É inquestionável a importância e a qualidade do museu instalado na Pinacoteca de São Paulo, contudo sua edificação com aqueles tijolos centenários expostos, parte de um projeto que não acabou-se concluindo no início do século passado, nos dá uma impressão de uma construção de pós-guerra. Há razões históricas e contemporâneas para isto, como segue:

O atual edifício da Pinacoteca do Estado de São Paulo foi na realidade construído originalmente para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo a partir de um projeto feito por Ramos de Azevedo e Domiciano Rossi em 1896. Pode se dizer que à época estava ligado à cultura e o ciclo do café, da imigração e da industrialização que estava se iniciando em terras paulistas, e o liceu acabou por se tornar um centro de referência na formação de mão de obras para aquela nova era de São Paulo.

A edificação neoclássica acabou sendo inaugurado incompleto em 1900, situado em um terreno de 7.500 m2 na Av. Tiradentes, uma das principais vias de acesso à área central da cidade de São Paulo, ao lado da Estação da Luz, construída pelos ingleses no final do século XIX.

Mas como Pinacoteca, e um dos mais importantes espaços de artes plásticas do Brasil, ela abriu ao público em novembro de 1905 com 26 obras transferidas do Museu Paulista, ou como, conhecido Museu do Ipiranga.

Para receber as obras, parte do prédio do Liceu, onde eram dados cursos de artes, foi necessário fazer adaptações que atendessem às condições museológicas necessárias as pinturas reunidas em três salas do segundo andar convertidas num único salão de exposições.

Para a luz não ir diretamente para as obras penduradas nas paredes do salão nove janelas existentes no entorno foram fechadas e no lugar delas, abriu-se no teto uma claraboia cuja claridade podia ser regulada por um dispositivo de tecido semitransparente, conhecido por “plafond”. Como Pinacoteca, ela teria sua oficialização legal através de um projeto de Lei de nº 1.271, em 21 de novembro de 1911, do deputado estadual José de Freitas Valle, fato este que ocorreu após a realização da 1ª Exposição de Belas Artes.

Já em 1912, um recém-criado Pensionato Artístico, instruía que bolsistas deveriam depositar um trabalho original de suas autorias no Museu, o que originou naquele mesmo anos a publicação do primeiro catálogo das obras da então nova Pinacoteca. Para se ter uma ideia, se em 1912 o catálogo pioneiro possuía apenas seis páginas, 57 anos depois (em 1969), o catálogo passaria para duas mil, cresceria para seis mil em 2006, e para 9 mil em 2013, tornando-se um espesso livro de artes.

Como era o belo projeto do Liceu (1897), que viraria a Pinacoteca caso fosse concluído

Como era o belo projeto do Liceu (1897), que viraria a Pinacoteca caso fosse concluído

Como é a edificação que restou nos dias atuais (2014)

Como é a edificação que restou nos dias atuais (2014)

Mas ao longo de sua existência, a Pinacoteca enfrentaria uma série de situações críticas, pois como fato comum na administração estatal em nosso país, os prédios púbicos acabam sendo de muitiuso com mais de um ocupante, e com usos incompatíveis com as condições físicas existentes e uma certamente uma precária manutenção.

Por conta disto, outras instituições públicas também vieram a se instalar, na edificação da pinacoteca/liceu, como a Polícia Militar, o Conservatório de Música, a Escola de Artes Dramáticas e a Faculdade de Belas Artes. Além disto, por ocasião da revolução de 1932, o prédio da pinacoteca foi requisitado para o Batalhão Militar Santos Dumont, e as obras tiveram que mudar de prédio, e que após a dispersão de parte de seu acervo, foi instalada provisoriamente numa antiga sede da Imprensa Oficial, sita à Rua Onze de Agosto.

Apenas em 1947 o museu retornaria em definitivo para seu o prédio atual, na Av. Tiradentes. Contudo a edificação por conta de toda esta utilização, por vários órgãos e finalidades, teve como agravante várias intervenções e adaptações realizadas ao longo desses anos que acabaram por comprometer a situação do edifício.

Mas em 1994, uma enorme reforma é iniciada cuja conclusão só se deu em 1998, com um projeto de Paulo Mendes da Rocha que foi avaliado como uma intervenção que buscava adequar uma função já “instalada” em um prédio que não havia sido originalmente construído para tal finalidade, já que era para o Liceu de Artes e Ofícios.


Neste conjunto de vídeos, enquanto se apresenta a história, os acervos e a dinâmica do museu é possível observar os aspectos arquitetônicos e externos e internos da edificação da Pinacoteca, outrora Liceu de Artes e Ofícios.


Diferentemente de situações em que se lida com “restaurações” no sentido mais verdadeiro, revitalizações ou reciclagens com alterações de uso, o presente caso da Pinacoteca tinha a sutileza de constituir-se em uma adaptação do edifício para um “novo uso” que já estava presente. Tratava-se, por assim dizer, da busca de uma solução coerente e definitiva para uma realidade gerada por improvisos e atitudes pontuais ao longo do tempo.

As principais intervenções concebidas pelo arquiteto e sua equipe, relativas às questões funcionais, foram::

  • Inversão do eixo principal do edifício: o acesso principal passa a ser pela lateral que dá para a Praça da Luz e não mais pela Av. Tiradentes, sendo retirada a escadaria existente e implantado em seu lugar um belvedere;
  • Circulação interna: antes realizada pelo contorno de dois pátios e do octógono central, é transferida para as passarelas metálicas implantadas sobre os pátios, nos dois níveis superiores;
  • Cobertura dos pátios internos: execução de estrutura metálica e vidro;
  • Implantação de um auditório para 150 pessoas no nível inferior.

Estas adequações e adaptações foram cruciais para o crescimento do museu, que no ano de seu centenário (2005), teve grandes exposições comemorativas e de grande porte, atingindo a marca de 400 mil visitantes.


Suas instalações se revelam também acusticamente boa, como mostra este flashmob ocorrido em 2013


Com toda esta turbulenta história a pinacoteca do Estado de São Paulo, apesar de possuir uma edificação inacabada e tão problemática durante sua história é um dos mais visitados museus do Brasil, tendo nos dias atuais mais de 500 mil visitantes ao ano, que além de uma funcionalidade de museu, possui objetivos educativos e de preparação de artistas, além de inclusão social, ícone turístico e reconhecida internacionalmente. Vale sempre visita-la.

Para saber mais:

http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca-pt/

ou

http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca-en/


Bibliografia/Fontes:

  • Camargos, Marcia – Musa Impassível – Imprensa Oficial do Estado, 2007
  • GORSKI, JOEL – Reciclagem de uso e Preservação Arquitetônica – UFRGS, 2003
  • Imagens Liceu de Artes e Ofício: Arquivo Histórico de São Paulo
  • Google Street View
  • Cultura, Secretaria de Estado – 2007/2010 Cultura – Imprensa Oficial do Estado, 2010

pinacoteca

 

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