventos do ano e da década tensa.

No Brasil, o momento também era de muita tensão, pois o país tentava se reerguer com os militares, após estes terem sufocado a segunda intentona comunista em 1964. Embora o contra-golpe tenha ocorrido em 1964, na realidade ele começou a maturar a partir de 1961, quando Janio renunciou, e seu vice que já assumira, mostravam tendências comunistas e socialistas e a intenção de implantá-los no Brasil. As forças ocultas que tanto Janio falou para justificar sua renúncia já eram sinais claros vindo do próprio círculo fechado do alto poder. Estas “forças ocultas” já produziam pressão na dupla “Jan-Jan” (Janio e Jango), no início dos anos 60 do século passado.

Com o país destroçado naqueles anos, forças de esquerda inclusive João Goulart ensaiavam mergulhar o país e seguir uma linha pró URSS, China e Cuba, quando forças da sociedade empunharam a ideia do contra-golpe, que foi plenamente executado pelos militares após decisão do Congresso declarar a vacância da presidência.

Esta derrota das esquerdas, que viriam a ser cassados, caçados e exilados produziu um nó na garganta dos derrotados, que certamente iriam produzir efeitos de vingança nos anos vindouros, pois não se conformariam com a derrota de sua intentona comunista.

Na clandestinidade iriam promover sua ideologia em sindicatos, no meio estudantil, no meio artístico, partidos políticos, setores da igreja e de intelectuais, pois uma das maiores virtudes para promover sua revolução seria infiltrar-se nas grandes massas para poder manipulá-las a seus interesses ideológicos. Um dos melhores alvos escolhidos foi a classe estudantil, formado por jovens de fácil manipulação e adestramento.

Neste clima em 1968 existia em São Paulo, mais especificamente na Rua Maria Antonia (Vila Buarque), dois vizinhos bem antagônicos. De um lado a Universidade Presbiteriana Mackenzie, escola particular (regida pela fé cristã evangélica reformada, que começou suas atividades com um casal de missionários, George e Mary Chamberlain, em 1870), que abrigava estudantes e estrutura de apoio a democracia plena regulada pela direita, e do outro lado da rua a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da universidade de São Paulo (USP), onde a esquerda se infiltrou pós contra-golpe de 1964 e se solidificou na massa estudantil, onde até os dias de hoje lá permanece.

Os estudantes da USP usando o garoto morto como troféu ou factóide em passeata por SP, querendo induzir culpabilidade na Polícia ou nos mackenzistas “reaças”. O garoto não estudava em nenhuma das universidades e foi alvejado por uma bala perdida. Por ser tão jovem não tinha nenhuma ideologia política formada.

Os estudantes da USP usando o garoto morto como troféu ou factóide em passeata por SP, querendo induzir culpabilidade na Polícia ou nos mackenzistas “reaças”. O garoto não estudava em nenhuma das universidades e foi alvejado por uma bala perdida. Por ser tão jovem não tinha nenhuma ideologia política formada.

A convivência rancorosa e de “faca nos dentes” ocorria, pois enquanto o culto de Marx na USP era o orgasmo como ensinamento, em frente existia o famoso CCC, Comando de Caça aos Comunistas que abraçava os simpatizantes mais eloquentes da direita democrática, e certamente da extrema direita, ora representada pelos militares no poder. Um de seus castelos era a própria Universidade Mackenzie.

Com o mundo todo vivendo uma guerra fria, entre ditaduras comunistas eternas e a democracia plena da direita explodindo em conflitos era evidente que naquele microcosmo da Rua Maria Antonia, a qualquer momento se tornaria um vulcão em erupção. Nos momentos mais amenos, alunos da USP não podiam estacionar seus automóveis do lado do Mackenzie, e certamente os do Mackenzie não deveriam parar no lado oposto da rua. Quem atravessasse a fronteira imaginária costumava ter seu carrinho danificado.

“Não podia mesmo nem frequentar os mesmos lugares que a gente frequentava. Não assistíamos aos mesmos shows, não sentávamos nas mesmas mesas. Éramos adversários nos esportes e tudo mais. Aquilo tinha tudo para terminar do jeito que terminou. Haviam outros elementos na disputa ideológica, pois mesmo na clandestinidade, as principais entidades estudantis (UNE e UEE) dominavam os centros acadêmicos da USP. Células da Ação Popular (AP), do Partido Comunista e de grupos armados também começavam a frequentar seus corredores. Já no Mackenzie, policiais civis e militares misturavam-se aos universitários e a FAC (Frente Anticomunista) e o MAC (Movimento Anticomunista). O curso de Direito era o mais procurado por aqueles que sonhavam, por exemplo, tornar-se delegados.

Um dia o caldeirão explodiu:

BLUELINEPor dentro da Batalha (como ficou conhecido o episódio):

“Estava tudo calmo até o dia 2 de outubro de 1968. Alguns estudantes faziam pedágio na rua Maria Antônia, para conseguir fundos para a participação em mais um evento clandestino da UNE

— “Ei, senhora, gostaria de nos ajudar com alguma coisa para participarmos do Congresso da UNE?” ,dizia um estudante no pedágio, próximo à Faculdade de Filosofia da USP.

“Foi quando surgiram os “mackenzistas”, conta Pedro Jaime, funcionário do Mackenzie. Do lado da USP, os estudantes eram liderados pelo presidente da União Nacional dos Estudantes, Luís Travassos, e pelo presidente da União Estadual dos Estudantes, José Dirceu (CAMARADA DANIEL). Os estudantes portavam pedras, bodoques e coquetel molotov.

Do outro lado, no Mackenzie, os mackenzistas estavam preparados para o combate com bombas de ácido misturado a cal virgem, rojões, pedras, bodoques e também coquetel molotov. “Não foi um confronto entre as duas instituições Mackenzie versus USP, mas entre os estudantes da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (esquerdistas radicais) contra os estudantes mackenzistas, considerados de centro-direita, conta José Dirceu”.

Segundo os protagonistas da época, tudo começou porque alguns alunos do Mackenzie que eram contra a interdição da rua para o pedágio, atiraram ovos em estudantes da Filosofia da USP.

“ Mas o que se viu foi alarde do tipo “Corre, corre, corre… os caras estão jogando bomba”. Corre, cara, quer morrer aqui? Vão matar gente lá dentro, vamos ficar afastados dessa zona toda”.

Ao longe a polícia observava. De um lado da rua, ouvia frases como “lança neles”. Do outro lado, ouvia o pessoal da USP gritar: “Milico desgraçado!”.

O objetivo da briga era a ocupação do centro universitário da USP, que funcionava como um grande centro do movimento estudantil paulista todos da esquerda radical . O curso de filosofia e o centro universitário ficavam no prédio da Maria Antônia.

“Os dois lados da rua se revezavam em ataques e contra-ataques. Era só uma turma dar alguns passos para trás para o outro grupo assumir uma postura mais agressiva.

Eram ondas de fúria e valentia. Quase uma briga com coreografias. Quando a Filosofia parava para tomar fôlego e se reabastecer de pedras e outras armas, o Mackenzie vinha para cima com tudo o que estivesse à mão. No chão, centenas de pedras e fragmentos de tijolos. Uma nuvem espessa de poeira cobriu o quarteirão. Havia fumaça em toda a extensão da Maria Antonia. Era uma guerra, de um lado querendo defender a democracia de fato e do outro o comunismo outrora derrotado”.

Alguns calouros se entusiasmaram e foram com Jose Dirceu disparar rojões por cima dos muros altos do Mackenzie.

A batalha da Rua Maria Antonia, como ficou conhecido o episódio, que àquela altura havia amainado, recrudesceu. Os rojões foram respondidos pelo outro lado com mais rojões, coquetéis molotov e tiros.

Na confusão houve um saldo da batalha trágico: um estudante secundarista José Carlos Guimarães (20 anos) provavelmente ligado a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) foi morto com um tiro na cabeça não se sabe por quem (apesar das acusações mútuas). Outros três universitários foram baleados e dezenas ficaram feridos.

O Estado de S.Paulo - 04/10/1968, destacando a morte do estudante, e da depredação da cidade pelos estudantes da USP, liderados por Travassos e Dirceu.

O Estado de S.Paulo – 04/10/1968, destacando a morte do estudante, e da depredação da cidade pelos estudantes da USP, liderados por Travassos e Dirceu.

Dirceu, aliás, foi um dos que discursaram pela morte do estudante secundarista. Ele comandou uma assembléia que decidiu que os estudantes sairiam em passeata pelo centro de São Paulo.

Apesar da morte, a batalha prosseguiu até que o prédio da USP foi incendiado, precipitando após, a transferência da faculdade para o atual campus Armando de Salles Oliveira, no Butantã.

O estrago na então faculdade de Filosofia da USP foi tão grande que o prédio ficou fechado e só muitos anos depois foi reformado, dando lugar ao Centro Universitário Maria Antonia.”

O destaque dado pela destruição e incêndio do edifício ocupado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e pela reação dos estudantes do Mackenzie ao fechamento da rua para o pedágio que financiaria a reunião clandestina da UNE em Ibiúna. O Estado de S.Paulo - 05 /10/1968.

O destaque dado pela destruição e incêndio do edifício ocupado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e pela reação dos estudantes do Mackenzie ao fechamento da rua para o pedágio que financiaria a reunião clandestina da UNE em Ibiúna. O Estado de S.Paulo – 05 /10/1968.

Uma guerra impossível de ser impedida que ficava cada vez pior. Agora, além dos ovos, paus e pedras, os estudantes usavam também rojões, coquetéis Molotov e até garrafas com ácido sulfúrico.

A polícia foi chamada e acalmou os ânimos. Por pouco tempo. O tempo suficiente para que os dois lados pudessem preparar e rever suas estratégias.

No dia seguinte a guerra foi deflagada de uma vez. Artilharia pesadíssima foi utilizada desde as primeiras horas da manhã. Inclua aí rojões com ácido que vinham atingir em cheio as salas da USP, fios elétricos colocados estrategicamente no portão da Mackenzie para eletrificá-lo (brilhante, não?), tiros de ambos os lados, molotov, pedras, paus, etc.
A polícia tentava intervir, mas em vão. Pipocavam bombas de gás lacrimogênio de ambos os lados. Os fios de alta tensão foram atingidos, fabricando um lindo e trágico espetáculo pirotécnico. Gritos, correria, fumaça, escombros, sangue….

A certa altura, ambos os prédios tinham focos de incêndio. O patrimônio de ambas as universidades estava sendo sumariamente destruído pelos próprios estudantes.
José Dirceu (aquele mesmo do PT) soltava frases de efeito: “As violências da direita estão sendo respondidas pela violência organizada do povo e dos estudantes“, ou “Vamos esmagar a reação“

Mas povo ali mesmo só existia na retórica esquerdista, pois com o conflito em curso a população se retirou do local, ficando só os estudantes.

E a primeira morte acontece, o secundarista do Colégio Marina Cintra. A notícia da morte caiu como uma bomba entre os estudantes da USP. Rápidos, mudaram a estratégia e organizaram uma passeata pelas ruas de São Paulo. De quebra ainda queimaram carros pelo caminho. Como sempre a cidade virou um caos. A morte do estudante foi usada como troféu pelos esquerdistas radicais da USP, que com a camisa ensanguentada do estudante, tomaram as ruas de São Paulo e entraram em choque com a polícia, que tentava garantir o direito de ir e vir da população.

Os estudantes se manifestavam com barricadas, pregos para furar os pneus dos carros da polícia e bolas de gude para derrubar a cavalaria, molotovs, paus ente outras. O jovem José Dirceu, que não era universitário, entre outros, liderou a ocupação da rua Maria Antônia porém, ao ver o tamanho da confusão e tragédia, se “retirou de fininho”.

No tocante a batalha da Rua Maria Antonia, duzentos e quarenta soldados da Força Pública, cem cavalarianos, dois tanques e cinqüenta cães se dirigiram para lá e pelas imediações.

Já ao fim da batalha, a polícia invadiu os prédios da Filosofia-USP e da Universidade Mackenzie e dezenas de estudantes foram presos.

O Estado de S.Paulo - 04 e 05 /10/1968 destacando a ocupação das universidades e o espólio da Batalha.

O Estado de S.Paulo – 04 e 05 /10/1968 destacando a ocupação das universidades e o espólio da Batalha.

Ao todo foram 3.000 estudantes do Mackenzie e 2.500 estudantes da Faculdade de Filosofia da USP em mais de 36 horas de conflito que não se resumiu a própria rua mas sim em todo o centro da cidade. O episódio acabou por contribuir intensamente para a instituição do AI-5.

BLUELINE

Todos esses conflitos ganhavam as atenções do mundo inteiro e podiam ser vistos na Rua Maria Antônia e no centro de São Paulo. Foi nesse pequeno espaço, com menos de 500 metros de extensão, que o País se reconheceu em 1968. A rua resumia a alma daquele ano e década tão intensos. As revoluções políticas e culturais e a Guerra Fria eram vizinhas naquele microcosmo e se portaram como no restante do mundo.


Um cenário de guerra, com escombros, morte, feridos e total subversão da ordem que o mundo todo assistiu

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Se a batalha da Rua Maria Antonia, foi um dos eventos com elementos do revanchismo pela derrota da 2ª intentona comunista, ou seja, não vingou (tal como a 1ª, com a Coluna Prestes nos anos 20), as ameaças ainda permaneceriam e iriam iniciar uma nova ofensiva que praticamente começou a ser colocada em prática com a derrocada da era Collor.

Uma nova estratégia lenta e gradual se iniciaria em todas as instituições públicas e privadas que teria ainda elementos previamente preparados na constituinte de 1988 e se infiltraria paulatinamente nos meios intelectuais, artísticos, nas universidades criadas dos anos 2000, na ampliação de financiamentos públicos a inúmeras ONGs, sindicatos, centrais sindicais, imprensa, etc. de modo a conseguir o que podemos certamente chamar de a 3ª intentona, que está em pleno andamento. Os estudantes são mais um recurso de manipulação associados aos descritos acima. Também nos aproximamos de ditaduras comunistas e se afastamos do 1º mundo que rege as questões globais de desenvolvimento e democracia plena.

Alterou-se a estratégia, mudou-se os “players”, mas a execução das etapas continua a mesma, ou seja, obstruções urbanas, destruição de patrimônios, incêndios em veículos, depredações, violência descabida contra o alheio, atentados de todas espécie, enfim, o que ocorria nos anos 60, 70, retornaram neste século 21 com a mesma cara, porém com chance de sucesso maior, pois a intenção de mudança do sistema se instalou na camada superior dos poderes. As bandeiras e cores vermelhas tremulam com destaque em muitas situações.

Resumidamente é mais do mesmo, e o Brasil se comporta como um cachorro que persegue o rabo. Se outrora tivemos algum lampejo de ser um país do futuro, hoje se tornamos um país do passado ou voltado a ele, querendo usar um sistema que não deu certo, e que jogou nações inteiras no sucateamento político, moral e social, e que tentam há décadas voltar ao caminho normal que perderam no passado.

Fontes/Bibliografia:

  • Arquivo Público do Estado de São Paulo com acervos do Estadão,Última Hora,Folhapress
  • PMESP,Acervo Pessoal

1968

 

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