Não se trata de qualquer discussão sobre a independência do Brasil, como o título quase sugere, mas sim contar um pouco da história de um ícone paulistano, o edifício Copan, situado na avenida Ipiranga, 200. A gigantesca estrutura de concreto armado, uma das maiores do mundo está completando 50 anos neste mês, e colecionando um legado de histórias tanto na concepção do projeto de sua construção e relatos dos milhares de moradores que lá residem ou residiram em algum momento.

Fosse possível documentar tal história em detalhes, teríamos uma enciclopédia de vários volumes e dinâmica pois os fatos pitorescos permanecem ocorrendo com a gigantesca obra, um dos pontos turísticos de São Paulo.

A mega construção em “S” ícone de turismo e um dos símbolos de São Paulo, tendo a sua frente um edifício menor atual sede do Bradesco em SP que era para ser um Hotel de luxo. Neste local existia a famosa Vila Normanda, removida para a construção do então intitulado Rockefeller Center de São Paulo. Talvez se fosse hoje com tantas leis e instituições de proteção de patrimônio, a vila seria preservada e o Copan com seu hotel não seriam construídos.

A mega construção em “S” ícone de turismo e um dos símbolos de São Paulo, tendo a sua frente um edifício menor atual sede do Bradesco em SP que era para ser um Hotel de luxo. Neste local existia a famosa Vila Normanda, removida para a construção do então intitulado Rockefeller Center de São Paulo. Talvez se fosse hoje com tantas leis e instituições de proteção de patrimônio, a vila seria preservada e o Copan com seu hotel não seriam construídos.

Tudo começou em 1949 quando o empresário norte-americano Nelson Rockfeller, através de sua gigantesca companhia, a PanAmerican World Airways (PanAm), criou uma subdisiária chamada Intercontinental Hotels Corporation, que tinha como pretensão construir um hotel de luxo na região badalada no centro de São Paulo, à Avenida Ipiranga, onde hoje está o edifício da agência central do Bradesco.

Esta empresa então se associa ao empresário Roxo Loureiro, então proprietário do banco BNI (Banco Nacional de Investimentos), que já havia trabalhado com Oscar Niemeyer em outros edifícios de SP, entre eles o Edifício Montreal e o Edifício e Galeria Califórnia.

Propaganda no “Correio Paulistano” destacando a construção do Rockefeller Center brasileiro pelas companhias COPAN e BNI.

Propaganda no “Correio Paulistano” destacando a construção do Rockefeller Center brasileiro pelas companhias COPAN e BNI.

Desta parceria nasceu então a Companhia Panamericana de Hotéis e Turismo (CoPan), e Oscar Niemeyer contratado faz um projeto de um grande complexo arquitetônico durante todo o ano de 1951, que além de aspectos residenciais deveria ter grande apelo turístico, que deveria ser inaugurado para as comemorações do IV centenário de São Paulo.

Esse grande projeto, imaginado e intencionado por Roxo Loureiro, teria além do hotel de luxo, um edifício de apartamentos, um teatro, cinema, restaurantes, centenas de lojas, jardins suspensos e piscina. Niemeyer reformulou o projeto do hotel e acrescentou os demais elementos de Roxo Loureiro dos quais existe o hoje edifício que conhecemos como Copan.

A ideia de Roxo e por influência societária era inspirada no Rockefeller Center, de Nova York, um condomínio que agrupava um grande centro comercial, e de lazer, assim como várias unidades residenciais. A campanha publicitária que lançou o empreendimento previa uma “chuva de dólares para o país” advinda de receitas do turismo, além claro, das receitas das unidades comerciais e residenciais. O projeto quando executado também acabaria com a Vila Normanda, tradicional vila europeia que existia no local (veja).

Mas o sonho começou a ruir já no início, pois em questão de alguns meses o governo federal liquidou extrajudicialmente o Banco Nacional Imobiliário (BNI), que era o responsável pelo repasse dos investimentos, provocando desinteresse da PanAm, a principal financiadora do projeto.

As obras que já tinham sido paradas no segundo andar em 1954 apresentando problemas com a movimentação das suas fundações, junto com a própria falência do BNI, viriam a parar por 5 anos e acabar com a intenção de ser um dos eventos para as festividades de 400 anos da cidade de SP.

Ainda assim em 1957 com a absorção do BNI pelo Bradesco foi possível retomar e concluir a obra do Copan, que no lugar do sonhado hotel o banco construiu seu edifício-sede de sua agencia central seguindo a volumetria e concepção original do projeto de Niemeyer, que teve como linha de frente o arquiteto Carlos Alberto Cerqueira Lemos, o executor da obra e chefe do então escritório de Oscar Niemeyer em São Paulo.

Com a Bradesco assumindo o projeto, o edifício Copan foi então vendido muito barato, tendo sido quase comercializado a preço de custo, para permitir a conclusão das obras, que foram retomadas em 1960 e que fluíram até 1966, quando finalmente sai um “habite-se” parcial, e que é considerada a data oficial de sua inauguração, portanto longe das festividades do quarto centenário de SP (1954). O alvará definitivo só viria em 1970 e sua construção praticamente durou 18 anos.

Elaborado dentro de um modernismo por Oscar Niemeyer na década de 50, desde a sua publicação na revista Architecture d’aujourd hui” em 1950, o projeto sofreu inúmeras modificações, pois em seus primeiros rabiscos, o edifício sinuoso possuía apenas 12 andares, portanto muito diferente dos 38 pavimentos de hoje. Um dos blocos do edifício que deveria existir um apartamento por andar foi totalmente modificado para oferecer inúmeros apartamentos de 1 dormitório e kitnets, o hotel previsto de 20 andares em frente ao sinuoso Copan, até foi construído, mas como mencionado virou edifício sede do Bradesco em SP, e os detalhes de sua ligação com o prédio residencial não foram realizados. Algumas outras modificações ocorreram ao longo dos anos e o Copan, após todos os percalços envolvendo a sociedade com o BNI e a CIA Panamericana, sofreu mais alterações que qualquer arquiteto poderia aceitar.


As histórias do Copan, por seus moradores e pela mídia que não deixa de dar destaque sempre que há oportunidade. Apesar de todos os problemas antes, durante e depois o Copan sempre é assunto acumulando histórias de toda ordem.  


O gigantismo monumental parece também não ter agradado o arquiteto.

Com este quadro e embora Niemeyer nunca tenha visitado as obras de seu projeto e já se afastando dele devido ao seu envolvimento com os projetos de Brasília, o Copan se tornou um dos projetos renegados de Niemeyer em São Paulo.

Em 1997, um ex-ministro de Estado revelava um diálogo que manteve com o arquiteto quando os dois, caminhavam pela avenida Ipiranga:

“ Olha o Copan aí!

Que prédio é esse?

Uai, você não se lembra?
O projeto é seu!

Não, não me lembro desse
prédio.

Há uma crença que não só com relação ao Copan, mas Niemeyer não dá muita importância a projetos residenciais na Paulicéia, embora sejam obras de relativa importância estética e de inovação na cidade.

Os outros edifícios renegados pelo arquiteto em SP são:

O Edifício Eiffel na praça da república o primeiro da cidade com o conceito de apartamentos “duplex”

Edifício Montreal também na Avenida Ipiranga (com Casper Líbero) o primeiro de Niemeyer em SP (1950),

Edifício e Galeria Califórnia na rua Barão de Itapetininga onde ele já implementa as colunas em “v” adotadas também no Copan e em construções no Parque do Ibirapuera e o

Edifício Triângulo localizado próxima da Praça da Sé, também financiado pelo BNI.

Um ator (Adão Filho) que morou no Copan pode ter encontrado uma explicação para este estado de “renegados” do arquiteto, quando disse: “Acho o Niemeyer um grande criador de monumen­tos, de museus e de palácios, não de residências”.

Seja como for a história deste mega-edifício tem muito mais detalhes que a bibliografia abaixo mostra, mas esta obra é gigantesca como outras que a cidade abraça. Aliás é uma cidade dentro da cidade, pois o edifício em forma de “S” tem:

  • 1.160 apartamentos,
  • mais de 5000 moradores,
  • mais de 20 mil pessoas circulam no prédio diariamente,
  • um orçamento de 6 milhões de reais,
  • 38 pavimentos sendo 3 comerciais,
  • 20 elevadores,
  • 2 subsolos com 221 vagas de estacionamento,
  • mais de 100 funcionários,
  • é maior que mais de 1,2 mil  municípios brasileiros(IBGE 2014),
  • tem um CEP próprio que é o de número 01066-900, diferente do CEP da Avenida Ipiranga onde ele se situa,
  • 120 mil m² de área construída,
  • 82 lojas em seus pavimentos comerciais,
  • seu síndico Affonso Celso Oliveira há dezenas de anos administrando o Copan é considerado um prefeito,
  • suas lojas empregam em média 950 pessoas,
  • possui 1.800 linhas de telefone,
  • seu consumo de energia é de 30.000kW/mês
  • o consumo de água, um milhão de litros/dia,
  • Tem uma produção de três toneladas de lixo/dia
  • Já foi certificado no livro Guinness, como o maior edifício residencial do mundo (hoje é da América Latina).

Embora tenha sofrido também com a degradação da região central de São Paulo no final da segunda metade do século passado, o Copan ressurgiu graças ao empenho de seus moradores, seu síndico e por uma série de ações públicas e privadas de revitalização central. È considerado uma construção com a cara de São Paulo, dada a diversidade de seus moradores, onde pode-se encontrar ricos, pobres, empresários, artistas, gente de várias regiões do Brasil e de fora, profissionais de várias categorias, várias religiões, etc.

O mega-edifício tem inspirado escritores, cineastas, fotógrafos e outros artistas do mundo todo. Em 1994 a escritora brasileira Regina Rheda lançou o livro de contos Arca sem Noé – Histórias do Edifício Copan, que ganhou o prêmio Jabuti no ano seguinte.

O conto “O mau vizinho”, presente no livro, recebeu o prêmio Maison de l’Amérique Latine em 1994. Arca sem Noé — Histórias do Edifício Copan está publicado também em inglês com o título de Stories From the Copan Building, dentro do volume First World Third Class and Other Tales of the Global Mix, publicado pela University of Texas Press.

Recentemente o Copan também ganhou página no “The Economist” contando um pouco de sua história nestes seus 50 anos. O periódico inglês alega que apesar de sua grandiosidade o prédio mantém sua “graciosidade” no meio urbano e caótico de São Paulo:



E ele tem concorrente de peso em sua volta, como o edifício Itália, o segundo maior da cidade e o supercentro paulistania com sua forma circular que durante anos foi o São Paulo Hilton. E hoje e já de algum tempo as margens da Avenida não são tão plácidas assim…

“Oscar Niemeyer(1907-2012), tinha mágoa com o que fizeram com seu projeto, mas em 2002 quando apresentei as reformas que queríamos fazer no Copan, o arquiteto fez as pazes com sua obra após tê-la renegado por anos”, disse Affonso Celso Oliveira, síndico prefeito do edifício Copan.

Aliás atualmente o edifício passa por uma reforma de sua fachada com um custo aproximado de 23 milhões de reais, sendo executada com alguns conflitos com a Prefeitura de São Paulo, já que o edifício é tombado pelo patrimônio histórico.


Uma gigantesca tela azul que é vista de vários pontos da cidade cobre toda a fachada frontal que ora se encontra em reformas para remoção do mosaico de pastilhamento. A duração deste trabalho é de 3 anos.
 

Parabéns Copan !!!

 

Bibliografia/Fontes:

  • Lemos, Carlos A. Cerqueira – A História do Edifício Copan, Imprensa Oficial SP – São Paulo, 2014
  • Rheda, Regina – Arca sem Noé, Editora Record – Rio de Janeiro, 2010
  • Imagens e vídeos (p/o): Acervo Pessoal e RIT Notícias, Globo.tv, TVGazeta, TVEstadão, Fapsp Faculdade, IPTV_USP, JovenPanTV, FolhaPress, TVFolha
  • Manfredini, Sandra – Rejeitados por Niemeyer, Diário Popular-JÁ #27- São Paulo (11/05/1997)

copan

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