Seis de Novembro de 2012, o viaduto do chá, completou 120 anos, de grande espectador das transformações e do cotidiano da cidade de São Paulo.

Hipoteticamente, um cidadão bicentenário, que tivesse a obrigatoriedade de circular pelo viaduto do chá nestes anos todos, certamente teria como histórico a contemplação:

  • de grandes plantações de chá e verduras sendo irrigadas pelo rio Anhangabaú e até vacas de leite pelo local,
  • veria depois, a construção de vários sobrados todos iguais no vale do Anhangabaú,
  • veria a grande reforma do viaduto ainda de metal,
  • pagaria um pedágio para circular nele,
  • veria e andaria de bondes nele,
  • e depois contemplaria construção de um novo viaduto ao lado totalmente de concreto,
  • veria a canalização do rio anhangabaú ,
  • veria os belos jardins franceses que substituíram as grandes chácaras,
  • veria os grandes palacetes europeus sendo demolidos para construção de enormes edifícios de vidro, acompanhando então a transição de cidade de estilo europeu para uma cidade contemporânea do novo mundo,
  • veria a substituição destes jardins pelas grandes avenidas de ligação norte-sul da cidade,
  • veria os desfiles da comemoração do 4º centenário da cidade ,
  • veria os desfiles do Jogos Pan-americanos de 1963,
  • veria vários suicidas se jogando do viaduto para o fundo do vale,
  • veria desfiles militares e de carnaval ,
  • veria inúmeras obras para aterrar o fluxo viário,
  • veria vários protestos da população,
  • veria vários shows e comemorações,
  • veria algumas enchentes e acidentes,
  • veria o esvaziamento da região para outras áreas da cidade em crescimento,
  • veria o apogeu e queda das lojas Mappin,
  • veria a construção e inúmeras reformas do teatro Municipal,
  • veria a construção e inauguração do edifício Alexandre Mackenzie, que se tornaria sede brasileira da São Paulo Light & Power, que depois se tornaria apenas Light e viraria Eletropaulo, atualmente Shopping Light,
  • ouviria falar da linha de metrô que a Light construiria sob o viaduto em 1927,
  • veria várias apresentações de artistas populares,
  • veria vários grupos de hippies vendendo suas bugigangas em suas calçadas, nos anos 60/70
  • veria inúmeras sessões de filmagens e de peças publicitárias,
  • e muito mais…..

Com isto o viaduto do Chá é um testemunho da história e das transformações que a área central da cidade sofreu nestes 120 anos. Inaugurado no dia 6 de novembro de 1892, um dos principais cartões postais de São Paulo levou 30 meses para ser montado. O objetivo era construir uma passagem sobre o Morro do Chá, como era conhecida a área da chácara da baronesa de Tatuí onde existia essas plantações, e foi uma proposta do litógrafo Jules Martin.

Antes da construção do viaduto, para ir da hoje Rua Líbero Badaró para a hoje praça Ramos de Azevedo (Teatro Municipa)l era preciso descer uma encosta, atravessar uma tal de ponte do Lorena sobre o rio Anhangabaú e subir a Ladeira do Paredão, atual Rua Xavier de Toledo.

Na rua Líbero Badaró existia a chácara e a casa da Baronesa de Tatuí, que se opunha ferozmente à construção do viaduto. Onde hoje se encontra o Teatro Municipal era uma serraria do alemão Gustavo Sydow fazendo vizinhança com a chácara do Barão de Itapetininga, margeada pelas ruas Formosa, 24 de maio e D. José de Barros.

O panorama do vale sob o viaduto próximo a data de inauguração, mostrando as chácaras de chá e verduras. No lado esquerdo as terras do Barão de Tatui e as da direita o inicio das terras do Barão de Itapetininga (e depois da Baronesa de Itú)

No dia de sua inauguração, vários pessoas se aglomeravam no centro de São Paulo, ansiosos para assistir à grande inauguração do Viaduto do Chá. Com as ruas laterais enfeitadas de flores, bandeiras e uma iluminação especial, o Presidente do Estado como era a hierarquia política na época, Bernardino de Campos, juntou-se a população e aos funcionários da administração paulistana, a outras autoridades, e do clero para cortar a fita verde e amarela e triunfalmente atravessar o viaduto.

Ilustração da inauguração do primeiro viaduto em 1892.

No dia seguinte a inauguração, conforme acertado, passou-se a cobrar três vinténs (60 réis) para a passagem de cada pedestre. O pedágio tinha validade por quatro anos, quando sob protestos da população, uma decisão da Câmara Municipal pagou à construtora um alto valor para cessar a cobrança.

O bucólico cenário em 1895, na esquina do viaduto com a atual rua Cel. Xavier de Toledo, onde hoje se localiza do shopping Light.

A história do viaduto inicia-se com o francês Jules Martin, morador da capital, que teve a ideia de construir uma ligação direta entre a Rua Direita e a Rua Barão de Itapetininga por sobre o vale do Anhangabaú . Na vitrine de um ateliê, na Rua da Constituição, os paulistanos tomaram contato com o primeiro projeto do Viaduto do Chá. A ideia agradou tanto que em 1877 mereceu uma notícia na Província de S. Paulo (atual O Estado de São Paulo).

“Está nas vidraças do Sr. Jules Martin um belo quadro representando o que pode ser o viaduto de que por vezes se tem falado entre nós como o meio plausível de ligar a rua Direita, isto é, o centro da cidade, ao novo bairro do morro do Chá”, dizia o artigo do jornal

O projeto apresentado por ele em 1877 aos órgãos municipais, teve boa recepção entre a população, mas sofreu grande oposição do Barão de Tatuí, pois sua família morava num grande sobrado na atual rua Líbero Badaró, bem na entrada do Viaduto do Chá (onde hoje está a Praça do Patriarca e o Edifício Conde Prates). A questão foi levada a juízo, e a conclusão foi pela desapropriação do imóvel, para poder viabilizar a obra. O barão resistiu e disse que não saíria do local. Os moradores que queriam a obra, cansados de esperar o desfecho da situação, se armaram de picaretas e outras ferramentas e destruíram uma das paredes do sobrado do barão. Então ele se mudou e as obras finalmente prosseguiram.

Martin organizou uma empresa, a “Companhia Paulista do Viaducto do Chá” para a execução da obra e encomendou da Alemanha a armação metálica do viaduto. O viaduto tinha 240 metros de comprimento, dos quais 180 eram a estrutura metálica importada, além de 14 metros de largura. As obras começaram em 1888, e a polêmica demolição da casa do barão de Tatui aconteceu em 1889.

Entre a inauguração e esboço original do projeto, passaram-se 15 anos. O nome “Viaducto do Chá” foi dado em função da grande plantação de chá da Índia que havia em todo o Vale sobre o qual foi construído o viaduto, ou porque havia a presença de mascates que vendiam chá na região antes mesmo do viaduto ser idealizado.

O viaduto em 1926, com os belos jardins no vale que substituíram as chácaras. Nesta ocasião o viaduto já tinha pesado tráfego de bondes e pessoas, o que motivou a construção de uma nova estrutura.

Junto com o viaduto veio também a construção de portões e guaritas de madeira em suas duas extremidades, onde então era cobrado polêmico pedágio de três vinténs pela passagem pela empresa responsável pelo viaduto. Por conta disto o viaduto ganhou também o apelido ‘viaduto de três vinténs’. Certamente este pedágio logo se tornou alvo de críticas e protestos e foi revogado pela Prefeitura após os acordos da Câmara Municipal.

Imagens da primeira reforma do viaduto para reforço estrutural, para permitir a circulação de bondes. No detalhe algumas moradias de trabalhadores cercando o vale de plantações ((Foto: Acervo Fundação Energia e Saneamento).

Mas o crescimento da cidade e a grande circulação de pessoas e veículos fizeram a estrutura de metal do Viaduto a sentir os efeitos das pesadas cargas, e iniciou-se um debate para uma possível reforma de reforço.

A solução foi acordada em 1938 e consistia em construir uma nova estrutura no lugar da anterior, duas vezes mais larga e de cimento armado. As obras começaram no mesmo ano, e diferentemente do ato da inauguração, a demolição da antiga estrutura para dar lugar à nova não teve nenhum evento festivo de grande concentração de pessoas e autoridades, ou seja sem nenhum holofote de destaque.

Detalhe da construção do novo viaduto em cimento armado (anos 30).

Num raro momento, os dois viadutos juntos: no lado esquerdo o novo viaduto de concreto armado e na direita o antigo viaduto prestes a ser demolido. Ao fundo e a direita a construção do Edifício Matarazzo, hoje sede da Prefeitura Municipal. E ao fundo a esquerda o palacete Conde Prates, demolido depois para a construção do edifício contemporâneo de mesmo nome.

O anuncio do Estadão sobre a entrega do novo viaduto do chá em 1938.

Uma cena de 1948, o viaduto, sobre as avenidas do vale do Anhangabaú e o Edifício Alexandre Mackenzie totalmente concluído.

Atualmente, o viaduto serve de ligação às ruas Barão de Itapetininga e Direita, ou entre as Praças Ramos de Azevedo e a Praça do Patriarca, por onde passam diversas linhas de ônibus, além de milhares de pedestres diariamente. Por estar em sua margen a atual sede da Prefeitura (O Edifício Matarazzo) é comum a ocorrência de manifestações e protestos das mais variadas motivações.

Tumulo de Jules Martin, o projetista do viaduto do chá, no cemitério-museu da Consolação.

Além de tudo que acontece na região, com o viaduto sendo o protagonista central, dos 27 endereços paulistanos mais requisitados para filmes, novelas e comerciais, 15 ficam nos distritos Sé e República.

E certamente o Viaduto do Chá é o primeiro deles, empatado com a vibrante Avenida Paulista. Em segundo lugar nada mais, nada menos, que o próprio Vale do Anhangabaú, logo abaixo do viaduto, vindo em terceiro não distante dali a Praça da Sé.

O viaduto e parte do Vale do Anhangabaú, num belo ensaio de Carlos Augusto Magalhães em 2008.

Aos 120 anos, o primeiro viaduto de São Paulo, continua sendo além de um dos pontos turísticos mais requisitados, um local vibrante e partícipe de grandes histórias.

O Viaduto do Chá e o Vale do Anhangabaú em 2010: fluxo viário subterrâneo, e a volta dos jardins e espaços para eventos. O viaduto é o camarote de contemplação de tudo isto.(Foto: Miguel Schincariol)

Parabéns pelo aniversário……


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