No dia 22 de Outubro, ocorre o aniversário de 73 anos da primeira “cópia” “xerox” da história, fato este conquistado por um inventor persistente e visionário naqueles remotíssimos anos 30, no século passado que, com uma dedicação incansável, trabalhava durante a noite e nos fins-de-semana num laboratório improvisado, na Cidade de Nova York.

Chester Floyd Carlson foi um homem rico, um dos poucos a receber milhões de dólares oriundos dos direitos de uma invenção. Morou numa bela casa na parte norte do Estado de Nova York, desfrutando de lazer e conforto, que foram justamente o oposto daquilo que ele possuía quando era criança.

Aos 12 anos, um menino magro e desengonçado, em San Bernardino, na Califórnia, Chester tinha uma porção de “bicos” para ajudar a família a sobreviver. Aos 14 anos era o principal sustentáculo da família, acordando às cinco da madrugada para lavar vitrinas antes de ir à escola, varrendo bancos e escritórios na parte da tarde, trabalhando de seis às seis aos sábados.

Ele era filho único; o pai, um barbeiro ambulante, ficara incapacitado para o trabalho devido à artrite e tuberculose; a mãe dele também contraíra tuberculose.

Carlson vivia em circunstâncias tais que teriam levado muitos meninos a deixar a escola, mas ele aguentou firme, um espantoso exemplo de diligência juvenil. Quando no ginásio, além do trabalho de servente, arranjou um de aprendiz de tipógrafo, e aos sábados e domingos trabalhava em um laboratório químico. A mãe morreu quando ele estava com 17 anos.

Cursar a universidade tendo de sustentar e cuidar do pai doente parecia tarefa quase impossível. Mas Carlson não se abateu e após cinco anos de árdua luta, estava com um diploma de Bacharel em Ciências Físicas e 1.400 dólares de dívidas.

Era o ano de 1930, período pós depressão, e havia falta de empregos: cartas para 82 empresas trouxeram-lhe duas respostas, e nenhuma oferta de trabalho. Mas com sua persistência, Carlson conseguiu emprego certo mesmo, em uma empresa de eletrônica de Nova York (Bell Labs), no departamento de patentes. Depois foi para o departamento de patentes da fabricante elétrico/eletrônico chamada P.R.Mallory amp; Company. Carlson ficou impressionado com a dificuldade de se obter cópias suplementares de documentos e desenhos.

Os manuscritos tinham de ser novamente batidos à máquina e os desenhos enviados para firmas especializadas em fotocópia — processo caro e que exigia muito tempo. Carlson pôs-se a pensar em como seria útil se os escritórios tivessem uma máquina na qual se pudesse introduzir um original apertar um botão e assim conseguir uma cópia. Em 1935 ele se decidiu a inventar essa máquina. Naqueles tempos como hoje era coisa comum afirmar-se não ser mais possível a um só indivíduo ganhar fortuna, e que invenções importantes só podiam sair de laboratórios grandes e bem organizados. Carlson, com 29 anos, magro e míope, mas uma pessoa difícil de desencorajar, iria provar que os pessimistas estavam errados.

Trabalhou sozinho durante três anos, estudando as maneiras pelas quais a luz pode afetar a matéria a procura de uma forma não convencional de transferir imagens de uma página para outra. Seus sábados, domingos e suas noites eram passados na Biblioteca Pública de Nova York. Estudava na condução. O tempo não chegava para tudo, pois ele carregava um fardo tríplice: tinha um emprego, à noite cursava a Faculdade de Direito, e procurava os meios de realizar seu sonho. Suas investigações teóricas acabaram levando-o a eletrostática, e em 8 de setembro de 1938, ele requereu que deu o nome de eletro-fotografia, patente #2,221,776 concedida em 19 de novembro 1940.

Parte do descritivo da Patente

Carlson tinha firmemente em mãos o conceito básico (conforme ficou demonstrado posteriormente quando a patente foi concedida), mas tinha ainda de coloca-lo em prática. Quando se tornou evidente que seu “laboratório”– um armário embutido num apartamento de um cômodo único era inadequado, alugou um quarto minúsculo em Astória, Long Island, equipando-o com bancada, placas de metal, resinas, enxôfre, produtos químicos e um bico de Bunsen. Dos seus ínfimos recursos financeiros ainda conseguiu tirar o suficiente para contratar um físico, Otto Kornei, para fazer serviços de laboratório.

A primeira “cópia”

Naquele quarto triste, a 22 de outubro de 1938, a frase “10-22-38 Astória” foi escrita a tinta em uma lâmina de vidro. Uma placa metálica revestida de enxofre foi esfregada com um lenço de algodão para dar-lhe uma carga elétrica e exposta a lâmina de vidro por três segundos, sob a luz de um refletor. Quando a placa foi pulverizada com um pó chamado licopódio, os dizeres “10-22-38 Astória” apareceram nela. E quando um pedaço de papel encerado foi comprimido contra a superfície sulfurosa da placa, a frase apareceu no papel. Essa foi a primeira copiagem electrostática do mundo — posteriormente denominada xerografia, do grego “escrita sêca”: copia sem papel umedecido ou substâncias químicas.

Mas diante de Carlson estavam anos de rebates falsos. Nunca lhe agradavam as versões das máquinas que, partindo de seus desenhos, os fabricantes produziam. Quando tentou interessar financiadores, estes ficavam geralmente indiferentes.

De 1939 a 1944 foi repelido por mais de 20 companhias, inclusive a antiga Remington Rand, GE, RCA, Kodak e a IBM. O Conselho Nacional de Inventores reconheceu a necessidade de máquinas de copia, porém desprezou o processo de Carlson.

Outra parte do descritivo da patente

Da patente à prática

Mesmo assim, êle continuou a escrever cartas. a fazer visitas e a melhorar suas patentes. (Foram-lhe concedidas quatro patentes básicas que ele acumulou com detalhes que abrangiam tudo.) .Em 1944 foi a Columbus, Estado de Ohio, para demonstrar seu processo ao Battelle Memorial Institute, uma organização de pesquisa industrial não lucrativa. Battelle concordou em assumir o encargo de levar avante o invento em troca de 60% de todos os lucros. Os fabricantes continuavam desinteressados — alguns deles classificavam o processo de “grosseiro” ou “parecendo um brinquedo”.

Quando os gastos com pesquisas de Battelle em xerografia passaram do limite pré-estabelecido, Carlson de acordo com o combinado, teve de investir 15 000 dólares ou veria seus direitos caírem de 40% para 25%. Investiu todas as suas economias, pediu dinheiro emprestado, convenceu parentes a ajudá-lo.

Fábrica da Haloid em 1958

A maré virou quando uma pequena firma de Rochester, Nova York, (a Haloid Corp., atual Xerox), começou a negociar direitos comerciais. Em abril de 1947, Carlson recebeu o primeiro cheque de royaltie’s de Battelle –2500 dólares. Mas nenhuma máquina Xerox foi posta no mercado antes de 1950. Levou mais 10 anos para a companhia lançar o Copiadora 914, uma máquina do tamanho de uma mesa, que, ao se apertar um botão, fazia cópias secas e em papel comum. A 914 se notabilizou, pois além de inovadora, disponibilizou para mundo o sonho primário de Carlson. O sucesso do equipamento foi estrondoso, e sobrou até uma utilidade estranha para esta copiadora. Foi utilizada para espionagem por algum tempo naqueles anos tensos da guerra fria. Em seu sistema ótico interno foi instalada uma “mini-câmera” e todos os documentos escaneados para cópia, eram capturados e isto ocorria dentro da Embaixada Soviética em Washington.

A primeira copiadora, a 914

A propaganda impressa da 914

Nessa ocasião havia copiadoras de escritório no mercado – como por exemplo, a Verifax da Eastman Kodak, uma copiadora “molhada” que emprega reveladores químicos, e a ThermoFax da 3M, um método seco que utiliza o calor de uma lâmpada infra-vermelha para formar imagens em papel especial. As vantagens da máquina Xerox eram: um processo seco quê não utilizava produtos químicos nem exigia papel especial e produzia cópias de alta qualidade.

Primeiros comerciais da Xerox

Essa foi a máquina que desencadeou a mais radical revolução em copias de escritório — e habilmente utilizada, terminou sendo um dos negócios mais espetaculares de toda a História. Os lucros de Xerox foram às alturas nos três anos seguintes, além do que o bloco de ações da Battelle, cerca de 5% das preferenciais foi avaliado em várias dezenas de milhões de dólares. Carlson, além das substanciais quantias dos royalties, ficou com um capital na sociedade avaliado em cerca de 19 milhões de dólares.

A Xerox, viria a se tornar uma das organizações mais inovadoras e rentáveis do século 20, particularmente nas décadas de 70, 80 e 90, e Carlson tornara-se extremamente rico. O sonho do adolescente tinha se tornado realidade: uma grande invenção lhe tinha livrado realmente de pobreza. Embora rico, Carlson tinha hábito simples de viver. Ele preferiu dar uma riqueza considerável a uma variedade de causas sociais. Seu sofrimento em chegar até ali tinha lhe dado uma enorme força interna, e aberto seu coração às necessidades de sociedade. Estima-se que só pela invenção, tenha ganhado 150 milhões de dólares, dos quais 100 milhões tenha dado a caridade.

A Xerografia, como processo completo, seria também documentada e publicada em 1965 por John H. Dessauer (vice-presidente executivo) e Harold E. Clark (Diretor científico – da Divisão de Engenharia e Desenvolvimento), da Xerox Corporation, sob o título de “Xerography and Related Processes”, livro com relativo detalhamento técnico e científico, onde engenheiros e cientistas do Battelle Memorial Institute, e da Xerox, exploram em 18 capítulos e 520 páginas, a ciência da Xerografia.

Carlson, viria a falecer em 19 de Setembro de 1968 de ataque cardíaco, caminhando num teatro em Nova York, na West 57th Street. A Xerox continuou a avançar e constantemente modernizar escritórios, e inovar tecnologicamente o Século 20. Uma destas inovações foi a criação de uma instituição, que era a personificação da persistência e ideais visionários de Chester Carlson, o PARC, que viria a influenciar vários segmentos da tecnologia, com reflexos profundos até os dias de hoje.

Happy Birthday Xerography (feito em 2008)

Historia contada pela Filha de Chester Carlson

A invenção de Carlson, materializada de diversas formas, em todos estes anos, tornou nos dias atuais uma “commodity tecnológica” presente em vários cenários da sociedade, fabricados e comercializados por várias empresas, com as mais diversas variantes, cujo objetivo final é a materialização da impressão sobre uma folha de papel e similares.

Por Chester Floyd Carlson, 22 de Outubro tem que ser comemorado com louvor, pois mudou o mundo de fato !!


Cortesia e Agradecimentos: Xerox Corporation, PARC e Xerox Brasil

Como era o mundo antes da Xerografia

As patentes de Chester Carlson


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